Alberto Toron: Entrada de estrangeiros pode ampliar mercado de trabalho

Depois da entrevista que concedi ao prestigioso site da revista Consultor Jurídico, tenho ouvido comentários de que minha campanha está sendo financiada pelos escritórios estrangeiros. Já requeri a instauração de inquérito policial para apurar quem está com o dinheiro, pois eu não vi a cor dele.

A entrevista foi nesses termos:

ConJur — O mercado de trabalho do advogado em São Paulo está protegido? Está faltando o que para o profissional trabalhar como precisa?

Alberto Toron — A grande questão hoje, ou pelo menos uma delas, é vinda dos escritórios estrangeiros para o Brasil. Há uma grita dos escritórios que compõem o Centro de Estudos das Sociedades de Advogados (Cesa) em torno de proteger o mercado contra aquilo que se chama de invasão dos escritórios estrangeiros. Essa é uma discussão importantíssima e a gente tem que ter o cuidado de ver se, eventualmente, sob determinadas condições, a entrada de escritórios estrangeiros no Brasil não vai ampliar o nosso mercado de trabalho. Nessa questão não adianta ter xenofobismos nem tomar posições nacionalistas. É preciso ver com muito cuidado se sob determinadas condições isso não ampliaria o mercado de trabalho dos advogados no Brasil.

Reitero tudo o que disse. Ou seja, que i. “a discussão é importante”; ii. “sob determinadas condições pode ampliar nosso mercado de trabalho” e iii. a última coisa de que precisamos no limiar do século XXI é de nacionalismo e xenofobismo.

Que a discussão é importante basta ver que o próprio Conselho Federal da OAB, recentemente, no último dia 7, promoveu importante discussão sobre o tema e se propõe a rever o Provimento 91, de 2000, que regula a matéria. A audiência pública foi concorridíssima. Também o jornal O Estado de S. Paulo, em editorial, chamou atenção para os interesses em confronto (cf. ed. do dia 24 de fevereiro de 2012, p. A3).

Depois, só mesmo quem não tem interesse em debater abertamente e de forma pública, como foi a referida audiência, é que pode pensar em barrar a discussão, que é sadia e pode aprimorar nosso mercado de trabalho, seja para protegê-lo, seja para torná-lo mais amplo e competitivo, seja para colocá-lo na vanguarda da prática da advocacia em nível mundial.

Como quer que seja, não é preciso muito atilamento intelectual para perceber que mais bancas de advocacia podem, em princípio, significar mais postos para quem quer se engajar no mercado de trabalho. Mais concorrência entre escritórios envolve, obrigatoriamente, mais disputa no mercado pelos bons advogados e isso pode elevar os ganhos dos profissionais assalariados. Do ponto de vista da sociedade ou, mais precisamente, daquele que se vale dos préstimos da advocacia, mais oferta, além de significar mais opções, implica em mais competição entre os escritórios e isso significa a incessante busca de mais qualidade de serviço para atender mais e melhor os clientes.

Afora essas razões, do ponto de vista da economia globalizada, na qual as empresas têm atuação mundial, é razoável que os escritórios de advocacia destas possam prestar-lhes serviços em outras latitudes, mas sob certas condições. A primeira delas é a da reciprocidade. Sem esta, nada feito. Se não pudermos trabalhar lá fora como os estrangeiros aqui, torna-se impossível pensar-se na presença deles aqui. O jogo tem que ser uma espécie de ganha-ganha. Depois, não pode passar sem registro que só advoga no Brasil quem tiver Diploma reconhecido pela nossa República e aprovação no nosso Exame de Ordem. Direito não é como Medicina. O corpo humano, seus sintomas e as doenças são iguais (ou quase) em todas as partes. As leis e seus sistemas, não. Ainda agora, apesar de começarem a se influenciar mutuamente, são muito diferentes.

Talvez, uma saída para se compor dificuldades, mas sem nunca abrirmos mão da reciprocidade, é a associação entre os escritórios nacionais e estrangeiros, que hoje, no entanto e com boas razões, se veda. Sem reciprocidade não é sequer possível pensar-se na celebração de associação entre escritórios nacionais e estrangeiros.

