Nem sequer o feto é equiparado à pessoa pelo Direito

Artigo originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo na terça-feira (1/4)

Pleiteia o procurador-geral da República que o Supremo Tribunal Federal declare inconstitucional o artigo 5º da Lei 105/05, que autoriza a pesquisa para fins terapêuticos com células-tronco embrionárias inviáveis para a reprodução, argumentando que a vida tem como marco inicial a fecundação, devendo ser, a partir de então, protegida de forma absoluta pela Constituição.

A questão posta, e que está sendo objeto de discussão e julgamento pela suprema corte, esbarra numa premissa da maior importância: se o embrião fertilizado in vitro vier a ser considerado inviável à reprodução, pode, ainda assim, ser equiparado à condição de pessoa, sujeito de direitos fundamentais? A resposta é negativa. E isso porque nem sequer o feto é equiparado à pessoa pelo nosso ordenamento jurídico.

O Código Penal, que pune o aborto como crime, apresenta duas hipóteses de licitude de tal conduta: quando se faz necessária para salvar a vida da mãe em trabalho de parto ou quando objetiva proteger a dignidade da mulher, desobrigando-a de prosseguir na gestação do produto de um estupro.

O embrião é considerado inviável quando apresenta má-formação ou assim se presume quando tenha permanecido por tempo superior a três anos em congelamento de menos 175 graus Celsius. Qual é o seu destino? O descarte, o congelamento por tempo indefinido ou a pesquisa terapêutica autorizada pelos genitores. Nunca se ouviu contar de funeral de embrião que, se considerado um ser humano, seria acompanhado de cerimônia religiosa.

No caso de dar um destino científico ao embrião inviável, o que se está objetivando é a busca de salvação para criaturas portadoras de males gravíssimos que as impedem de viver ou, pelo menos, de desfrutar uma vida em melhores condições. Abre-se a ciência para a tentativa heróica de dar esperança para muitos seres impossibilitados até de esperar por milagres.

Se o ordenamento jurídico prevê a exclusão do caráter criminoso do ato de matar em algumas circunstâncias, como em legítima defesa ou em estado de necessidade, por que se há de considerar crime a utilização de células-tronco inviáveis para a vida para que viabilizem vidas de seres fadados ao sofrimento, a moléstias sem volta, à morte?

Os que pretendem que seja crime a utilização de células-tronco incapazes de se transformarem em gente com fundamento em princípios religiosos, lembrem-se de que a vontade de Deus haverá de ser cumprida dando-se às células-tronco incapazes de prosseguir seu ciclo evolutivo normal o poder de serem viáveis para a salvação de pessoas incapacitadas de desfrutar a graça de viver em condições mais condizentes com sua dignidade.

Quando se pensa em tais seres padecentes de tanto sofrimento, há de se pensar também naqueles que repartem com eles tamanha dor e que vêem na pesquisa que o Ministério Público e entidades religiosas pretendem proibir uma esperança final para a salvação dos seus entes queridos.

Indago, pois, e o faço agora como cristão: por que se posiciona a igreja de forma tão intolerante, inadmitindo a tentativa de cura de muitas criaturas, optando por desprezar o uso de tais células na luta por salvar vidas? Qual a razão teológica, moral, ética para impedir que a pesquisa contribua com a obra do criador?

Sem atrever-me a penetrar na seara de tais temas, ouso lançar argumento intuitivo que me parece dever ser refletido. A utilização, em outro ser, de células-tronco consideradas inviáveis é a forma mais digna de dar continuidade ao seu projeto vital.

O voto do ministro relator Carlos Ayres Britto é histórico, profundo e extremamente humano. A ministra Ellen Gracie, antecipando-se com seu voto, marcou também sua posição de coragem. Aguarda-se o voto do ministro Menezes Direito, que pediu vista. Se é verdade que se trata de um respeitado jurista conhecido como homem fiel aos mandamentos da igreja, cresce a esperança de que se apóie na virtude da caridade para o fundamento moral de seu voto, já que sobejam motivos de ordem jurídica.

E, de qualquer forma, qualquer que seja a orientação de seu voto, espera-se que permita que seus pares se pronunciem o quanto antes, para que a questão seja definida de uma vez por todas.

Estamos nós, ansiosos, diante de um momento grandioso da história do Supremo Tribunal Federal, aguardando uma decisão sábia e urgente, decisão que deverá vir calcada na justiça e na compaixão.

José Carlos Dias

é advogado criminal, ex-secretario de Justiça do governo Franco Montoro, em São Paulo, ex-ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso e ex-presidente da Comissão de Justiça e Paz.

