Coluna do LFG: Crime não é privilégio dos pobres nem tampouco dos feios

Spacca

O belo rosto da mulher de Carlos Cachoeira, Andressa Mendonça, que está em liberdade sob fiança, depois que teria ameaçado o juiz Alderico Rocha, em Goiás, nos sugere algumas reflexões criminológicas. Cabe recordar que a antropologia criminal, no século XVIII, na tentativa de explicar a origem do crime, acabou assumindo a concepção racista de que o rosto feio estaria vinculado ao mal, ao crime, ao anormal. Alguns séculos antes, na França, o édito Valeriano já dizia: quando dois são os réus, havendo dúvida sobre a autoria, condena-se o mais feio.

Nietzsche afirmava que para a antropologia criminal “o tipo do criminoso é feio: monstrum in fronte, monstrum in ánimo”. Em outras palavras, rosto feio, alma monstruosa (criminosa). Assim o delinquente foi enfocado pela famosa criminologia positivista, liderada por um médico muito polêmico, chamado Cesare Lombroso (1836-1909), para quem o criminoso, sendo um selvagem, deveria sofrer medida de segurança, em nome da defesa social. Ele requer correção não apenas por sua transgressão, senão, sobretudo, pela sua degeneração e perversão (como sublinhava Foucault).

O interesse da filosofia, literatura e ciência pela análise da fisionomia, na verdade, não é recente. Aristóteles escreveu um livro chamado Fisiognômica (Fisiognomia), onde sustenta que, apoiando-se nos dados corpóreos de um objeto, se torna possível julgá-lo. O caráter como fenômeno ético seria extração da leitura do corpo (ou do rosto). Kant, no século XVIII, afirmava que a fisiognomia é a maneira de se conhecer o interior do ser humano por meio do seu exterior (ou seja: o rosto seria a visibilidade do invisível, como bem sintetizou Levinas).

É impressionante como a ciência, a criminologia, a filosofia e a literatura passaram a admitir juízos éticos sobre uma pessoa a partir da beleza ou da feiura do seu rosto. É nesse contexto que a pouca (ou nenhuma) beleza do filósofo Sócrates teria servido de base para Zapiro reputá-lo “néscio, brutal, voluntarioso e inclinado à embriaguez”. Nietzsche e Montaigne, muitos séculos depois, tampouco faziam referências elogiosas à estética fisionômica de Sócrates. O filósofo, no entanto, em sua defesa afirmava que a beleza interior está nas palavras (não no rosto): “Fale para que eu possa vê-lo.” Nós não valeríamos pelo que ostentamos exteriormente, sim, pelo que falamos, pelo que sabemos.

Lombroso, é bem verdade, para além do aspecto fisionômico, ainda agregou a carga da herança genética, para criar a teoria determinista do “delinquente nato” (alguns já nasceriam delinquente). Como se vê, na segunda metade do século XIX, o pensamento mecanicista (naturalista) tomou conta das ciências, incluindo a criminologia. O rosto, como se pode concluir, tem sentido ético (Levinas), visto que ele serve para julgar o outro, pela sua diferença (porque não existem dois rostos iguais). O outro não é um idêntico (Idem-ente), sim, um difer-ente. Assim ele é julgado. A exterioridade (do rosto) seria a medida do julgamento ético do outro.

Foi assim que o positivismo criminológico passou a julgar o criminoso como um ser anormal, que foi chamado por Foucault de monstro moral e político. O monstro está atrelado ao feio, ao anormal, ao excesso, à desordem, em síntese, à criminalidade. Aliás, é a partir dessa concepção que se organizam as instâncias do poder assim como os campos do saber, desde o final do século XVIII (diz Foucault).

A cara de Andressa Mendonça, acusada e apresentada midiaticamente como criminosa, contradiz tudo isso. Razão, portanto, assistiria, à teoria sociológica norte-americana do labelling approach, que afirma que o crime está regido pelo princípio da ubiquidade, ou seja, todas as classes sociais delinquem, todos os rostos podem ser delinquentes. O crime não é privilégio das classes pobres nem tampouco dos feios. O homem não é coisa (Ortega y Gasset), sim, uma pessoa, uma história, que nunca é idêntica (uma à outra). O que marca o ser humano não é “idem-entes”, sim, o “difer-entes”, sendo certo que (como advertia Nietzsche) “todo homem que luta contra monstros, ao fazer isso deve procurar não se converter em outro monstro”.

Luiz Flávio Gomes

é doutor em Direito pela Universidade Complutense de Madri. Mestre em Direito Penal pela USP. Jurista e cientista criminal. Diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Foi promotor de Justiça, juiz de Direito e advogado.

