Segunda Leitura: A vaidade tem campo fértil nas profissões jurídicas

""Spacca” data-guid=”coluna-vladimir.png” />Nós, humanos, cultivamos a vaidade sob diferentes formas: vaidade de termos riquezas, títulos, de trabalharmos muito, de sermos queridos, inteligentes, cultos, de termos viajado bastante, de praticarmos a caridade e até mesmo a vaidade de não termos nenhuma vaidade. Afirmava o Padre Vieira que “a vaidade entre os vícios é o pescador mais astuto, e que mais facilmente engana os homens”.

No final do filme "O Advogado do Diabo", diretor Taylor Hackford, o demônio, interpretado por Al Pacino, afirma repetidamente a seguinte frase: "Vanity, definitely my favorite sin!" ("Vaidade, definitivamente é meu pecado preferido!"). É dizer, o diabo sabe muito bem como conquistar suas vítimas: estimulando sua vaidade.

Ela é privilégio dos seres humanos. Os animais também se exibem, mas com finalidade diversa. Ao que parece, eles buscam perpetuar-se através de filhotes e por isto, de diferentes formas, entram em disputa pela fêmea. O pavão abre suas asas e exibe, orgulhoso, a beleza de suas penas. O orangotango entra em luta pela posse da fêmea, que dá a sua preferência ao vencedor.

Talvez nós, seres humanos, tenhamos sofisticado a nossa forma de conquista. Na evolução, deixamos (em que pese algumas exceções) a luta corporal na conquista das mulheres, optando por exibições de adornos (v.g., tatuagens, correntes, relógios caros), de bens (v.g., carro importado) e inteligência superior (v.g., advogados contando como ganharam seus processos).

Não me parece que a vaidade, dentro de limites razoáveis, seja um mal. O problema começa a existir quando ela extrapola tais limites. E — sejamos francos — nos meios jurídicos isto não é raro. Mas, curiosamente, a vaidade jamais é reconhecida. Todas as ações vêm acompanhadas da justificativa de que a atitude se fundamenta na defesa da classe, da instituição ou algo semelhante. A frase clássica é: “não é por mim, eu nem ligo, mas não podemos permitir que nossa classe seja rebaixada”.

A vaidade germina com muita facilidade naqueles que passam em um concurso público. Quanto maior o prestígio do cargo, maior o risco. Lembro-me bem do caso de um juiz de Direito, que morava em um pequeno edifício e que, tão logo aprovado no concurso, passou a exigir dos condôminos e dos empregados que o tratassem de doutor. Ridículo.

Na magistratura, com o passar do tempo o mal pode agravar-se. A perda da beleza física pode vir acompanhada da necessidade de sentir-se importante, de ser adulado. Para ficar só com um exemplo, basta citar aqueles examinadores de bancas de concursos que na prova oral se exibem formulando perguntas dificílimas, mais preocupados em demonstrar erudição do que em saber se o candidato está preparado.

A TV Justiça, na exibição de julgamentos ao vivo, talvez estimule vaidades adormecidas. Será que saber-se visto por um enorme número de telespectadores influencia o conteúdo e o tamanho dos votos? Será que a exposição influencia na busca de popularidade, mesmo não sendo o cargo eletivo?

No Ministério Público o perigo situa-se mais na primeira instância. No segundo grau isto dificilmente ocorrerá, porque a principal função é dar pareceres e isto não gera impacto na mídia. Ao inverso, o papel ativo na propositura de ações de causas de interesse público (p. ex., improbidade administrativa) pode resultar em notoriedade. Do interesse público para o pessoal (auto-promoção) é um passo.

A Defensoria Pública, cujo papel é de relevância ímpar, não está imune à tentação da vaidade. O que dizer da recente Lei Complementar 132/2009, que garante aos defensores a prerrogativa de sentar-se ao lado do juiz e do representante do Ministério Público? O juiz está lá porque preside o ato. O MP à direita, por tradição, mesmo assim, originando a suposição de estar em posição diferenciada em relação ao advogado. Já o defensor público, que é um advogado público dos necessitados, estará diminuído ao sentar-se defronte ao juiz? Fico a imaginar uma audiência de debates e julgamento, sem testemunhas, com todos na mesa do juiz, incluindo o servidor que digita, e ninguém na mesa em frente! Está na Bíblia  "vanitas vanitatum omnia vanitas", ou seja, "vaidade das vaidades, tudo é vaidade". (Eclesiastes 1:2 ).

