Prisão sem julgamento

A prisão espetáculo do médico Roger Abdelmassih

Entre 1936 a 1938, a Rússia comunista produziu uma série de três julgamentos contra os oponentes políticos do seu então ditador Joseph Stalin. Passaram à História como os “Julgamentos Espetáculos de Moscou”. Belas e profundas páginas sobre tais julgamentos foram escritas pelo advogado inglês Sadakat Kadri no primoroso livro The Trial.

O crime comum imputado aos acusados era destruir a União Soviética e assassinar Stalin. Todos eles não só eram confessos como pediam a si punição máxima.

Os julgamentos caracterizaram-se por grande publicidade, massivo apoio popular; haviam sido preparados e foram desenvolvidos de tal forma que mesmo vários observadores ocidentais à época acreditaram terem sido processos justos.

Mas o tempo mostrou, tarde demais, que os acusados eram inocentes.

O método para obter o reconhecimento de culpa foi ameaçar os acusados, humilhar e destruir suas vidas e de seus familiares, submetê-los à pressão da opinião pública, e mantê-los presos até concordarem em confessar.

E eles confessaram com riqueza de detalhes, mostrando os pormenores de seus planos, suas tentativas, encontros secretos etc., tudo narrado com grande coerência (embora, houvesse alguns detalhes errôneos mas que “passaram” desapercebidos aos julgadores, como no depoimento de um dos acusados descrevendo um encontro com outro conspirador no ano de 1932 num hotel em Copenhague, que, na verdade, já havia sido demolido em 1917).

Quem acompanhou os Julgamentos Espetáculos à época provavelmente se convenceu da culpa e da existência do complô, logicamente desde que fechasse os olhos a certos inconvenientes detalhes.

Os julgamentos atingiram seu real objetivo de consolidar uma política de terror, legitimar novos parâmetros de poder, intimidar inimigos, e obter apoio da população pela ampliação controlada da insegurança geral (só Stalin poderia salvar a pátria).

Tudo isso poderia ter ocorrido sem julgamento, afinal era uma ditadura, mas só com os espetáculos poderia se conquistar amplamente a opinião pública. Era um poder liberticida que estava se consolidando, e isso só ficou claro ao longo da História.

Sob pesadas acusações está preso, antes de ser julgado, o facultativo Roger Abdelmassih.

Ele está preso sob a acusação de ser autor de vários estupros, covardemente praticados contra suas pacientes, indefesas sob efeitos de anestesia. Mais de 70 mulheres resolveram apresentar seus testemunhos, suas palavras de vítimas vieram com riqueza de detalhes.

“As taras dos homens são terríveis”, disse uma vez uma delegada, ao tratar de outro caso famoso de um médico no centro-oeste.

Pior ainda, há suspeita de manipulação de óvulos e fraudes para melhorar a taxa positiva de resultado de gravidez na clínica.

A certeza dos crimes cometidos e a questão sobre fraudes em procedimentos médicos não deixa dúvidas sob a futura condenação. A sua clínica irá desaparecer.

Mas há alguns detalhes a serem ponderados. O conceito de estupro foi estuprado pelo legislador, que o ampliou para causar comoção na opinião pública. Ao invés de apenas agravar a pena, a lei preferiu piorar o fato, mudando o nome com a complacência da imprensa. A defesa, ainda, argumenta com o imenso número de mulheres atendidas na clínica contra o pequeno número de queixosas.

Pessoalmente sou inclinado a crer que haja culpa, pois é muito provável, pelo que se lê da imprensa, que tenham ocorridos os fatos, consequentemente ele deva ser condenado com o maior rigor possível, respondendo por todas as consequências.

Mas… E se ele for inocente ? E se não for verdade o que lhe imputam ? Ou, se houver exagero? E se o processo judicial — e ele existe para isso — provar a inocência do médico?

