Juridiquês está absolutamente fora de moda, diz desembargador do TJ-RJ

Rosane Naylor Pereira

Des. Luiz Fernando R. de Carvalho - RJ - Rosane Naylor PereiraA sentença não é para o advogado, promotor ou para o colega juiz, e sim para o jurisdicionado. “O juridiquês está absolutamente fora de moda.” A conclusão é do desembargador Luiz Fernando Ribeiro de Carvalho (foto), do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Na sexta-feira (12/11), ele participou de um debate com o jornalista Ancelmo Gois, colunista do jornal O Globo, e outros desembargadores do TJ fluminense para discutir a relação entre o Judiciário e os meios de comunicação.

Luiz Fernando afirmou que a linguagem de difícil compreensão ainda não foi superada. O desembargador disse, ainda, que é preciso falar claro até para ser melhor criticado. “Critica-se melhor aquilo que se entende”, disse, no evento na Escola da Magistratura do Rio (Emerj).

Outra observação feita pelo desembargador é em relação à maior comunicação entre o Judiciário e a sociedade. Hoje, constata, há um resíduo de uma cultura de isolamento. “É preciso que rezemos nossa missa de frente para o povo”, disse o desembargador Fernando Foch, presidente do Fórum de Direito à informação e de Política de Comunicação Social do Poder Judiciário.

O mesmo aspecto foi abordado pelo juiz Luiz Roberto Ayoub, que também participou do debate. Ele contou que, antes do caso Varig — ele esteve à frente do processo de recuperação da empresa, também tinha a cultura de que juiz só fala nos autos. Mas isso mudou quando percebeu a necessidade de se comunicar com os meios de comunicação para que houvesse um melhor entendimento do que era decidido.

O jornalista Ancelmo Gois citou a decisão sobre a validade da Ficha Limpa nestas eleições pelo Supremo Tribunal Federal. Contou que assistiu ao julgamento e que, nele, os ministros falavam claramente, com exceção de alguns detalhes em que usavam termos mais técnicos. Ancelmo Gois atribuiu a clareza das manifestações à transmissão do julgamento pela TV. Na opinião do jornalista, quem fala difícil, salvo algumas exceções, é porque está inseguro. E isso, completou, vale para juízes e jornalistas.

Nesse debate, que de certa forma foi uma conversa entre os participantes, não ficou de fora a iniciativa de alguns estados de criarem os conselhos de comunicação. O desembargador Siro Darlan disse que a Constituição prevê tal conselho, que serve não para impedir a livre expressão, mas para coibir os excessos.

Já Ancelmo Gois afirmou que “topa” os conselhos desde que seja como o dos desembargadores, referindo-se ao Conselho Nacional de Justiça. O jornalista afirmou que, no caso dos juízes, o Conselho não interfere na sentença deles.

Ele também falou sobre o monopólio. Disse que o que quer é uma maior oferta, como acontece na França. Gois disse que constatou um aumento no número de publicações disponíveis nas bancas do Brasil, hoje, com o da época em que se mudou para o Rio de Janeiro, na década de 70. “Hoje, há muito mais”, disse. E com a tecnologia ele acredita que o aumento será ainda maior. “Aumentou a possibilidade de ter outras verdades”, disse. Também falou sobre a partidarização dos meios de comunicação. “É bom que seja partidarizada. Eu não consigo ser imparcial. Tomo partido do Rio, da Lapa, das calçadas”, disse.

O desembargador José Muiños Piñeiro Filho, que assistia ao debate, comentou que os maiores ruídos entre os meios de comunicação e a Justiça — além dos Tribunais, o Ministério Público, do qual ele já fez parte — são o tempo e espaço. “O tempo da imprensa é um, o do Judiciário é outro.” Ele comentou que já viu um juiz insatisfeito com uma nota de algumas linhas sobre sua decisão de mais de 100 páginas. O resumo, constata, pode distorcer aquilo que foi decidido. Muiños citou a questão da busca pelo furo, por dar a notícia antes dos outros, o que também pode gerar distorção.

Marina Ito

é correspondente da Consultor Jurídico no Rio de Janeiro.