Na Polícia o risco da vaidade se acentua. As grandes ações, prisões de pessoas famosas, a cobertura da mídia em tempo real, são fortes estímulos ao inchaço do ego dos executores de operações policiais. Há alguns anos as operações da Polícia Federal chegaram a um excesso desnecessário, autênticos espetáculos. Prevaleceu o bom senso e tal tipo de conduta cessou. Na Polícia de alguns Estados o noticiário não mostra pessoas, mas sim o logo do órgão. Perfeito.

E na Academia? São os professores expostos à tentação de se exibirem? Sim, por certo. A profissão é uma exposição permanente de cultura, de brilho intelectual. Certamente por isso é comum, no mundo acadêmico, haver conflitos entre os professores, conflitos de egos. Os títulos são o escudo e os golpes de espada são substituídos por frases ferinas.

A própria escolha de uma carreira, muitas vezes, é motivada pela vaidade, pelo orgulho, pelo desejo de ocupar um cargo de prestígio na sociedade. Passado algum tempo, não se tem o que era esperado e aí vem o desalento: "Não somos valorizados".  Não seria o caso de dizer: "não tenho o destaque e a exposição social que esperava"? 

Muitos exemplos poderiam acrescer o que foi dito. Associações de classe, onde se multiplicam diretorias e comissões para dar espaço a muitos, por vezes comprometendo as finanças e a eficiência. Nos órgãos públicos, coordenadorias disto ou daquilo, muitas vezes dispensáveis. Nas dependências dos edifícios públicos (luta por salas), nem sempre por necessidade.

Conta-se que Júlio César, o grande Imperador de Roma, ciente de sua própria fraqueza, cuidou bem do tema. Nos momentos de glória máxima, quando César voltava a Roma e era aplaudido pelas conquistas nos campos de batalha, tinha sempre ao seu lado um antigo e fiel escudeiro que dizia: “Lembre-se de que você é apenas um homem”.

Em suma, o que cada um tem a fazer é procurar colocar a vaidade dentro de um círculo fechado, impedi-la de crescer, fiscalizá-la sempre. Se ela não prejudicar terceiros, pode até ser útil. Por exemplo, não há nada de errado no fato de um presidente de subseção da OAB querer fazer um bom mandato para legitimar-se a disputar uma vaga como Conselheiro.

Nisto tudo não será demais lembrar que os vaidosos extremados, aqueles que se tornam arrogantes, acabam se isolando, sendo ridicularizados, e quando os anos lhes trouxerem os cabelos brancos, as pílulas contra isto ou aquilo, o desprezo silencioso daqueles que antes o bajulavam, só lhes restará a solidão amarga dos esquecidos. Aí será tarde demais.

Vladimir Passos de Freitas

é professor de Direito no PPGD (mestrado/doutorado) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, pós-doutor pela FSP/USP, mestre e doutor em Direito pela UFPR, desembargador federal aposentado, ex-presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Foi secretário Nacional de Justiça, promotor de Justiça em SP e PR e presidente da International Association for Courts Administration (Iaca), da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e do Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário (Ibrajus).

Chiquinho disse:
16 de dezembro de 2012 às 17:16

Excelente artigo para se ler e refletir.
No Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco, há muitos exemplos entre os juízes e/ou juízas novos que estão chegando ao Tribunal, e já chegam com o ego maior do que suas calças jeans.
Determinado processo foi automaticamente distribuído para determinado Cartório. A juíza substituta que o apreciou, invocou um artigo X de uma Lei estadual e corretamente o mandou distribuir para a Vara competente para ser julgado. E o tal processo foi redistribuído para a tal Vara competente. Chegando lá, outra Juíza substituta, invocando o outro artigo da mesma lei e de forma equivocada e arrogante, escreveu um tratado incompreendido e desconexo, e o mandou para outra Vara. E o processo foi redistribuído mais uma vez, deixando o jurisdicionado, que buscou a Justiça para pôr um fim à sua injustiça, mais descrente e injustiçado ainda. Enquanto um juiz ou uma juíza sensatos não aprecie o processo e lhe dê um destino digno e justo, seja qual for o caso, o litigante que buscou o Poder Judiciário para lhe ver o reconhecimento do Direito, vislumbra suas pretensões se irem parar tonga da mironga do kabuletê.

