Ministros saem em defesa de Lewandowski em retomada de julgamento

“Censurar posturas diversas daquela que se tem e, a um só tempo, alardear modernidade e pluralidade soa, no mínimo, como hipocrisia”. As palavras foram ditas pelo ministro Marco Aurélio, nesta quarta-feira (21/8), no plenário do Supremo Tribunal Federal, antes da retomada do julgamento da Ação Penal 470, o processo do mensalão. O ministro leu para os colegas texto que escreveu para a revista Época, no final do ano passado, sobre a postura do ministro Ricardo Lewandowski durante a análise do polêmico processo.

Marco Aurélio e o decano do tribunal, ministro Celso de Mello, fizeram uma espécie de desagravo a Lewandowski, que foi impedido de votar na semana passada pelo presidente do STF, Joaquim Barbosa — clique aqui para ler a discussão do episódio. Barbosa acusou Lewandowski de fazer chicana e encerrou a sessão pelo fato de o revisor da ação divergir de sua posição na análise dos Embargos de Declaração interpostos pelo réu Bispo Rodrigues, condenado a seis anos e três meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Durante quase 25 minutos, os ministros Joaquim Barbosa, Ricardo Lewandowski, Celso de Mello e Marco Aurélio fizeram considerações sobre o episódio. Ao abrir a sessão, Barbosa não pediu desculpas pelo episódio, mas disse que não tem “a intenção de cercear a livre manifestação de nenhum dos membros desta Corte, muito menos de extrapolar as prerrogativas do cargo”. E completou: “Eu ratifico o meu respeito pelo tribunal e pelos seus membros”. Segundo o presidente do STF, cabe a ele zelar pelo bom andamento dos trabalhos, o que inclui a celeridade.

Lewandowski, então, pediu a palavra para dizer que se sentiu confortado pelo apoio que recebeu depois do “lamentável” episódio e disse que pretende deixá-lo de lado e considerá-lo ultrapassado. “Este tribunal, pela sua história, é maior do que cada um de seus membros individualmente considerados, e é maior também do que a somatória de todos os seus integrantes”, afirmou.

O decano do tribunal, Celso de Mello, se pronunciou de forma contundente em defesa do respeito à divergência que deve ser a tônica dos julgamentos em qualquer colegiado — leia aqui a íntegra do pronunciamento. O ministro começou a falar dizendo que seu pronunciamento “jamais deveria ser feito”. Mas que deveria ser feito “em razão de fato notório ocorrido na última sessão de julgamento”.

Celso de Mello falou sobre a importância dos votos vencidos para legitimar as decisões do tribunal e plantar a semente da transformação: “Aquele que vota vencido, por isso mesmo, longe  de sofrer injusto estigma por haver exercido  legitimamente o direito ao dissenso,  deve merecer o respeito de seus contemporâneos,  especialmente daqueles que não compartilham de seu pensamento, pois a História tem registrado que,  nos votos vencidos, reside,  algumas vezes, a semente das grandes transformações”.

O ministro Joaquim Barbosa retomou a palavra depois do decano para reafirmar que teve como norte no episódio da discussão prestar a justiça com celeridade. E concluiu: “Não vejo a Presidência do Supremo Tribunal como um eco de vontades corporativas. É algo bem superior a isso”.

Em seguida, o ministro Marco Aurélio leu seu texto publicado na revista semanal. E concluiu dizendo que Lewandowski deve continuar a fazer seu trabalho de acordo com seu convencimento: “Parafraseando Voltaire, afirmo, ministro Ricardo Lewandowski, que, até quando divirjo da interpretação dada ao contido em processo da competência do Supremo, defendo o direito de Vossa Excelência de proclamar o que pensa. Siga em frente! Caminhamos rumo à quadra em que a coragem de dizer as próprias verdades não será motivo de assombro”.

Ao retomar a sessão, Barbosa disse: “Bom, vamos trabalhar!”

Clique aqui para ler o pronunciamento do ministro Celso de Mello.
Leia o pronunciamento dos ministros:

Ministro Joaquim Barbosa
Como presidente desta Corte, tenho a responsabilidade de, respeitados os preceitos fundamentais, especialmente os direitos fundamentais, zelar pelo bom andamento dos trabalhos, o que inclui a regularidade e a celeridade dos trabalhos desta Corte, uma vez que justiça que tarda, não é justiça. Todas as minhas iniciativas dentro deste tribunal, na condição de presidente, estão impregnadas dessa visão. Não me move a intenção de cercear a livre manifestação de nenhum dos membros desta Corte. Muito menos, de extrapolar as prerrogativas do cargo. Eu ratifico o meu respeito pelo tribunal e pelos seus membros. Mas reafirmo a minha convicção de que é dever do presidente desta Casa adotar todas as medidas ao seu alcance para que o serviço da Justiça seja transparente, célere, sem delongas, até mesmo em respeito à sociedade, que é quem, afinal, paga os nossos salários.

