José Vicente: Em resposta a tragédias o Estado regula muito e regula mal

Após uma tragédia como a de Santa Maria (RS), duas coisas são certas de ocorrer: consternação e superregulação. Quanto à tristeza, não há nada a se dizer, mas tudo a se compartilhar. Este artigo se concentra na superregulação, sobre a qual há muito a se discutir.

Há décadas, pesquisadores se concentram no chamado “viés de saliência” que ocorre após catástrofes. A memória coletiva — e a necessidade de resposta política imediata, sob ameaça de perda de legitimidade — destaca eventos recentes, mas ignora riscos ocultos ou distantes no tempo. O problema é que, racionalmente, o risco saliente nem sempre é o mais grave ou o mais urgente. Os recursos públicos, contudo, invariavelmente serão canalizados para o risco de que se tem mais viva memória.

O viés de saliência gera a miopia regulatória. Gastar-se-á milhões numa hiper-prevenção a acidentes em boates — circunstância que, segundo a regra estatística da redução à média, provavelmente não vai mais ocorrer num futuro próximo —, dinheiro que provavelmente seria mais bem empregado na prevenção de outros riscos, os quais não estão atualmente destacados pela memória coletiva. O risco espetacular gera a (cara) resposta espetacular: é possível que mais mortes ocorram anualmente em função de riscos não-salientes (ex., crianças que se afogam em piscinas domésticas; não uso de tampa de segurança em remédios controlados), mas, nas próximas semanas, toda a agenda regulatória nacional estará concentrada nos riscos de incêndios em lugares fechados.

Além do problema do viés de foco, há outro padrão equivocado da resposta pública nesses casos. Ele pode ser resumido da seguinte forma: superregulação causa sub-regulação. A superregulação intensifica o problema de “acabar com os últimos dez por cento do risco potencial”. Ou seja, a busca pela exterminação por completo do risco. Só que os custos da inteira redução de certo risco — quando isso é possível, diga-se logo — são inversamente proporcionais à sua incidência estatística. Econômica e socialmente, isso não faz sentido: se já se gastou novecentos milhões para reduzir noventa por cento de determinado risco, não é racional gastar oitocentos milhões para reduzi-lo em mais cinco por cento. Se o Poder Público insiste nisso, faltarão — novamente — recursos públicos para regular outros setores. Assim, superregulação causa sub-regulação.

Mas há uma segunda razão para tanto: é que, se o Poder Público concentra todas as energias numa intensa campanha regulatória sobre certo setor ou risco, há natural contraofensiva por parte das empresas afetadas. Questionamentos judiciais, lobbies, contraofensiva política financiada pelo capital privado interessado. Tudo isso gera custos e desgaste para a máquina pública; recursos que serão potencialmente desviados de seu uso na regulação de outros setores ou riscos não-salientes (mas igualmente graves, ou até mais graves do que o risco saliente). Superregulação gerando sub-regulação. Melhor faria o Poder Público se optasse por regulação mais abrangente — isto é, sobre mais setores, já que assim neutralizaria mais riscos potenciais —, mas menos intensa, quer dizer, que acabasse não lhe sendo tão custosa.

Em síntese: em resposta a tragédias como a de Santa Maria, o Estado regula muito e regula mal. Se aos cidadãos é legítimo reagir emocionalmente, do Estado se espera menos emoção, e mais racionalidade.

José Vicente Santos de Mendonça

é professor adjunto de Direito Administrativo da UERJ.

hammer eduardo disse:
01 de fevereiro de 2013 às 10:39

O Brasil mostra mais uma vez o seu despreparo para conviver com regras minimas que sejam. A catastrofe de Santa Maria apenas deixa isso um pouco mais evidente apesar de sabermos que na pratica , daqui a dois meses ou ate menos , será MAIS um assunto grave devidamente esquecido. Para as Familias enlutadas ficará a dor pessoal e as brigas na Justiça pela responsabilização que bem sabemos como acabam , vide o acidente do Bateau Mouche em 1988 , ou seja , A VINTE E CINCO ANOS ATRAS em que NINGUEM foi em cana , ficou tudo por isso mesmo e os espanhois safados que geriam o negocio se mandaram de fininho de volta para a Espanha de onde nunca deveriam ter saido, este é o Brasil verdadeiro sem muito lero lero conforme vemos diariamente. Com a nossa quelonica justiça atuando , não se pode esperar muita coisa deste caso de Santa maria apesar de que o numero de Vitimas inocentes foi impressionante.
Hoje mesmo a poderosa "redi grobu" ja mostrou ( devidamente avisada como sempre....) as inspeções histericas por parte de quem deveria ter feito o dever de casa la atras e não o fez , agora querem mostrar serviço enchendo o saco de meio mundo, simples!
A grande pergunta que fica no ar por todo o Brasil é a respeito de "onde" andava a tal "rigorosa fiscalização" em todo o periodo anterior ??? .Quem tem algum tipo de negocio acima de uma carrocinha de pipoca sabe que tem que ter uma verba substancial para "molhar" a mão das variadas formas de fiscalização que o estado parasita inventa a cada minuto para acabar com o trabalho organizado , é corrupção correndo solta e a ratada em Brasilia NADA faz a respeito. Infelizmente o que vemos hoje é pirotecnia televisiva para enganar a plebe ignara , apenas isso, infelizmente .

