
O ano começou embalado com integrantes da escola de samba Vila Isabel dançando em plena Academia Brasileira de Letras, para celebrar o centenário de nascimento do compositor carioca Noel Rosa neste ano de 2010, tudo sob o olhar sisudo de Machado de Assis, impassível estátua de bronze.
Não deixa de ser divertido ver uma casa tão carrancuda, cenáculo em que se resolvem os destinos da língua portuguesa, o certo e o errado, o trema e o acento, o hífen e a vírgula, render loas ao poeta da Vila, que era uma espécie de oposto da Academia, ou seja, pura irreverência. Em 26 anos de vida, Noel compôs centenas de canções, fustigou a moral e os bons costumes, enalteceu a boêmia, sambou sobre as cabeças das hostes conservadoras do País – enfim, pintou e bordou, deitou e rolou, bebeu e fumou.
Como é sobejamente sabido, o palco para Noel cantar e compor eram os botecos da cidade maravilhosa, madrugada adentro. Imagine só Noel Rosa hoje em dia. Quase impossível. Seria um infrator da lei seca e da lei antifumo, sofreria multas seguidas, iria à bancarrota rapidinho… ou, como ele dizia gostosamente em sua canção Com que roupa, iria “acabar ficando nu”.
Cito três exemplos – dois para a lei antifumo e um para a lei seca. Na famosa composição Conversa de botequim, à certa altura, o cantor, falando em primeira pessoa, ordena ao garçom: “Não se esqueça de trazer palito, e um cigarro pra espantar mosquito”. Impossível vislumbrar essa cena no Brasil de hoje, em que a restrição ao cigarro tomou ares de punição severa a quem fuma e a quem deixa fumar. No caso do samba em questão, seriam multados Noel e o garçom (ou o dono do “estabelecimento”). Apenas o mosquito poderia circular livremente, sem brasa ou fumaça que o importunasse. Talvez o compositor, se estivesse vivo, às vésperas de chegar aos 100 anos, adaptando-se aos “novos” tempos, tivesse que mudar o nome da música para Conversa de fumódromo…
Num rasgo de genialidade, em outra composição boêmia, intitulada Pela décima vez, blasfema o sambista, despeitado: “Joguei meu cigarro no chão e pisei/Sem mais nenhum, aquele mesmo apanhei e fumei/Através da fumaça, neguei minha raça, chorando a repetir/Ele é o veneno que eu escolhi para morrer sem sentir”. Pois, caro Noel, hoje você teria que escolher outro veneno – cicuta, talvez.
É verdade que Noel Rosa vivia numa época em que se podia fumar à vontade, em qualquer lugar, quando os fumantes intimidavam os não-fumantes, que, acuados, aceitavam tudo, cabisbaixos. Mas, do jeito que a coisa vai, daqui a pouco vão inventar um tubo, uma espécie de cilindro circulator Tabajara, para uso individual, exclusivo e obrigatório dos fumantes, em todos os “estabelecimentos”, públicos e particulares, em casa e na rua, no trabalho e no lazer.
Pensando bem, esse negócio de samba, de boêmia, de cigarro é tudo muito politicamente incorreto, anacrônico, coisa do passado, já era. Com a lei seca, fica muito arriscado tragar o quinto copo de cachaça e sair por aí, como diria Ari Barroso em sua Camisa amarela. Nem imagina Noel (eis o terceiro exemplo mencionado acima), em Último desejo, esbravejando: “Às pessoas que eu detesto/Diga sempre que eu não presto/Que o meu lar é um botequim/Que eu arruinei a sua vida/Que eu não mereço a comida/Que você pagou pra mim”.
Nem tragar cachaça, nem tragar cigarro. Aos 100 anos, Noel Rosa está tecnicamente proscrito. Não será de espantar se as letras de suas músicas forem consideradas apologia ao crime ou, quiçá, à contravenção penal!