Armando do Prado disse:
02 de abril de 2008 às 10:01

Pessoas, são as centenas que estão jogadas nas ruas do centro aqui de Sampa. Por que os que se preocupam com o feto ser ou não pessoa, não lutam para acabarmos com essa violência contra crianças e adolescentes literalmente jogadas nas ruas?

Rose Cervini disse:
02 de abril de 2008 às 10:37

Pois é, não vi ainda nenhuma religião, seita ou seja lá o que for promover o "enterro" de um embrião!

Parabéns pelo artigo Dr. José Carlos Dias, abaixo a ignorância e a hipocrisia.

Mesmo porque os abortos continuam acontecendo com ou sem a aprovação da Igreja e dos políticos, as crianças continuam sendo abandonadas pelos pais e pelo Estado nesse Brasil imenso, os traficantes continuam drogando crianças e adolescentes, enfim a ladainha é sempre a mesma.

Já que o Estado é omisso em todas as áreas essenciais para garantir a vida e a dignidade humana, por que não interferir negativamente em mais essa?

Richard Smith disse:
02 de abril de 2008 às 12:34

Engraçado! Veja-se, aqui mesmo no CONJUR do dia de hoje, artigo de Cláudio FOntelles acerca do embrião fecundado após amis de três anos e que resultou numa gravidez e parto de uma criança absolutamente normal.

Deus que é extremamente delicado, volta e meia aplica umas bofetadas com luvas de pelica e com amor (por enquanto, pelo menos!) nos "sabe-tudo" da pseudo-ciência!

E este é um caso, como também o da pequena Marcela, filha da agricultora e Mãe de verdade, Cacilda, que, nascida anencéfala, está viva até hoje, com mais de um ano e meio de vida.

(quem quiser ver fotos da "não-viva", consulte o site www.providaanapolis.org.br)

Quanto aos apóstolos da morte de seres humanos INOCENTES e INDEFESOS, bem, um dia chegará, inexoravelmente, a hora de seu julgamento. Que se arrependam enquanto ainda podem!

Richard Smith disse:
02 de abril de 2008 às 12:41

Quanto ao "fessô" PeTralha, mistificador, fujão, borra-cuecas, anti-clerical, mentiroso, ABORTISTA, infantil e escrôto, pergunto:

O que uma coisa tem a ver com a outra? O descaso do(s) governo(s) para com as crianças e adolescentes (vide a prisão e violentação da adolescente no Pará da sestrosa ana júlia carepa e a mortalidade infantil por dengue do "cumpanheiro" sérgio cabral e do abortista temporão, no Rio) permite que se matem pessoas INOCENTES e INDEFESAS no ventre de suas "mães"?

Mais um "raciossímio" falacioso e mistificador, típico de um PeTralha!

Emilio de Moura disse:
02 de abril de 2008 às 13:26

o amor se manifesta nas mais diversas formas.

Vitor Guglinski disse:
02 de abril de 2008 às 13:29

Parabéns ao Dr. José Carlos Dias, que se mostra um indivíduo afinado com a realidade de tantos outros que vêem nas células-tronco uma chance de passar viver com dignidade, bem como usufruir, ainda, da liberdade, que é outro bem jurídico indispensável à vida digna.

Armando do Prado disse:
02 de abril de 2008 às 15:57

Feto é quem escreve bobagens como o consultor fundamentalista e tucanalha que, vira e revira, mas, acaba insultando por falta de argumentos razoáveis. Aliás, como o seu "tio" reinaldo "chapéu" azevedo.

Richard Smith disse:
03 de abril de 2008 às 01:33

O "fessô" confunde oposição com insulto, embora sabendo que cada epíteto do longo e rico galardão com o qual o qualifico corresponde à verdade e à uma situação de fato.

"Choses de PeTrailles".

E a minha pergunta ficou sem resposta, claro.

DPF - MATHEUS disse:
03 de abril de 2008 às 16:44

Boa Tarde,

Após ler o artigo e os comentários sobre este, gostaria de colocar que este espaço mereçe uma distinção ímpar para expor temas e comentário que enriqueçam o diálogo e o conhecimento, comentário fundados em agressão fortuita, não mereçem apoio.
Devemos sempre pautar pelo equilíbrio e moderação nos assuntos que margeiam a polêmica, todos temos a nossa visão do mundo e das coisas, resultado de nossas experiências e essas não devem ser menosprezas em hipósete alguma, sob qualquer algumento, sob qualquer pretexto.
Fundamento religioso e moral ético e não jurídico, senão poderiamos anotar que estamos num Estado Laíco e que a Igreja jamais poderia falar em salvar vidas pois, no passado ela própria mandou muita gente para "fogueira" somente por discordar de seus preceitos.

Obrigado pela atenção dispensada.

Sérgio Matheus.

Polly disse:
28 de maio de 2008 às 20:14

Só o ministro Direito que não vê isto.

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