Ministro Ricardo Lewandowski
Com referência ao lamentável episódio da semana passada, quero dizer que me sinto e me senti extremamente confortado pelas manifestações formais e explícitas de solidariedade que tive por parte da Associação dos Magistrados Brasileiros, da Associação dos Juízes Federais do Brasil, da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho, do presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, de dezenas de editoriais e de colunas estampadas nos mais importantes jornais do Brasil, do apoio e da solidariedade que recebi de colegas da magistratura do todo o Brasil, de membros do Ministério Público Federal e estadual de diversas unidades da federação, de juristas, acadêmicos, parlamentares, membros do Executivo, ministros desta Casa de hoje e de ontem, ex-presidentes, de maneira que quero deixar esse episódio de lado, considerá-lo ultrapassado, porque este tribunal, pela sua história, é maior do que cada um de seus membros individualmente considerados, e é maior também do que a somatória de todos os seus integrantes. É o que tinha a dizer e estou pronto para retomar os trabalhos porque, eu aqui, como todos nós, sou órgão do Estado. E o Estado não pode negar-se a prestar jurisdição.

Complemento do ministro Joaquim Barbosa, após pronunciamento do ministro Celso de Mello
Longe de mim a vontade de cercear a livre expressão de qualquer membro desta Corte. Reafirmo aquilo que tive como norte, como direção, durante aquele episódio. Ou seja, a minha deliberação no sentido de evitar maiores delongas, sobretudo na conclusão deste processo que é de extremo interesse da sociedade brasileira. Acrescento, por último, que tenho uma visão bastante peculiar da Presidência de um dos poderes da República. Eu não vejo a Presidência do Supremo Tribunal como um eco de vontades corporativas. É algo bem superior a isso.

Ministro Marco Aurélio
Ao inocentar alguns acusados, o ministro do STF manifestou uma voz minoritária e dissonante, que precisa ser respeitada. Cada vez maior é a movimentação social a favor das minorias e do respeito à liberdade de expressão. Aqueles que não tinham voz, que estavam à sombra, hoje podem sair às ruas e pleitear um lugar ao sol e o direito de ser diferente. Ventos democráticos renovaram o poluído ar deixado pelo autoritarismo, pelo sectarismo. Mas que democracia é essa que atende pelo nome de satisfação pessoal, que inadmite visão discordante, que massacra os que contrariam a corrente majoritária? A independência do magistrado revela a finalidade precípua de defesa do Estado, das instituições e do cidadão. Protege-se o juiz nos atos jurisdicionais, para poder concretizar o direito como resultado do processo da submissão do fato à norma, a partir da ciência e consciência, da formação intelectual e humanística possuídas. Mede-se a maturidade de um país pela observância à decisão formalizada, seja qual for, desde que fundamentada e anunciada publicamente. Imaginar que a defesa de entendimento minoritário reflete apoio político comprado implica supor que os integrantes da ótica vencedora estão também comprometidos com a mídia ou a opinião pública. Censurar posturas diversas daquela que se tem e, a um só tempo, alardear modernidade e pluralidade soa, no mínimo, como hipocrisia. Uma sociedade aberta, tolerante e consciente pressupõe escolhas pautadas nas várias concepções sobre os mesmos fatos. Parafraseando Voltaire, afirmo, ministro Ricardo Lewandowski, que, até quando divirjo da interpretação dada ao contido em processo da competência do Supremo, defendo o direito de Vossa Excelência de proclamar o que pensa. Siga em frente! Caminhamos rumo à quadra em que a coragem de dizer as próprias verdades não será motivo de assombro.

Rodrigo Haidar

é editor da revista Consultor Jurídico em Brasília.

Valdecir Trindade disse:
21 de agosto de 2013 às 17:53

É preciso ser integro e ostentar coragem para confrontar o pusilânime, que sob o palio falso do bom mocismo comete as mais repugnantes patifarias contra o direito e contra a nação. Coonestar essa prática deletéria, sob qualquer que seja a justificativa, alicerça o pusilânime e fragiliza a cidadania. Meus respeitos e solidariedade ao Ministro Joaquim Barbosa.