Juliano Tavares disse:
23 de agosto de 2012 às 16:10

Através dos estudos da Criminologia Crítica foi que a mulher passou a não ser mais considerada com um "homem imperfeito" ou "um erro no processo de nacimento". No decurso dos estudos, aconteceram mudanças, a mulher passou a ter declarados direitos que somente tinham significados aos homens. Ela passa a participar das relações sociais, vota, enfim, respeitam-na como mãe, porém, mantem-se ainda atitudes ironicas e de piedade em favor delas. Ironias refiro-me aos argumentos que a mulher é de "ferro", aguenta "trancos e barrancos". E quanto a piedade, falo da mulher de "fibra", "guerreira"... mas percebemos como andam as (famigeradas) familias, pois nota-se que de "mães" que cuidavam dos filhos, passamos a ter uma nova espécie de ente familiar, em face suas ausencias, agora trocam-se os papéis e entram os chamados "Pães" (pai no lugar da mãe), estes seres fazem tudo que uma mulher faz, exceto os afazeres "genicológicos" estranhos à masculinidade, por obviedades... Mas apesar dessas conquistas todas, ao contrário, demandam enormes riscos, e o exemplo está aí na face, engessada, e sem pestanejar da Sra. Andressa Mendonça, que vai sofrer a violência estatal decorrente da desigualdade de gênero que ela não quis suportar, onde poderia muito bem ficar em casa, cuidando dos seus filhos, lavando e passando roupas, ao invés disso, pretendeu ir à luta, endossar as falcatruas do Sr. Cachoeira, uma pena!

Juliano Tavares disse:
23 de agosto de 2012 às 16:10

Através dos estudos da Criminologia Crítica foi que a mulher passou a não ser mais considerada com um "homem imperfeito" ou "um erro no processo de nacimento". No decurso dos estudos, aconteceram mudanças, a mulher passou a ter declarados direitos que somente tinham significados aos homens. Ela passa a participar das relações sociais, vota, enfim, respeitam-na como mãe, porém, mantem-se ainda atitudes ironicas e de piedade em favor delas. Ironias refiro-me aos argumentos que a mulher é de "ferro", aguenta "trancos e barrancos". E quanto a piedade, falo da mulher de "fibra", "guerreira"... mas percebemos como andam as (famigeradas) familias, pois nota-se que de "mães" que cuidavam dos filhos, passamos a ter uma nova espécie de ente familiar, em face suas ausencias, agora trocam-se os papéis e entram os chamados "Pães" (pai no lugar da mãe), estes seres fazem tudo que uma mulher faz, exceto os afazeres "genicológicos" estranhos à masculinidade, por obviedades... Mas apesar dessas conquistas todas, ao contrário, demandam enormes riscos, e o exemplo está aí na face, engessada, e sem pestanejar da Sra. Andressa Mendonça, que vai sofrer a violência estatal decorrente da desigualdade de gênero que ela não quis suportar, onde poderia muito bem ficar em casa, cuidando dos seus filhos, lavando e passando roupas, ao invés disso, pretendeu ir à luta, endossar as falcatruas do Sr. Cachoeira, uma pena!

Observador.. disse:
23 de agosto de 2012 às 16:34

Considero que o Professor não precisava citar Nietzsche e Montaigne, além de Lombroso, para concluir o óbvio.
A beleza ( e a riqueza ) sempre impressionará o ser humano.Mas só os deslumbrados e os carentes de intelecto irão misturá-las com virtudes ( ou ausência delas )e valores que complementam cada um de nós.

Marcos Alves Pintar disse:
23 de agosto de 2012 às 21:11

Houve época em que usar roupas, sapatos, ou produtos básicos de higiene pessoal era privilégio de poucos. A esmagadora maioria vivia vestindo frangalhos, andando descanso, desdentado e descabelado. Reis, rainhas e nobres eram glamorizados, uma vez que possuíam condições de se apresentar publicamente em melhores condições, não tardando assim para, como forma de subjugação, surgir a cultura de que o feio físico é também um feio d'alma.

Ferret disse:
24 de agosto de 2012 às 10:41

Lombroso é do século XIX. De lá para cá, as ciencias do comportamento não evoluíram? Ou o direito é impermeável? Só aceita contribuições da filosofia?

Sargento Brasil disse:
24 de agosto de 2012 às 11:35

Quem leu a tese de Lombroso, referindo-se ao formato do crânio, da face, etc, dizendo se o indivíduo tem ou não inclinação para o crime, não tem como discordar do mestre
L.F.G. pois na atualidade, fatos comprovam ser falha.

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