Ciro C. disse:
16 de dezembro de 2012 às 18:56

Parece que a vaidade ja começa nos bancos da faculdade. A primeira medida do aluno de Direito eh logo fazer uma camisa informando o curso que faz. Antes ate de comprar os livros...

regina m.c. neves disse:
17 de dezembro de 2012 às 02:44

Boa noite ao Professor que comentou este artigo e ao futuro colega Chiquinho.Deixo aqui o meu abraço e os parabenizo pelos comentários aqui expostos.
Tiro o meu chapéu para o Desembargador responsável pelo excelente artigo publicado!
O artigo simples assim.
Sinceramente, este artigo deveria fazer parte dos Códigos de Ética da OAB,MP e principalmente nos da Magistratura.
Um grande abraço ao Desembargador e parabéns pelo belissimo artigo.

Hilton R C Costa disse:
17 de dezembro de 2012 às 11:53

Artigo perfeito, as vezes todo mundo vê mas não externa em palavras toda essa diria "prepotência" ou "vaidade" melhor dizendo. Lembremos da ex corregedora Eliana Calmon, que foi de encontro a esta corrente de vaidade e porisso se viu ameaçada pelos bandidos de toga.Um novo caso está em destaque que a disputa MP x Polícia Judiciária.Não posso deixar de ressaltar queo MP está sempre nesta disputa seja com polícia, defensores pela titularidade para ajuizar ACP,no judiciário para se sentar ao lado dos juízese com os advogados ao não deixar-lhes de molho nas cadeiras para que sejam recebidos.Enfim as vezes os profissionais do judiciário estão mais preocupados com o próprio ego do que com a aplicação da justiça.(Os seres humanos só se diferenciam dos animais por ter consciência que nos deveria sobrelevar, mas as vezes nos torna menores).

Chiquinho disse:
17 de dezembro de 2012 às 12:00

Determinado desembargador, já morto pelas barbas do profeta Malomé, não tinha o hábito de receber advogado, e quando recebia mirava-o com os olhos parecendo uma katana (espada de samurai), virado no penteio de barrão, e fulminava:
- Parle meu filho o que você quer!!
O causídico, já sabendo da boa fama do bigode de pia saibo, timidamente expressava seu desejo:
- Excelência, gostaria que vossa excelência analisasse o processo X com carinho, pois o mesmo está há mais de 10 anos na hibernação e já passou pelas mãos de 10 advogados, sendo que 9 já se foram-se encontrar com o pai celestial de tanta espera e angústia, e eu não queria ser o próximo a mim suicidar-me.
Mais um vez o desembargador, com cara de poucos amigos, o fitou e sem tirar o charuto de pacaia do beiço, disse:
- Deixe aí que eu vou apreciar o seu processo, e lhe darei uma resposta in casu, afastando-se do local sem ao menos dizer boa tarde ao causídico.
Ancho, o advogado consultava a decisão interlocutória boquinha da noite, e para sua surpresa estava lá na página do judica um despacho com 10 páginas, que, lida e relida por mais de 10 vezes pelo causídico, que a única coisa que entendeu foi o final quando o homem escreve: ANTE O ACIMA EXPOSTO, NEGO SEGUIMENTO AO FEITO!
ISSO É OU NÃO É UM EGÃO?!

Gabbardo disse:
17 de dezembro de 2012 às 16:29

Confúcio dizia que a inteligência é saber o que se sabe, e saber o que não se sabe.
Uma coluna de qualidade razoável. Pra quê aquela referência ao César, que demonstra que o conhecimento do colunista sobre História Antiga resume-se ao "ouvi dizer"?

Amaralsantista disse:
19 de dezembro de 2012 às 11:09

De História Antiga entende sim o Prof, Gabbardo, pois CONFUCIO aparece na história bem antes do que CESAR. Creio que o Professor quiz sim é se "Gabbar", uma forma pequena de "vaidade". Comentario desnecessário.

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