O negócio é ouvir axé, sacudir o popozão e tomar energético neste Carnaval. Tudo dentro da lei. Argh! Agora, todo cuidado é pouco, porque, do jeito que a coisa vai, logo, logo, piada e risada vão dar cadeia! Não, não, nada disso. Pensando bem, hic, um brinde a Noel e ao fumus boni iuris, porque“quem é bacharel, não tem medo de bamba”!

Se Noel vivesse hoje, o MP o instigaria a assinar um TAC, através do qual o compositor se comprometeria a não "induzir ao vício" o povo em suas letras, obrigando-o, ainda, a compor "letras educativas", através das quais se incentivasse à prática desportiva, ao sono até às 9h30min no máximo etc. etc. Mas bom mesmo, é sabermos que o RJ conta com uma lei - não me lembro de seu número, mas é verdade! - que "diz" que fânqui [desculpem, é "funk"] é uma autêntica manifestação cultural. A estupidez humana fará com que seu único representante "homo ['non troppo'] sapiens" não permaneça na terra por mais 100 anos, o que representará medíocres 150 mil anos, no máximo. E dá-lhe fânqui, dá-lhe o "politicamente correto", dá-lhe TAC inútil, dá-lhe "excelência". Detalhe: a terra sobreviverá.
Bons tempos aqueles em que havia liberdade para fumar e beber em qualquer local.Hoje, estamos numa verdadeira ditadura do "ecologicamente e politicamente corretos"
Belo texto e excelentes comentários.
Não vai tardar para que a frescura seja inserida no rol dos direitos fundamentais do art. 5.º da CF.
Achei o texto e conteúdo muito bom. Saudades e nostalgia, se referindo à uma época que a frota de automóveis era bem menor e que o consumo do cigarro também, pois, mesmo com a propaganda ''persuasiva'', a população era bem menor. Hoje, os consumidores dessas drogas, são em número menor, porque conscientemente, as deixaram ou amenizaram usando em doses menores.
Contudo, a juventude principalmente, aumentou significativamente, o uso da canabisstativa (maconha) que têm aqueles (até políticos)que sugerem liberá-la mediante a cobrança de impostos, cuja arrecadação seria transformada em meios para tratamento dos dependentes, isto é, ''fabricar dependentes para então tratar de sua saúde''. Mas, não pára por aí, o consumo de coca, ópio, LSD (alucinógeno dos mais caros), os ''rebites'' usados por motoristas e caminhoneiros e os estimulantes tão usados atualmente como o ''ecstase'', campeiam, avançando velosmente, por falta de uma política fiscalizadora ineficaz.
Que saudade daquela época de Noel Rosa, quando a ingestão de bebida alcoólica era para esquecer as mágoas.(lembro-me de um slogam que li numa taverna: ''Se bebe para esquecer, pague antes de beber'')- O cigarro para quando, aguardava a chegada da amada, diminuir a tensão nervosa. Para tudo colocava-se o romantismo e o mundo só não foi melhor porque os ''tapados'' declaravam guerra, matando pessoas que nunca viram antes, assim como ainda é hoje. Parabéns pelo texto.
onde se lê canabisstiva o certo é cannabissativa.
tive de voltar, porque há uma frase errônea:....falta de uma política fiscalizadora INEFICAZ, o certo é EFICAZ.
Confesso que me dá inveja quando vejo um texto tão bem escrito. A hiteria antitabagista é, a meu ver, apenas um dos aspectos do ambiente policialesco que toma conta do país de uns tempos a esta data. Não é por menos que a idiotice do "big brother" está em alta. Ao ilustre autor da crônica, só uma pergunta: no cemitério existe ala de não fumante?
Não gostei do texto, achei grotesco um cidadão criticar letras extraordinárias de Noel Rosa.
Fosse hoje o Noel se inspiraria em que? Correios fazendo propaganda sem mesmo ter concorrente no País? Denúncias arquivadas? Opções sexuais? Cão de elite e criança morrendo de fome? vídeos de Meias, vídeos de Cuécas, que mais?
Você precisa estar logado para enviar um comentário.
Fazer login