Afinal, erros em casos de crime existem há tempos, não que eu acredite na inocência de Roger, mas, e se for o caso ? Não parecia certíssima a culpa dos envolvidos no caso da Escola de Base ? Que falar então dos Irmãos Naves, quem duvidaria do homicídio e da confissão deles? E o comandante Dreyfuss?

Não só para evitar erro judiciário Roger poderia aguardar o julgamento em liberdade, afinal não estão livres Daniel Dantas, Igor Ferreira da Silva, Pimenta Neves, Rugai, etc.?

Eis o retrato do nosso sistema jurídico penal: Roger preso sem julgamento, Pimenta Neves, que foi condenado, está solto.

Não se pode comparar a ditadura stalinista com a democracia brasileira; não se pode comparar o Judiciário e o sistema jurídico soviético com o brasileiro.

Igualmente, não se pode comparar a violência daquela página negra da História, com a que estamos vivendo; a rigor nada poderia ser comparado a não ser por dois pequenos mas fundamentais detalhes: ambos os casos têm como objetivo real a consolidação de um pensamento liberticida que apenas se começa a se revelar e necessita de espetáculo a todo custo para se legitimar; e, a pena em ambas situações começou muito antes do julgamento.

Roger merecerá a prisão, merecerá arcar com as vultosas indenizações que as queixosas eventualmente poderão propor na Justiça Cível, deverá perder o direito de ser médico; mas merecerá isso após ser julgado e condenado, e não antes.

Diferentemente do ocorrido em Moscou, Roger deverá ter um julgamento justo, os acusados por Stalin só o tiveram pela História; mas igualmente aos julgamentos de Moscou, isso acontecerá tarde demais, ou porque sendo inocente Roger, a absolvição ser-lhe-á caríssima e sob certos aspectos inútil. Sendo culpado, a pena ficará acentuadamente agravada pois a punição já lhe adveio há muito tempo.

Jarbas Andrade Machioni

é advogado, sócio do escritório Machioni Advogados, conselheiro estadual da OAB-SP e presidente da Comissão de Direito Empresarial.

dinarte bonetti disse:
08 de setembro de 2009 às 13:46

Viroú pó a sumula 691, com os HCs de Daniel Dantas.
Repentinamente, volta a vigorar.
Caso interessantíssimo de repristinação, comando não reconhecido por nosso arcabouço jurídico.
Cabe um estudo apurado de nossos juristas. Afinal existe ou não a agora famosíssima súmula?

Scipius disse:
08 de setembro de 2009 às 17:13

O autor tem razão, a justiça brasileira gosta de usar o sistema de "dois pesos,duas medidas".
Agora, 70 testemunhas mentiram? ou se enganaram? Foi só uma "confusão" de métodos clínicos praticados? A defesa do médico esta mais perdida do que deficiente visual em tiroteio.

Eri Coelho - Jornalista disse:
08 de setembro de 2009 às 18:28

Alguns comentários você lê e concorda, outros discorda parcialmente, este é daqueles que o deixa irritado: Está achando que somos todos idiotas?
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Não dá para imaginar que mais de 70 mulheres estejam mentindo! Ao contrário, é possível imaginar que há centenas ou milhares de mulheres que por também foram abusadas, porém, por vergonha não queiram prestar queixa ou sequer se apresentar.
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Por outro lado, seria bom colher amostras de sangue do dito cujo para eventuais exames de DNA, pois, através dos seus métodos nada ortodoxos é possível imaginar que ele tenha engravidado algumas pacientes.
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Só idiota para acreditar na inocência do dito cujo.

