A estridente polêmica em torno das células tronco ofereceu ao mundo jurídico mais que as discussões diretamente relacionadas ao tema em julgamento. O atual colegiado, recém formado, levou a um novo patamar o exercício da divergência que, embora seja frequente na Casa, nem sempre atinge a temperatura que chegou esta semana.
À distância, chamou mais atenção o interessante duelo semântico entre os ministros Celso de Mello e Cezar Peluso. Para os iniciados, contudo, foi mais relevante a fricção — aparentemente menos clamorosa — entre Carlos Alberto Direito e Ellen Gracie.
Entusiasmada por defender posição mais palatável para a maioria, a ministra arrojou-se contra a posição de Direito, chegando às raias do menoscabo. Antes, não escondeu irritação com o pedido de vista do colega. Depois, criticou a divergência, mesmo sabendo-a vencida de antemão. Teria avançado o sinal, na opinião de colegas. Tripudiou.
A oportunidade da resposta foi proporcionada pela própria Ellen. Direito teria se ressentido porque a ministra Ellen não respeitou o pedido de vista dele e adiantou seu voto. Não bastasse isso, na ocasião, Ellen ainda deu um pito em Direito. Justificou sua decisão de adiantar o voto porque a questão já havia chegado ao Supremo há três anos e insinuou que todos podiam ter ido ao julgamento com o voto preparado.
Direito, que havia se tornado ministro do Supremo há apenas seis meses, ouviu a bronca em silêncio. Ao apresentar seu voto nesta quarta-feira (28/5), menos de três meses depois, cumpriu a promessa de não demorar no pedido de vista. Nesta quinta, Ellen Gracie pediu a palavra e criticou o voto de Direito. Sem perder a sua característica elegância, a ministra disse que não podia acompanhar Direito porque, ao votar impondo restrições às pesquisas, ele estava extrapolando as incumbências do Supremo Tribunal Federal. Ellen também menosprezou a sugestão de Direito de que sejam feitas as pesquisas, desde que a retirada de células-embrionárias não mate os embriões. “É um trabalho de um grupo único e ainda não foi publicado. Prefiro me apoiar no que diz a maioria da comunidade científica brasileira.”
Apesar de se ter abraçado a um raciocínio sustentável e legítimo, a ministra não mostrou lá muita condescendência com a divergência. A atitude abriu as portas para uma aula de boas maneiras. Direito lembrou que a ministra adiantara o voto e lamentou por ela não ter tido oportunidade de captar todo o voto dele. Depois, repeliu as dúvidas que Ellen colocou sobre a validade do método de pesquisa por ele apresentado. E fuzilou: “Terei prazer em ceder para a ministra meu voto”.
Da sua cadeira, Ellen mostrou no semblante a sensação do golpe assestado e tentou recuperar terreno sem perder a classe, argumentando que não queria desqualificar o voto de Direito, mas que ele concentrara a defesa de sua tese em pesquisa feita por um único grupo científico. “Não é não”, rebateu energicamente Direito. “É realizada por todas as clínicas de reprodução assistida.” Ellen se calou, Gilmar Mendes deu a palavra para Marco Aurélio, o próximo a votar. Marco Aurélio resumiu assim o mal-estar: “Esta é a beleza do colegiado: o somatório de forças distintas. Nos completamos mutuamente e de forma democrática”, disse e iniciou a leitura do seu voto. O julgamento, então, prosseguiu.

Parabéns à Ministra Ellen pela repreensão ao Ministro Direito por ocasião do pedido de vista.´
Realmente é um absurdo que o Ministro que já estava há cerca de 6 meses no Tribunal pedir vista para melhor compreender o que vai julgar.
A Ministra é extremamente ágil em seus "perdidos de vista", como comprova a ADI 2980, de 2003, abaixo: 27/10/2005 VISTA RENOVADA JUSTIFICADAMENTE, A PEDIDO, POR 10 DIAS NA SESSÃO PLENÁRIA DE 26.10.2005 - DECISÃO: RENOVADO O PEDIDO DE VISTA DA SENHORA MINISTRA ELLEN GRACIE, JUSTIFICADAMENTE, NOS TERMOS DO § 1º DO ARTIGO 1º DA RESOLUÇÃO Nº 278, DE 15 DE DEZEMBRO DE 2003. PRESIDÊNCIA DO SENHOR MINISTRO NELSON JOBIM. PLENÁRIO, 26.10.2005.
Talvez o problema da ministra seja justamente a sua pressa ao tratar de assuntos de extrema relevância.O caso em questão,inclusive,pode ser apontado como um dos mais controversos temas da atual jusfilosofia.Não acredito que a ministra tenha o notável saber jurídico exigido pela constituição,principalmente no que tange à matéria penal.Ela me parece ser uma notável especialista em arbitragem,o que não a qualifica para ser ministra do supremo.Contudo,sabemos que os critérios são políticos,em que pese o STF já ter suas vagas ocupadas por ministros brilhantes.De qualquer modo,o pedido de vista do ministro foi plenamente justificado,apesar que, por si só,não satisfez os critérios exigidos por um Estado constitucional para a decisão de questões que envolvem o significado da existência humana.O tempo que se pretende gastar discutindo tal matéria,é um indicativo de respeito axiológico.
No Brasil e, infelizmente, predominantemente no mundo jurídico, enfatiza-se a forma em detrimento da questão de fundo.Ainda assim, a Ministra Ellen Gracie não gravou nenhuma norma de polidez. Apenas foi enérgica.A articulista ousa dizer que o Ministro Menezes Direito foi ágil ao retornar os autos em apenas três meses.Isto sim, é um menoscabo à dignidade dos jurisdicionados.Concessa venia, o voto do Ministro Direito refugiu às lindes do Direito, prenhe que foi de empirismo e ideologia. Esperamos em D. que o Ministro vote melhor, mais objetivamente e de modo mais célere nas próximas questões.
edson areias-advogado- Brasília
O pito dado em Direito foi bem dado. A ministra cumpriu seu dever. Que boas maneiras não encubram manobras para favorecer o obscurantismo.
O Conjur continua me decepcionando:
"entusiasmada por defender posição mais palatável para a maioria" na opinião de quem????
Não foi só a ministra que ficou irritada com o desnecessário pedido de vista do Ministro, aliás, feito somente para agradar certos setores contrários à pesquisa.
"Direito que havia se tornado ministro do Supremo há apenas seis meses..."
E onde ele estava antes disso, em Marte??? Eu diria: Ministro que já era ministro do Supremo há mais de 5 meses...
Três meses não é demora no pedido de vista?
Finalizando não vi nenhuma aula de boas maneiras; só vi ironia, arrogância e prepotência, tanto do Ministro quanto da jornalista que escreveu esta matéria.
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