hammer eduardo disse:
21 de agosto de 2013 às 18:10

A atual novela da Globo exibida diariamente as 9 da noite tem um personagem digamos assim , "diferente" porem o charme do mesmo tem conquistado quem assiste a novela tamanha a sua cara de pau e total ausencia de carater e escrupulos.
Qualquer comparação do Felix com algum ministro escancaradamente com a petralhagem explicita tera sido mera coincidencia.
JoaquimBarbosarealmente não é nenhum Ronnie Von em termos de encanto pessoal mas é uma pessoa indiscutivelmente seria sobre a qual a quadrilha petralha tem feito todos os esforços para desacreditar perante a População que via de regra é meio burrinha , alienada e facilmente "enrolavel" se o papel de embrulho for de boa qualidade.
Não gostar do " JB " é uma opção pessoal de cada um porem dai a querer desacreditar seu foco num trabalho serio num Pais com a Justiça desmoralizada mormente por sua perfida lentidão , é outra coisa !
O fato das transmissões ocorrerem em tempo real tambem serve de inibidor de algumas posturas claramente "vendidas" perante os poderosos que saqueiam e atrasam livremente nosso pobre Pais.
Parabens ao Ministro Joaquim Barbosa por MAIS UMA VEZ se despir de falsos pudores e salamaleques de bordel e ir direto ao ponto dando a cesar o adjetivo que ele merece. Antes tinhamos apenas 2 declaradamente a favor de salvar as ratazanas do Mensalão , vamos apenas rezar para que este numero não venha a dobrar com as novas "aquisições" que ainda não definiram muito bem a que vieram.
Com o devido respeito que a Corte possa merecer , pessoas como esse Carioca que me recuso a pronunciar o nome me enojam ao extrems por sua desfaçatez e cinismo com relação ao fato julgado. Pau nele JB , sempre !!!

Marcos Alves Pintar disse:
21 de agosto de 2013 às 18:24

O Ministro Lewandowski deixou barato, mas não deveria. Pensou mais no cargo do que em sua dignidade. A Justiça verdadeira nunca foi feita por homens fracos, sendo certo que um juiz não pode aceitar ser impedido de votar, da mesma forma que o advogado não pode aceitar ser impedido de falar, peticionar ou reclamar. Quem aceita cerceamento de suas prerrogativas é um fraco, e fracos não deveria estar ocupados no desenvolvimento de profissões jurídicas. Tudo bem que quando um juiz firma posição sobre algo poderá haver represália mesmo quando lhe assiste o direito, assim com ocorre frequentemente com os advogados. No caso de Lewandowski, a opinião pública está a favor do Ministro Joaquim Barbosa, sendo certo que 99% da massa da população estaria contra ele se se recusasse a ingressar no plenário até que fosse formalmente desagravado. É isso o que ocorre via de regra com nós advogados, que não raro temos nossas prerrogativas violadas e o mundo todo contra, mas nem por isso deixamos de atuar e lutar.

Marcos Alves Pintar disse:
21 de agosto de 2013 às 18:26

E como fica o julgamento? Lewandowski estava votando e foi impedido. E o resultado? Vale se, com o jogo empatado, o juiz determina o encerramento da partida 3 minutos antes quando o atacante está "na cara do gol"?

Valdecir Trindade disse:
21 de agosto de 2013 às 19:02

A tese esgrimida pelo Dr. Pintar é aceitável quando examinada in abstracto, mas no contexto em que os fatos se apresentam ocorre uma impropriedade, pois as vítimas são a cidadania, a ética e a lealdade processual. Com o devido respeito, não vejo outro ofendido, data vênia.

Eduardo. Adv. disse:
21 de agosto de 2013 às 19:57

Esse dias estava pensando em como os larápios se deram mal. E desejei-lhes: "Bem-feito!!. Mil vezes!!!"
Mas no íntimo, também pensei de outra forma...
Sabe quando eu gostaria de ter um processo meu (pessoal ou de cliente) na mão de Joaquim Barbosa??? Nunca!!!!!!!!
E olha, não me meto em patifarias, abro mão de casos quando sinto que o sujeito de alguma forma é picareta ou que quer/quis tirar vantagem indevida de alguém/algo etc...
Nem tanto a Joaquim Barbosa, nem tanto a tantos outros...