hammer eduardo disse:
08 de setembro de 2009 às 19:09

Pela complexidade deste caso , o mais recomendavel é TODOS colocarem as respectivas barbinhas de molho ate que maiores detalhes venham a publico. Concordo com o autor do artigo em apenas UM item que é a cultura da "prisão espetaculosa" que ganhou grande impulso nesta ditadura mal disfarçada de esquerda sob a batuta torta do molusco 9 dedos. O que cansa a plateia é que o script nunca muda , é a GROBU coincidentemente sempre no local para mostrar o "furo" de reportagem , a saida do elemento escondendo a cara com o casaco, a entrada rapida na viatura que sai em desabalada carreira , logo depois os depoimentos , muitos com a famosa "voz de pato" e nas sombras e la nave va.....Alguns dias depois um grande medalhão do direito é contratado mediante o resgate de um rei e....BINGO , logo depois o cara esta na rua novamente para "responder em liberdade" e mais todos aqueles penduricalhos tecnicos que embrulham a patuleia para presente depois , a medida que a coisa vai caindo no esquecimento, o digno operador do direito munido de uma bela "moto serra juridica" vai aparando os galhos ate que a coisa se esvazia e some na poeira junto com tantas outras, NÃO MUDA NUNCA!!!!!!!
O que esta meio complicado de engolir é o fato de que as mulheres que apareceram ate agora são pessoas de classe alta e não se enquadram no "modelito morta de fome" que seria facilmente desmoralizavel pelo habil Advogado. Acredito que ai esta o pulo do gato. Acho quase impossivel imaginar mais de 50 vitimas (ate o momento) embarcarem na mesma canoa para "faturar algum troco" , como diz a malandragem que entende das coisas , " é ruim hem..." Vamos esperar para ver se não é mais um caso de Dr.Jeckyl e Mr.Hyde paulista. Nada aqui é surpresa mais, triste fim ...........

Osvaldo Bertolino disse:
08 de setembro de 2009 às 19:48

Digressão gratuitamente falsa sobre os acontecimentos na URSS. Além disso, parcial e tendenciosa — como toda propaganda ideológica. O texto poderia ficar sem essa grosseira revisão histórioca. Lamentável.

Armando Felicio disse:
08 de setembro de 2009 às 23:47

A defesa está de parabens. Foi só contratar um bom advogado, provavelmente por um custo bem elevado, que a estratégia para liberta-lo começou a ser disparada.

Julio disse:
09 de setembro de 2009 às 07:42

O comentarista está fazendo uma apologia à impunidade, pois, o que está errado é o sistema judiciário/penal de deixar solto Daniel Dantas, o Jornalista do Estadão e todos os outros que apesar de serem amplamente conhecidos como culpados/usurpadores estão soltos e riem na cara do coitado do povão.Citar casos fortuitos de erro judiciário não justifica essa posição, salvo, se tem algum interesse próprio.
O que está em jogo são os valores morais da sociedade, em que minimamente um se acredita no outro.Agora como está a mente daqueles que utilizaram dos prestimos desse Sr?. Você ficaria tranquilo ? Esse filho é seu biologicamente?

Roland Freisler disse:
09 de setembro de 2009 às 09:16

O casal Nardoni também encontra-se preso sem qualquer julgamento (a não ser o da imprensa). Impressionante como o Judiciário tem medo da opinião pública. Como a imprensa não mexeu com o Pimenta Neves, está ele ai, livre, leve e solto.

Iclea Queiroz dos Santos disse:
09 de setembro de 2009 às 13:34

Quer saber? Acho que a imprensa deu a dimensão exata que o caso requer. Esse "facultatito", deve ter feito o Juramento de Hipócrita e não o de Hipócraes. É fácil para o defensor desse monstro achar que ele foi condenado antes de ser julgado, mas não foi. A sociedade deve julgar um elemento dessa estirpe com toda a frieza que puder. Cadeia nesse infeliz! Mesmo que tais mulheres venham a exigir danos morais. Não há dinheiro que pague a vergonha que passaram nas mãos desse perfeito miserável.
Deus que tenha pena desse traste.

Maria Lima disse:
09 de setembro de 2009 às 18:54

Faço minhas as palavras do leitor Osvaldo Bertolino . Maria Lima

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