TJ-RN decide que depressão impede juiz de exercer a profissão

Em sessão secreta na semana passada, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte decidiu colocar em disponibilidade o juiz Eduardo Feld. A decisão é, no mínimo, curiosa pelo motivo apresentando. Perícia feita no início deste ano apontou que o juiz sofre de transtorno depressivo recorrente, o que foi interpretado como incapacidade mental.

O Pleno do TJ-RN entendeu que o laudo elaborado pela Junta Médica do Tribunal, que atesta a patologia de Eduardo Feld, não permite mantê-lo em atuação. A decisão vai em sentido contrário do parecer do procurador-geral de Justiça do Rio Grande do Norte, Manoel Onofre de Souza Neto, que pediu o arquivamento do processo administrativo contra o juiz também com base no laudo médico.

De acordo com o TJ, decisões do juiz da Comarca de Santo Antônio nos anos de 2008 e 2009 violaram o princípio da fundamentação, acarretando prejuízos ao Poder Judiciário e, sobretudo, à sociedade.

O processo administrativo aberto pela Corregedoria-Geral de Justiça do TJ-RN tramitava desde 2010, já tendo sido, inclusive, aplicada censura ao juiz. Agora, a corte concluiu por indicar Feld à disponibilidade, nos termos do artigo 6º da Resolução 135/2011 do Conselho Nacional de Justiça e do artigo 42, inciso IV da Lei Orgânica da Magistratura Nacional.

Em sua decisão, o relator, desembargador Virgílio Macêdo Júnior afirma que as provas elencadas no processo são “contundentes e de elevada gravidade, denotando a insustentabilidade de permanência do requerido no exercício das funções de magistratura, ainda que o laudo pericial tenha atestado a sua indenidade laboral”.

Processo eletrônico e processo administrativo
Para o juiz Eduardo Feld, a decisão do Pleno do TJ-RN foi um “ato preconceituoso, arrogante e arbitrário” e ele garante que vai recorrer da decisão. O argumento da falta de fundamentação nos processos julgados não é aceito por Feld. Ele relaciona sua pena de disponibilidade ao projeto de software livre apresentado em 2008 ao tribunal e, mais recentemente, por ter solicitado ao Conselho Nacional de Justiça a abertura do código fonte do Projudi e agora do Processo Judicial Eletrônico (PJE).

Segundo ele, ainda em 2008 logo após apresentação do projeto à Presidência da Corte começaram a aparecer reclamações baseadas nos conteúdos de suas sentenças, que resultaram na pena de censura em março de 2010. “Imediatamente após o julgamento foi instaurado outro procedimento de verificação de possivel doença mental. Fui submetido a uma perícia que concluiu que sofro de depressão, mas que não influi na minha capacidade de julgar e não me impede de ser juiz de Direito”, relata.

Feld conta que, durante a votação, o relator chegou a dizer que “quem sofre de depressão não pode ser juiz”, afirmando ainda que “corria o risco do requerido repetir as mesmas sentenças em novos casos”. Feld sente-se perseguido e, de acordo com ele, a decisão do TJ-RN confirma isso. “Mesmo com as provas dos autos a meu favor decidiram me colocar em disponibilidade. A decisão foi proferida para esconder os motivos reais que estão diretamente relacionados ao projeto de software livre que apresentei em 2008 ao tribunal e a abertura do código fonte do PJE.”

O juiz descreve que seu projeto sempre foi considerado de risco. “Naquela época o tribunal começava o processo de informatização com o sistema Projudi e como sou adepto do software livre decidi oferecer uma contribuição. Ao apresentar o projeto ao presidente do TJ-RN fui informado pelo mesmo que não poderia ser colocado em prática. Mesmo com a negativa montei o site e comecei a divulgar o projeto de software livre, de baixíssimo custo, o que acarretaria num grande economia aos cofres públicos. No mesmo período, coincidentemente, começaram as representações contra mim, mas como já previa o fim do Projudi, que está sendo substituído pelo PJE, continuei procurando os desembargadores e os funcionários do Tribunal e todos afirmavam que meu projeto era uma espécie de risco.”

Feld destaca que sempre propôs a adoção do software livre sem ônus para o TJ-RN, no entanto, desde 2008, o tribunal começou a contratar empresas privadas de tecnologia da informação para manter e atualizar o Projudi e agora o PJE. “Nos últimos anos o CNJ detectou irregularidades na contratação dessas empresas”, revela.

Há cerca de um mês ele conta que pediu o código fonte do PJE. “Como o CNJ fala tanto em economia e se diz adepto do software livre solicitei o código fonte do PJE. Curiosamente, poucos dias depois, o TJ-RN me coloca em disponibilidade. Portanto, não resta dúvida que fui punido pelo meu projeto de software livre e por ter pedido o código fonte do PJE”, concluiu.