Le Roy Soleil disse:
01 de fevereiro de 2013 às 12:35

Primeiro. O custo é absolutamente desimportante quando se trata de prevenir tragédias e preservar a vida.
Segundo. Para o Poder Público, o custo será mínimo (quando muito, contratar mais agentes para intensificar a fiscalização). A maior parte do custo impactará, sim, no setor privado. Cabe ao particular adequar o seu estabelecimento aos rigores da lei, e se não tiver como fazê-lo, que feche as portas, será melhor para a sociedade.
Terceiro. É necessário criar na sociedade brasileira a cultura da prevenção, como existe no primeiro mundo. No Canadá, por exemplo, são constantes as simulações de incêndio não só em casas noturnas, mas em aeroportos, centros comerciais e até mesmo em prédios residenciais, onde todos, inclusive os moradores, participam. Isso implica em custos ? Claro que sim, mas o custo de não fazer é infinitamente maior ...

José Vicente Mendonça disse:
01 de fevereiro de 2013 às 12:43

(1) O custo não é absolutamente desimportante quando se trata de prevenir vidas. Somente com a introdução de uma cultura capaz de racionalizar minimamente o "custo" da vida humana em diversos contextos será possível constituir uma estrutura regulatória capaz de preservá-las de modo eficiente. Isso já é feito nos EUA desde, pelo menos, meados dos anos 70. O oposto é a visão romântica de sempre, que, mercê de sacralizar, menospreza e diminui a vida.
(2) O custo não é mínimo. É enorme. Ainda que fosse só "contratar agentes" (e não é: o aparato regulatório possui custos muito mais complexos e invisíveis do que esse), está-se falando no maior item de gastos do Estado, que é a folha de pessoal. Contratar agentes não é simples, não é rápido, e, certamente, não é barato.
(3) Não me oponho a uma "cultura de prevenção". O texto nada tem a ver com um posicionamento contra ou a favor de tal platitude.

Mário Lemanski Filho disse:
01 de fevereiro de 2013 às 13:07

Os meios de comunicação em massa, em especial a televisão, não prezam - porque não lhes é vantajoso - pelo aprofundamento do debate.
A própria maneira como se sucedem as imagens na telinha não permite aprofundamento crítico algum; somente pilhas de corpos e dor das famílias.
Somado a isso existe ainda a expectativa brasileira - que nunca foi tão intensa (AP 470) - de ver a justiça acontecer na televisão.
Resta-nos essa caça às bruxas.
Só para exemplificar, o delegado que comanda as investigações em Santa Maria expõe nas redes sociais, em primeira mão, indícios supostamente colhidos em Inquérito Policial (que deveria ser sigiloso - art. 20, CPP).
http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2013/01/delegado-de-santa-maria-posta-foto-que-mostra-uso-de-fogo-na-boate-kiss.html
Que se faça justiça à moda brasileira, isto é, com muitas prisões cautelares e superregulação.

Luiz Pereira Neto - OAB.RJ 37.843 disse:
01 de fevereiro de 2013 às 18:31

Todos os embasados comentários anteriores , partem de premissas , absolutamente equivocadas , diante da nojenta e criminosa atuação dos Administradores e de suas extensões e complementos tecnicistas - que nos consideram , apenas , como números e não como seres vivos , intitulados , pessoas - calcada no corrupto entendimento "do quanto pior , melhor" . Assim sendo , o clamor popular , o impacto social , o trauma gerado , etc... , só facilitam as coisas para que , com esta interminável série de rápidas providências , possam faturar , sem qualquer ou sem maiores fiscalizações , incalculáveis cifras , todas já "autorizadas" , pelos ecos e dedobramentos da tragédia , por eles facilitada e , até mesmo , provocada , da forma com que , regiamente , deixaram de cumprir Leis e Medidas Preventivas , quando da Concessão do Alvará , Fiscalizações , etc... .
Nos mesmos moldes , exemplifica-se com a atual "Internação Compulsória" de viciados em crack e outras drogas , absolutamente , necessária , diante do atingido caos , porém altamente gratificante para o superfaturamento , nos Órgãos , por eles selecionados para os tratamentos , que , sem limites , enriquecerão as suas contas , quando , eles , propositalmente , já ricos , pela deliberada inoperância no combate às drogas e ao tráfico, "fabricaram" os viciados que , num circulo vicioso , contuarão a prover-lhes , com aquelas infindáveis internações , a título de "tratamento" , no falido Sistema de Saúde Brasileiro .
É lamentável , mas , é a verdade nua e crua da degradação a que chegamos : "QUANTO PIOR , MELHOR" !

Le Roy Soleil disse:
01 de fevereiro de 2013 às 20:18

Quanto ao dilema do custo para os cofres públicos (interesse público secundário), é de facílima solução. É só o Congresso Nacional derrubar o veto na questão dos royalties do petróleo, que todos os Estados e Municípios terão dinheiro suficiente, que poderia muito bem ser aplicado na fiscalização e prevenção de incêndios.

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