A interpenetração das economias e o processo de globalização tem claros reflexos no Direito. Não apenas pelo aspecto dos múltiplos tratados internacionais, pactos etc., mas pela própria apropriação e incorporação de institutos que antes só se viam na common law. Pode ser que num futuro não muito distante torne-se possível advogar tão bem em São Paulo quanto em Londres. Enquanto não acontecer, o melhor é termos regras claras para garantir condições adequadas de exercício e controle do exercício da profissão.

No mais, para os temerosos de novos tempos, é bom lembrar as palavras o vice-presidente do Conselho Geral da Advocacia Espanhola, Joaquim Garcia-Romanillos, que na já referida Audiência Pública promovida pelo Conselho Federal da OAB, salientou que “na regulamentação espanhola não existe obstáculo à colaboração entre as sociedades de advogados. Isso não resultou, contudo,  no desaparecimento dos escritórios de pequeno, médio e grande porte”, (…) apesar da abertura do mercado à iniciativa estrangeira, as quatro maiores bancas do país ainda são espanholas”[1]. Não será diferente aqui, pois sempre a Banca nacional, que tem experiência no trato das coisas e conhece a mentalidade reinante, despontará.

Pretender impor a ferro e fogo uma camisa de força à sociedade, restringindo os prestadores dos serviços jurídicos, por mero cartorialismo ou corporativismo nacionalista chega a causar náusea. Bastam-nos as ignominiosas acusações sobre o significado do Exame de Ordem.

Queremos por ora uma discussão clara, aberta e despida de nacionalismo/xenofobismo que, no mais das vezes, mal esconde a vontade de se manter o privilégio de uns poucos. Sim, queremos trabalho para todos os brasileiros e em condições dignas.


[1] Conjur em 8/5/12: “OAB discute associação com bancas estrangeiras”, por Rafael Baliardo.

Alberto Zacharias Toron

é advogado defensor de Aldemir Bendine, doutor em direito pela USP, professor de processo penal da Faap e autor do livro "Habeas Corpus e o Controle do Devido Processo Legal" (Revista dos Tribunais)

Marcos Alves Pintar disse:
16 de maio de 2012 às 15:49

A campanha nem começou direito e já se fala na instauração de inquérito policial. Essa promete ser a mais disputada campanha eleitoral já vista em 500 anos de Brasil.

MSRibeiro disse:
16 de maio de 2012 às 16:16

Se um brasileiro for tentar entrar na França, na Espanha ou nos EUA, buscando trabalhar em qualquer profissão, não conseguirá ter o seu visto concedido e se conseguir entrar no país em conformidade com a lei, com certeza não arrumará emprego. Aliás, eles (EUA e UE)são extremamente xenófobos. Pergunta: Porque nós não podemos ter o direito de também ser xenófobos e impedir que nosso mercado, já bastante saturado de excelentes profissionais brasileiros natos, seja devorado por estrangeiros ??????????
p.s: isso não vale só para a advocacia.

Marcos Alves Pintar disse:
16 de maio de 2012 às 16:39

Porque não haverá nenhum europeu ou americano doido, prezado MSRibeiro (Administrador), que vai baixar por aqui sozinho pretendendo uma inscrição na Ordem para esfregar a barriga em um dos balcões do Fórum João Mendes. A abertura do mercado da advocacia significa a chegada de bancas estrangeiras, ou seja, métodos organizacionais e de maior eficiência no trabalho, que será na sua maioria desempenhado por advogados locais, da mesma forma que a Ford é uma empresa americana fixada no Brasil, que usa mão de obra e engenheiros locais e os métodos de organização da matriz. A advocacia só tem a ganhar com isso, até mesmo porque nenhum estrangeiro está preparado para atuar no Judiciário brasileiro como advogado sem o assessoramento direto de advogados brasileiros.

Guilherme Augusto Becker disse:
16 de maio de 2012 às 16:44

Certas OPINIÕES/POSIÇÕES, deixam-me extremamente preocupado. Todos os países estão protegendo suas economias e seus trabalhadores, voltando a fechar um mercado que nunca foi totalmente aberto. Alemães e Franceses não vêm com bons olhos outros trabalhadores, mesmo integrando a Comunidade Europeia. Por que nós temos que abrir nosso mercado? Não existe justificava plausível. A Ordem não dá conta nem dos advogados brasileiros, imagine com advogados de vários países.