Spartacus disse:
13 de novembro de 2010 às 12:20

Vamos, então, falar o português dos ignorantes. Sim, porque a população cresceu e com ela a ignorância do povo. São frequentes as críticas lançadas à face da educação subministrada hoje no País. E em razão delas, agora devemos falar o português por poucas palavras, como se fora uma língua de botocudos?
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Não, definitivamente, não. A língua portuguesa é de uma riqueza vernacular o lexical como poucas. Possui palavras específicas que foram forjadas para sintetizar um conceito determinado. Deixar de usá-las porque são pouco frequentes para lançar mão de expressões perifrásticas que utiliza palavras corriqueiras degradadas em seus significados originais só porque aquelas não ocorrem amiúde, equivale negar a exuberância racional da língua portuguesa.
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O de que se precisa não é o nivelamento por baixo, mas por cima. É que a educação seja aprimorada para que as pessoas compreendam o português em toda sua extensão e não se sintam diminuídas por terem de frequentar os dicionários para enriquecer seu conhecimento sobre o sentido das palavras. Um vocabulário rico de palavras com sentidos específicos que, se não proscreve, evita a polissemia, obsequia a clareza do pensamento.
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A continuar esse processo degenerativo, em breve estaremos suprimindo tempos verbais (o latim perdeu vários nas transformações que sofreu e que deram origem às línguas neolatinas), com manifesto prejuízo para a compreensão e especificação das multifárias situações com que se depara a razão.
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O Judiciário, enquanto última reserva moral da nação, não pode acobertar esse processo de franca degradação da língua portuguesa.
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(a) Sérgio Niemeyer
Advogado – Mestre em Direito e doutorando pela USP – sergioniemeyer@adv.oabsp.org.br

Jarbas Andrade Machioni disse:
13 de novembro de 2010 às 18:07

Bacana isso da justiça se preocupar com o que está na moda

Espartano disse:
14 de novembro de 2010 às 16:56

A lingua evolui e se simplifica.
Se valesse a lógica do quanto mais rebuscado melhor, Chico Buarque seria um m..., porque não escreve como Camões.

Espartano disse:
14 de novembro de 2010 às 16:56

A lingua evolui e se simplifica.
Se valesse a lógica do quanto mais rebuscado melhor, Chico Buarque seria um m..., porque não escreve como Camões.

Elza Maria disse:
15 de novembro de 2010 às 02:25

No caso da linguagem, o tornar-se mais simples não é evolução, mas INVOLUÇÃO, um andar pra trás. Se o pensamento só avança com o progresso da linguagem, dado que esta é que viabiliza o potencial daquele, então, toda simplificação acarreta perda da capacidade de pensamentos mais complexos. Simples, não? É adimssível certas simplificações sintáticas, como um verbo deixar de ser irregular e passar a ser conjugado segundo um paradigma regular (v.g., subsumir, dessumir). Mas simplificar para reduzir o léxico e em lugar das palavras abandonadas erigir o edifício da polissemia significa prestigiar a ambigüidade e a reboque prejudicar a comunicação. Não, não dá pra concordar com isso. Moda uma ova. Degradação mesmo, como já disseram aqui.

edson areias disse:
15 de novembro de 2010 às 03:31

Nem tanto... Assim como o medicinês, o economês, o engenheirês jamais poderão " sair de moda" e se renderem ao empirismo.
Não é bem do juridiquês que o jurisdicionado reclama.
Antes, do excesso de formalismo, do não-enxergar a realidade. máxime , em sede de execução contra empresas sabidamente piratas...
De qualquer forma, in medio virtus.
Do contrário, os advogados deixarão de aprofundar leituras mais técnicas- mundialmente escritas em " juridiquês"- passando a ser reféns de " resuminhos " e apostilas.
edson areias- advogado, Brasília-DF

wilsondecastrojr disse:
15 de novembro de 2010 às 19:58

Então é assim que deve funcionar? Ao invez do brasileiro estudar e começar a entender pelo menos a sua língua, vem um juiz e quer nos fazer acreditar que o correto na verdade, seria o juiz começar a falar: e ae mano??? nóis vamu, nóis fumo e é nóis na fita tá ligado????
Brasil...sil....sil!!!!!

B M disse:
15 de novembro de 2010 às 21:50

Não vejo porque os operadores do direito devam popularizar sua linguagem. O médico, engenheiro, mecânico, motorista, gari, eletricista e muitas outras especialidades tem sua linguagem técnica própria que outros nada entendem. Realmente, como alguém aqui já comentou, alguns do juciciário se deixam influenciar pelo populismo.

B M disse:
15 de novembro de 2010 às 21:52

Não vejo porque os operadores do direito devam popularizar sua linguagem. O médico, engenheiro, mecânico, motorista, gari, eletricista e muitas outras especialidades tem sua linguagem técnica própria que outros nada entendem. Realmente, como alguém aqui já comentou, alguns do juciciário se deixam influenciar pelo populismo.

Joaca disse:
16 de novembro de 2010 às 15:32

É, o analfabeto funcional no Brasil chega a 75% da população,imagina o analfabeto juridico!? Isso é justiçamente o ato DESINSTITUCIONALIZAR O País.

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