Jotacê disse:
21 de agosto de 2013 às 20:04

escrevi sobre o triste episódio do dia 15/8 (sobre o texto de Elio Gaspari) e não o vi publicado. devo ter sido censurado. Chamei as manifestações iniciais (CM, JB e RL) como previsíveis e anunciadas. Algo como pôr algodão entre cristais. A de MA, a meu ver, era desnecessária, ele apenas quis prenunciar - o que se confirmou depois - que sua antipatia ao atual presidente da Corte é insuperável, votando com a divergência. A Corte deu a resposta que dela se esperava, acompanhando por maioria (8 a 3) o relator, e rejeitando (ou desprovendo) os ED. A meu ver, as defesas do RL, do DT e do MA são insustentáveis. Se eu solicito ou aceito dinheiro para cometer um crime (POR EXEMPLO, MATAR ALGUÉM, pra não fugir da área criminal), fecho o negócio e NÃO COMETO o assassinato, tem como considerar consumido o crime pela solicitação/aceitação? E se o deputado votou a favor antes de receber a grana, teria cometido crime (na vigência da lei anterior)? Ainda teremos de ouvir a repetição de muitos votos. JB hoje precisou repetir três vezes os mesmos argumentos (KR, JRS e VS) exatamente porque, caso não individualizasse, daria ensejo a novos ED. E, com o andar do julgamento dos ED, com certeza, vamos passar mais algumas tardes ouvindo os votos lewandowskianos defendendo o indefensável.

Xarpanga disse:
21 de agosto de 2013 às 20:30

Não pode ser reputado de íntegro um ministro que cerceia o direito de seus pares de opinar e de votar. Há trezentos anos um filósofo francês proclamava: "posso não concordar com sua opinião, mas defenderei até a morte o direito de manifestá-la.

Juacilio disse:
21 de agosto de 2013 às 21:18

O STF de janeiro de 2003 até os dias de hoje, tornou-se um grande barco à deriva, fixado no passado recente, mas sem expectativa futura de uma técnicidade político-jurídica capaz devolver ao Tribunal o repeito de outrora, que se dissolveu na última década. Grande parte da culpa por este descrédito do STF está na vaidade, nos status e sobretudo na finalidade que cada um de seus membros têm em consolidar uma boa biografia. Quem sabe às próximas eleições comece a mudar esse lamentável panorama.

Juacilio disse:
21 de agosto de 2013 às 21:18

O STF de janeiro de 2003 até os dias de hoje, tornou-se um grande barco à deriva, fixado no passado recente, mas sem expectativa futura de uma técnicidade político-jurídica capaz devolver ao Tribunal o repeito de outrora, que se dissolveu na última década. Grande parte da culpa por este descrédito do STF está na vaidade, nos status e sobretudo na finalidade que cada um de seus membros têm em consolidar uma boa biografia. Quem sabe às próximas eleições comece a mudar esse lamentável panorama.

Ricardo disse:
22 de agosto de 2013 às 00:10

as prerrogativas de advogados rotineiramente sao violadas por juízes arrogantes e despreparados. isso acontece com tanta freqüência que nem mais constitui novidade. Causa espanto então que operadores do direito se surpreendam com a batalha travada no STF entre os magistrados. e mais do mesmo.

Zé Machado disse:
22 de agosto de 2013 às 07:32

O ministro Benedito está pretendendo transformar o STF no único tribunal que condena, com injustiça, apenas para justificar a celeridade processual. Parece anedota. Talvez uma cópia vulgar do processo chinês, iraniano ou coisa parecida.

Menslex disse:
22 de agosto de 2013 às 12:08

Joaquim Barbosa - vá em frente, pelo Brasil!!!
Chega de manobras protelatórias, chega de alegações ilegítimas - dizer que as alegações do Sr. Ministro Lewandowski são "legítimas" - só se for desse jeito..entre aspas....

Silva Leite disse:
22 de agosto de 2013 às 21:55

O ministro JOAQUIM BARBOSA,já demonstrou para nós, cidadãos de bem, que é um HOMEM INTEGRO, HONESTO E IMPARCIAL, voltado tão somente para promover ajustiça no BRASIL, não privilegiando nenhuma das partes envolvidas no processo, daí a razão de presidir a SUPREMA CORTE e com tamanha dignidade e firmeza conduzí-la. Já o ministro Lewandovisky, CHEIO DE NÃO ME TOQUES, parece não querer muito compromisso com o AFLORAMENTO DO DIREITO e sim fazer a VONTADE DOS SEUS PARCEIROS LULA E DILMA QUE O INDICARAM PARA O STF.

J. Ribeiro disse:
23 de agosto de 2013 às 23:22

A franqueza as vezes não é conveniente.
Sendo o Min. JB presidente do STF, sua atitude no caso "Lewandowski", frente as câmeras, foi lamentável.
Por outro lado, o Min. Lawandowski nesse episódio do mensalão revelou outras influências ou esquemas também lamentáveis, pareceu mais eloquente que os advogados dos réus. O silêncio certamente seria mais prudente. Insistir em alterar, por via oblíqua, a decisão do STF repetindo os mesmos argumentos é provocar e fazer perder a paciência do Min. JB, como presidente do STF, a ponto de perder a serenidade, com certa razão.

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