MSRibeiro disse:
16 de maio de 2012 às 17:32

Prezado Dr. Marcos Alves, Tenho bastante respeito e admiração por vossos comentários de excelente qualidade e creio que existem outras maneiras de se otimizar e se profissionalizar as bancas brasileiras sem o comprometimento da qualidade e da concorrência, e principalmente, sem que a advocacia perca a sua prerrogativa e abnegação assegurados constitucionalmente. Temos muita condição de aprender como adotar métodos organizacionais que lá fora dão certo (que aliás admiro bastante). Agora, interessante a citação sobre a Ford, pois graças ao lobismo que praticaram junto às outras montadoras estrangeiras há 50 anos atrás, hoje o nosso transporte ferroviário está jogado às traças e os caminhões entopem as nossas vias públicas, poluindo e encarecendo o custo de todos os produtos que dependem de transporte rodoviário. Outro dado relevante. Quando o empresário Roberto Gurgel, em 1994, tentou abrir uma fábrica para construir o carro popular 100% brasileiro, este teve seu intento frustrado pelo mesmo lobby de montadoras estrangeiras que nos fazem hoje pagar por um "pé de boi" o valor de apenas R$ 30.000,00. Será que o "gringo" é tal legal assim? São questões interessantes para refletirmos.

Marcos Alves Pintar disse:
16 de maio de 2012 às 20:02

De fato, prezado MSRibeiro (Administrador), há em tese inúmeros mecanismos visando propiciar melhores condições de trabalho na advocacia, mas o fato é que a classe está mergulhando progressivamente em um abismo que parece não ter fim, e não há como negar essa realidade. Há anos se anuncia que isso ou aqui vai mudar, e que será melhor para a advocacia, mas os problemas não são atacados e estamos sempre no mesmo beco sem saída. Quanto à citação que fiz da Ford, por certo que a vinda de empresas chamadas de multinacionais trouxe inúmeros transtornos ao Brasil, mas não se pode desprezar os aspectos positivos. O mundo hoje, gostemos ou não, é globalizado, e o funcionamento da Justiça também tende a essa realidade, o que será bom para o País devido ao atraso cultural que por aqui ainda há em matéria de dizer o direito no caso concreto.

Marcos Alves Pintar disse:
16 de maio de 2012 às 20:09

É exatamente neste ponto, prezado Guilherme Augusto Becker (Advogado Associado a Escritório), que a vinda das bancas estrangeiras será benéfica à advocacia brasileira. A esmagadora maioria dos problemas da advocacia são causados pela própria Ordem dos Advogados do Brasil, que permanece ainda em um regime ditatorial nos mesmos moldes da década de 1960 e é omissa na defesa do que interessa à maior parte dos advogados. A Ordem é dominada pelas grandes bancas, justamente a que prestam assessoria a grandes empresas estrangeiras e de áreas muito específicas como petróleo, e tem sua atuação orientada a defender somente essa espécie de advogado. Com a vinda das bancas estrangeiras, o atual regime de dominação da OAB vai ruir vez que os estrangeiros exercerão concorrência justamente nessas áreas específicas, e eliminará as bancas que dominam a Ordem. Não sabemos exatamente o que pode vir depois, mas a esperança é que essa mudança radical dê novo fôlego à Ordem, de modo a que a Entidade possa retomar seu feitio democrático e começar a cumprir seu papel institucional, passando a finalmente defender o que interessa a todos os advogados.