A ConJur tentou sem sucesso entrevistar o relator do processo. A assessoria de imprensa do TJ-RN informou que o desembargador Virgílio Macêdo Júnior entrou de licença médica desde o último dia 21 — dois dias após o julgamento, devendo retornar à Corte apenas no início de novembro e que nenhum outro desembargador está autorizado a falar sobre o caso.

Quem é Eduardo Feld?
Aos 42 anos, casado, natural do Rio de Janeiro, Eduardo Feld é bacharel e mestre em Direito e juiz no Rio Grande do Norte desde o ano de 2000. Filho de engenheiros, aos quatro anos de idade desenvolveu seu primeiro programa de computador. É também bacharel em Engenharia e especialista em Matemática Pura.

Mesmo desempenhando a carreira jurídica, nunca deixou a informática, sua grande paixão. É criador do Slapsoftware (slapsoftware.com.br), primeiro sistema de código aberto no gerenciamento de processos judiciais, administrativos e legislativos no Brasil. Foi juiz substituto nos municípios de Natal e Assú e juiz titular em Upanema, Taipu, Parnamirim e, por último, estava exercendo suas funções no município de Santo Antônio.

Clique aqui para ler a decisão que colocou o juiz em disponibilidade.

João Ferreira

é jornalista e colaborador da revista Consultor Jurídico no Rio Grande do Norte.

Carviso. disse:
27 de outubro de 2011 às 14:59

Queria acreditar que a notícia não correspondia a realidade. Estava fantasiosa. Mas isso não é possível. O caso é mesmo surreal como demonstra a reportagem. O julgamento é mesmo kafkiano.

Carviso. disse:
27 de outubro de 2011 às 15:33

Estava olhando o sítio desenvolvido pelo juiz (Slapsoftware). Ele pode até ter os sintomas da depressão (mal moderno, QUE MUITOS ACOMETE). Mas acredito que com tanta atividade (juiz, programador, matemático, e sei mais lá o quê)ele não tem nem tempo para curtir sua deprê. Foram muito infelizes os desembargadores.

Marcos Alves Pintar disse:
27 de outubro de 2011 às 16:18

Parece mesmo ser mais um caso de perseguição a um magistrado que se desalinhou com a cúpula do Tribunal. Se o juiz apresentava algum problema médico, por óbvio que jamais lhe poderia ser imposta qualquer penalidade, já que há época de se punir quem fica doente, ao menos no mundo civilizado (o que não é o caso dos "ambientes" das cúpulas dos tribunais brasileiros), já passou faz tempo. Creio que o problema da perseguição a magistrados leais ao ideal de Justiça, mas que por algum motivo não são "soldadinhos de chumbo" das cúpulas dos Tribunais é um problema tão grave no Brasil como o acobertamento prestado em favor de alguns outros magistrados. Isso tira a independência do juiz, e o faz com que sua identidade seja suprimida. Mas grave é que a sociedade pouco se preocupa com isso, e o magistrado perseguido acaba ficando sozinho, sem apoio de ninguém.

Xarpanga disse:
27 de outubro de 2011 às 19:22

São muitos os juízes que violam o princípio da fundamentação previsto constitucionalmente. Ressalte-se que a fundamentação capenga, pífia ou em contrariedade aos dispositivos legais são consideradas também como violadoras deste princípio, tidas como ausentes de fundamentação. No caso presente, o Tribunal abriu um precedente, agora vai ter que punir todos os juízes que se encontrem nesta mesma situação, e se não o fizer restará configurada a perseguição.

Ronaldo dos Santos Costa disse:
27 de outubro de 2011 às 20:57

Quer dizer que o Magistrado está doente e será punido por isso?!?!?!? Não devo ter entendido a matéria...

Cláudia disse:
27 de outubro de 2011 às 23:28

O juiz desenvolve um software que se for adotado e implantando nos tribunais, enconomizaria bilhões de reais, dinheiro este que poderá ser revertido em melhorias humana, fisica e estrutural do próprio tribunal. Inclusvie, acabaria com o problema entre a Governadora (executivo/RN) e o Judiciário, pois o primeiro diz precisar de mais dinheiro e o segundo afirma está no limite orçamentário. Alguém ser ativista e lutar pela democracia, no entender do tribunal é errado. Não querem um ser pensante e precocupado com a sociedade.

Neli disse:
28 de outubro de 2011 às 07:02

Discordo!
O quadro depressivo,se tiver,pode voltar à normalidade.Minha solidariedade a ele,magistrado.

Você precisa estar logado para enviar um comentário.