É possível comentar um filme, sem mesmo ter assistido? Não se trata o presente ensaio de analisar propriamente uma produção cinematográfica e sim os temas ventilados pela filmagem: o paradigma de bandido e mocinho. Daí que a realidade prescinde das lentes ou traduções artísticas, mas é sempre um alento quando o produtor logra perceber que o fenômeno da violência é maior do que fórmulas de simplificação.
A primeira observação sobre o mocinho — a Polícia — ineludívelmente trata-se de uma instituição das mais desprestigiadas pelo poder público, sem qualquer amparo técnico ou benefícios de carreira. A força policial é interpretada de forma marginal porque, deveras, é tratada marginalmente pelo Poder Executivo e, não raro, pelos demais que compõe a tríade republicana. Delegados que atuam sem garantias constitucionais mínimas, como braço longo do poder que gerencia a investigação, ainda sob as ameaças constantes de interceptações de atribuição funcional, é claro que não podem desenvolver uma produção na qual a sociedade aplauda.
Ainda dissertando sobre os mocinhos — os índices de corrupção policial são infinitamente menores do que a sensação generalizada de medo, contaminada a opinião pública. É bem verdade que ressalvas há em qualquer parte, o que não pode descredenciar todo um seguimento que, malgrado o despreparo e a carência franciscana de recursos, ainda se bate por conter o avanço das ocorrências penais. Quando falta gasolina para o flagrante e o papel para a ocorrência, a sociedade deveria ser informada da impossibilidade de retorno às suas expectativas, por culpa notória dos governos respectivos. Se o minguado contingente da Polícia Federal causa espanto àqueles que enaltecem a atuação sempre coberta pelas assessorias de imprensa, morrerá de desgosto ao perceber o pauperismo das polícias civis brasileiras.
O bandido, enfim. A figura do criminoso não poderá ser romanceada, de fato. Se há violência pura e simples, atentando contra a incolumidade pública e ameaçando a cidadania das vítimas, por certo é que a repressão estatal deve atuar contundentemente. Justificar o crime somente pela condição social no qual o delinqüente está inserido seria uma simplificação ignóbil, própria das esquerdas em todo o mundo. A motivação do crime pode contar com milhares de elementos, desde aspectos psicológicos, como questões atinentes ao meio econômico onde está mergulhado o criminoso. Todavia, devemos reconhecer que dificilmente alguém se arriscará a partilhar responsabilidades, na apuração do ilícito ou mesmo na sentença penal. E nem é o caso.
O que queremos deixar claro é que, ainda não culpando a pobreza pela incidência de crimes contra o patrimônio e nem escusando o delinqüente, a verdade é uma só: as ocorrências de delitos mais comezinhos que demandam atenção imediata do poder público e que sugerem um estado de insegurança pública, tanto mais são cometidos, quanto mais há disparidade de renda. O problema é que o Brasil é um país tão pobre que à mingua de dados estatísticos, ninguém ousa compará-lo com recantos menos e mais desenvolvidos, porque perceberia uma responsabilidade coletiva — difícil de assumir.
É preferível afirmar que “nem todo pobre é ladrão” do que reconhecer que a criminalidade está estampada em zonas mais pobres do globo e do país. Assim, a solução de emergência penal torna-se bem mais crível e cômoda, sem perpassar pela discussão social, tal qual a dificuldade em dialogar num casamento já fadado ao fracasso. Dessa forma, a polêmica sobre segurança pública sempre terá o fracasso como meta, caso insistamos em mirar o crime como fenômeno autônomo, sem causa além do barbarismo do indivíduo. Pode dar ibope aos programas policiais ou eleger alguns mantenedores da lógica do terror, mas não resolve o problema jamais.
Ora, a filmagem deixou claro que o tráfico de drogas tem como combustível fundamental o consumo e que a sociedade brasileira precisa ter ciência da co-responsabilidade e dos reflexos onerosos de opções que ela mesma toma. É o consumidor quem financia o tráfico e, desse modo, induz à violência. Por isso mesmo, temos insistido enfaticamente que se dá com o fenômeno criminal o mesmo da questão ambiental: o desmate e a queimada do norte está repercutindo no sul, de modo a chamar atenção dos centros financeiros até então pouco preocupados. É que a fumaça chegou aos quintais da elite formadora de opinião.
Dispenso os búzios: o crime demandará atenção quando se tornar uma fumaça insuportável. Contudo, nesse caso, as celas não vão poder conter o fogo. Com o advento do filme Tropa de elite, parece-me que o descaso e o cinismo institucional dos alienados críticos da Polícia precisa acabar, sob pena de serem os próximos alvos da própria ignorância.
Há muito tempo venho estudando temas sobre segurança pública e, em especial sobre a polícia. Nunca tinha lido um artigo tão lúcido e real. Parabenizo o autor e confesso que a princípio pensei tratar-se de um policial. Vejo a polícia como uma instituição de Estado e não como um instrumento do passado que torturou etc. É preciso resgatá-la para o nosso bem, pois, se de um lado somos usuários deste serviço, do outro somos destinatários. O Governador "choque de gestão" (em SP) que em benefício da polícia e, por conseguinte, da sociedade, só fez editar as Leis 893 e 922, todas de cunho repressivo, que criou conjuntos habitacionais para policiais a beira de favelas em guerra o que, de certa forma, cuminou com a exasperação da violência nestes locais. Vetou, ainda, a exigência de cargo universitário para as carreiras de investigador e escrivão, sob o argumento de que estes profissionais iriam querer ganhar mais. A polícia foi usada politicamente na época da repressão e o continua a ser. A repressão ganhou apenar ar de democracia. Se a investigação der certo,logo aparece alguém dizendo que comprou viaturas, etc, mas se der errado, coitado do sd PM Zé, vai amargar um longo período no Romão Gomes. É preciso aproximar a polícia das universidades, da mídia (não a sensacionalista) e dos demais ramos da soceidade.