Rodrigo Sade disse:
17 de maio de 2012 às 01:21

Essa discussão sobre a abertura do mercado brasileiro à advocacia estrangeira me parece que só interessa aos grandes grupos empresariais, sendo certo é que afetará diretamente o nicho da Advocacia Empresarial, mercado e fusões, ou seja, afetará os "grandes escritórios" (aqueles mesmos das listinhas dos 10 mais do ano rs)
Pra ser honesto, a discussão é muito séria, e não há qualquer garantia, a
não ser "achismos" se resultará em benesses à classe.
O que fazer então? Ou abre, não abre? Se der certo, ótimo? Mas e se não der certo? Expulsamos os estrangeiros já afiliados a, talvez, uma pequena classe de privilegiados? (afinal, alguém irá sair ganhando com isso!) Como voltar atrás? Que garantia se terá?
Por outro lado, quanto ao entendimento de "xenofobismo" ou "globalização" tem que ser pensado sim de modo a privilegiar a classe de advogados brasileiros. Não há qualquer problema em ser protecionista ora. Isso é receio de ser taxado de conservador?
Pra concluir, certamente esta é uma discussão pra não ser discutida apenas pelos conselheiros federais, mas por toda classe....

Marcos Alves Pintar disse:
17 de maio de 2012 às 12:22

Creio que nessa discussão, dois pontos são essenciais:
.
1.º - Tudo é hipótese, umas vez que as bancas não chegaram, e as vantagens ou prejuízos ainda não aconteceram.
.
2.º - Embora no passado o "imperialismo moderno" tenha produzido resultados desastrosos ao País, é certo que na Europa e EUA houve grandes mudanças na legislação e na forma de enxergar os países de terceiro mundo, fazendo com que exista uma maior seriedade por parte do estrangeiro que aqui vem com seus negócios. Tanto na Europa como nos EUA, há previsão de que seus cidadãos respondam na esfera administrativa, civil e penal por condutas praticadas em outros países. Apenas para exemplificar, podemos lembrar o escândalo que abalou a Siemens há alguns anos, levando a empresa a assumir a culpa por ter pagado bandidos inseridos em funções públicas em países em desenvolvimento, inclusive o Brasil, e pagar uma multa de bilhões; e também o caso dos italianos que aqui vieram há alguns anos para delinquir e acabaram sendo deportados e condenados a penas elevadas por condutas praticadas aqui no Brasil (mais de 50 bandidos). Em ambos os casos, citados a título de exemplo, nota-se que aqui no Brasil sequer houve investigações mais aprofundadas e ninguém jamais foi condenado pelo Judiciário brasileiro, embora a culpa tenha sido comprovada lá fora. Isso nos mostra que, por mais mercenárias que sejam as bancas que aqui vão vir, supostamente, ainda assim haverá um "choque cultural" positivo considerando que a vida judiciária brasileira permanece profundamente influenciada por uma total conivência com o delito e os delinquentes, com acobertamento de crimes graves, calunias diversas a inocentes, e tantos outros problemas que conhecemos bem.

Thiago Ragazzoni Marques da Silva disse:
17 de maio de 2012 às 19:40

É de fazer chorar de rir, o doutor Toron dar como exemplo de abertura de mercado a afirmação de um representante espanhol da classe dos advogados, e logo após querer falar de reciprocidade!! Os brasileiros são tratados como lixo, não conseguem nem entrar no país, como poderão gozar dessa suposta reciprocidade!! Passamos anos sendo barrados na entrada deste país, e somente após muitos anos, algum governante brasileiro se prestou a determinar que se fosse dispensado um tratamento igual, e só aí que isto passou a ser problema de ordem internacional!! Antes quando éramos só nós os humilhados não havia problema algum!!
Ademais, há que se falar, que hoje, a abertura de mercado, não vai levar somente à uma valorização do bom advogado, mas vai levar também à uma transformação da mão de obra, tal qual as grandes empresas de call center fazem hoje em dia!! O que interessa pra eles no nosso país é apenas o dinheiro, e em sendo assim, a mão de obra será tornada o mais próximo possível de uma linha de montagem de veículos, fazendo com que o direito seja transformado em produto e não em ciência, tal como deve ser tratado!!
E ainda, desde que entrei na faculdade, e desde a época em que via meu pai falar dos casos dele e já admirava a profissão, entendo que direito deve ser uma profissão que se deva conhecer o homem, a sociedade, os costumes e etc, não há como querer me convencer de que um americano, espanhol o qualquer estrangeiro que for, entenda os sentimentos e as aspirações do nosso povo. E em sendo assim, eles NUNCA poderão exercer o direito de forma satisfatória, pois, sempre tomarão decisões baseadas nas convicções e costumes concebidos no seu país de origem!! Essa é a minha opnião!!

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