Não concordo com o Dr. Reginaldo.
O "buraco" é bem mais embaixo.
Meu pai sempre dizia: "a Polícia é grade do bueiro da Sociedade. Toda a sujeira vai parar lá". Isso é um fato.
O outro fato é que embora todos palpitem sobre e queiram uma viatura da polícia defronte às suas portas, ninguém GOSTA da Polícia! Querem arrancar o siso sem anestesia a entrar numa delegacia, justamente pelas circunstâncias que geralmente isso envolve (ser envolvido em alguma ocorrência, ser culpado de alguma coisa ou vítima de um crime!).
Daí o porquê de nossas forças policiais serem extremamente desvalorizadas no nosso País. Um "patinho feio" semelhante à rede de esgôtos (que dá poucos votos porque fica enterrada no chão).
Todos querem maior e melhor segurança, mas nada de prestigiar o trabalho e a pessoa do policial.
Inclusive as próprias autoridades. Tivemos, por exemplo, o caso do ex-governador Mário Covas (que Deus o tenha!) que disse certa vez, na cara do Delegado-Geral, numa solenidade: "Vejo em cada um de vocês um Fleury!". O que se pode esperar de visões assim?
A Polícia de São Paulo já foi considerada, na primeira metade do século passado a quarta melhor polícia do mundo (atrás da Scotland Yard, do FBI e Sureté apenas). Ainda hoje é a mlehor do Brasil, de longe, com a solução dos casos mais complicados ("A polícia só não resolve o caso quando não há interesse", também dizia meu pai).
Um outro grande problema ao lado e conectado com essa falta de interesse da população é a RELATIVIZAÇÃO de valores pela qual vimos passando há já muito tempo e que vem alcançando estado agudo atualmente. Poucas pessoas se propõem a chamar "pão" de pão e "ladrão" de ladrão (principalmente este último) e circulam as teses as mais absurdas a favorecer a impunidade e a não-penalização.
Os circulos de esquerda, que investem na agudização do racismo, na divisão entre pobes e ricos e na intensificação da criminalidade para solapar a "sociedade burguesa" - num substituto melhor e mais eficaz do que a antiga e desmoralizada "luta de classes" - propagam teses como a da anódina e genérica "responsabilidade social" pelo delito, diluindo ou apagando a responsabilidade INDIVIDUAL de cada agente.
Existem crimes, porém cometidos pelas pobrezinhas vítimas da desigualdade social que são, em última análise, vítimas, elas sim, dos "burgueses" a quem atacaram!
Pura INVERSÃO DE VALORES praticada cada vez mais indecorosa e descaradamente ante a uma Sociedade sonâmbula e desarticulada e contestada por muito poucas pessoas de coragem!
O filme em questão, foi alcunhado de "fascista" pelo jornalismo "engajado" e por certos uns "intelequituais", justamente por expor realidades, sob o ponto de vista de seus protagonistas (o CApitão nascimento, por exemplo) sem ambigüidades. O referido personagem tem uma visão clara e chocante da realidade criminosa e a combate com decisão e brutalidade.
Ousa, mais ainda, a expor a responsabilidade do consumidor de drogas (oh, que heresia!) no ciclo de violência e enriquecimento do tráfico!
E isso, tanto a falta de ambigüidade como a desglamourização do marginal, são insuportáveis a esses "intelequituais" de esquerda, que imediatamente começam a gritar, ensandecidamente, como a Rainha de Copas da Alice: "Cortem-lhes a cabeça! Cortem-lhes a cabeça!"
Afinal, ser contra a ditadura do "politicamente correto" e as ideias "enrrageés" é pecado! É heresia! A ser combatida e obtida a abjuração do herege ou a sua eliminação!
Quem são os reacionários e totalitários mesmo?
Ah, e uma perguntinha mais: "quando ficar insuportável" ?!!!
Excelente artigo, tive agora oportunidade de ler! Sei quem é o autor, assim como eu formado na UFMT. Bom saber que existem pessoas que realmente analisam o problema da Segurança Pública com tal sobriedade.
Recentemente escrevi um artigo sobre as características do crime organizado no Brasil, a conclusão foi bem parecida, se analisarmos o crime sob a ótica individual, como fenômeno autônomo, estaremos fadados ao insucesso. A Polícia, como instância formal de controle da criminalidade, a tropa de frente nesse papel, deve ser repensada e reformulada, urgentemente! Simultaneamente, nossa sociedade terá que alargar sua amplidão de cidadania para que o Estado chegue e alcance a mulidão de miseráveis, engolidos pelas facilidades do crime organizado.
Mais uma vez, parabéns pelo artigo, um dos melhores que já li nesse sítio.
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