José Roberto Batochio: Abolição nos EUA guarda coincidências com mensalão

 (ou de como o Presidente Lincoln e seu gabinete poderiam ter se saído se a aprovação da 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, tal como sucedeu, tivesse sido julgada no Brasil)

 Sem iniciar este assunto com a clássica alusão à ética de resultados mencionada por Max Webber ou citar Nicolau Maquiavel, tão assertivo no afirmar que ao príncipe todos os meios estão justificados pela nobreza dos fins, certo é que a aprovação da emenda à constituição americana que aboliu a escravatura na mais festejada democracia do planeta (refiro-me à Décima Terceira Emenda, de 1865), sob a Presidência de Abraham Lincoln, deu-se em circunstâncias verdadeiramente peculiares. Preocupado em manter a União, consolidando-a, além de construir uma grande nação para o futuro, enfrentava ele a feroz hostilidadeda rural e escravocrata da bancada oposicionista (Democratas) e assistia, com tristeza, algumas defecções no seu próprio partido, o Republicano. Na Casa dos Representantes, portanto, o prognóstico era o mais sombrio: derrota inevitável, com a rejeição da emenda libertária e manutenção da monstruosa chaga do cativeiro negro.

Paralelamente a esse monumental esforço de construção social, o “Pai Abe” —assim o tratavam, carinhosamente, seus compatriotas—, formulador com voo de águia, que planejava para grandes distâncias e futuro remoto, vivia o terrível drama da guerra civil, separatista, a secessão. Duas gigantescas batalhas, travadas em distintas arenas: a política e a militar (nesta, discutia, pessoalmente, estratégias de combate com o general Ulysses Grant). Ambas as frentes mostravam-se bem do tamanho da grandeza de alma e de caráter do desafiado.

O tema é agora oportuno, não apenas pela notabilidade da recente obra cinematográfica Lincoln, que permite a todo povo um imediato e fácil vislumbre dessa tragédia, fechada com a pistola Derringer, calibre 44, de John Wilkes Booth, que o assassinou no Teatro Ford, mas também pelas intrigantes coincidências com supostas cooptações de votos no Parlamento do Brasil, que resultaram na aprovação da Emenda da Reeleição (governo Fernando Henrique Cardoso) e também no mais recente e celebérrimo julgamento no Supremo Tribunal Federal, denominado caso “mensalão”, cujo escopo seria a aprovação de reformas sociais de profundidade e de combate à desigualdade (governo Lula).

Na saga americana, o então secretário de Estado de Lincoln, William Henry Seward (um híbrido de chanceler e chefe da Casa Civil), persuadido da obstinação presidencial quanto à causa abolicionista e da isonomia, e ciente da derrota iminente no parlamento, aconselhou-o a não se expor tanto na tarefa de conquistar votos parlamentares, missão delicada e que reputava erosiva à imagem do governante. É que no colegiado-alvo havia de tudo, desde patriotas sinceros e honestos a reles interesseiros, aproveitadores, autocratas empedernidos, caracteres corrompidos e conservadores extremados. Afinal, o parlamento é a projeção fiel da sociedade que o elege, não é mesmo?

Daí a utilização do concurso habilidoso —mas não escrupuloso— de certo personagem de fora do governo, para a abordagem dos deputados americanos. Argumentos de persuasão? Todos foram usados. Rigorosamente todos, sem exceção…

Do oferecimento de cargos públicos a vantagens materiais mais tácteis, todos os empenhos, publicáveis ou não, foram feitos para aprovar a emenda que varreria o horror da escravidão do território americano.

O cenário não é mesmo sugestivo e intrigante? A emenda foi aprovada, a escravidão erradicada, para sempre, e a guerra de secessão, vencida, restando íntegra a unidade da Federação americana.

Método de ação governamental passível de censura, mas eficaz, a se contrapor à necessária ética da governabilidade, nem sempre suficiente, tudo com vistas à consecução do objetivo de realizar o bem comum e preservar os superiores interesses da coletividade: eis aí um enorme dilema político posto aos que governam.

Submeta-se agora, em exercício de ficção, esse longo e intrincado processo que extinguiu a escravidão e a guerra separatista na nação americana —tal como lá foi realmente operado—, a julgamento criminal no Brasil de hoje. Seriam aqueles construtores da nação ianque também condenados como bandoleiros ou quadrilheiros comuns, salteadores e falsários (exatamente iguais àqueles que nas ruas rapinam por mera cupidez), como cá está a ocorrer? Que juízo disso fariam os críticos assépticos, descompromissados das grandes responsabilidades das decisões coletivas, e os burocratas de gabinetes? E os —sempre implacáveis— acusadores profissionais, como veriam a questão da tramitação da Emenda 13 da Constituição Americana? Nela veriam crimes de meios não importando os resultados alcançados? Optariam pela possibilidade de perdurar a escravidão, com suas abjetas consequências, a tudo se sobrepondo a exemplar condenação dos protagonistas envolvidos naquele processo legislativo?

Cabe refletir.

José Roberto Batochio

é advogado, defensor de Antonio Palocci Filho. Foi presidente do Conselho Federal da OAB e deputado federal pelo PDT.

Erasto disse:
21 de fevereiro de 2013 às 19:58

Toda comparação não pode prescindir da análise do contexto, Dr. Batocchio.
Por enfrentar guerra civil que poderia levar o país à secessão, o presidente Lincoln recebeu do parlamento poderes ditatoriais. Até o direito ao habeas corpus foi suspenso.
Muito diferente do contexto dos fatos apurados na AP 470.

Erasto disse:
22 de fevereiro de 2013 às 06:39

A comparação é difícil em razão da diferença contextual.
O filme talvez não revele o caos em que viviam os EUA durante a guerra de secessão.
A corrupção era generalizada. O comandante Lee reclamava dos que se aproveitavam da desgraçada situação do país: "em barracas, uma lona mais leve ou a subtração de umas poucas polegadas em cada uma; nos arreios, couro cortado; no conjunto dos arreios, materiais e fabricação de inferior qualidade; nos sapatos, solas de papel; nas roupas, imposturas...Uma grande guerra sempre gera mais canalhas que os mata" (SANDBURG, Carl. LINCOLN: os anos da pradaria; os anos da guerra. Belo Horizonte: Itatiaia, 1960, pp. 770/771).
Diante do descalabro, o parlamento conferiu a Lincoln poderes ditatoriais. O direito a habeas corpus foi suspenso, além de outras medidas de exceção.
Enfim, nunca na história daquele país as razões de Estado justificaram tanto a adoção de meios tão injustificáveis em outro contexto.

Luiz Eduardo Vacção Carvalho disse:
22 de fevereiro de 2013 às 11:17

A única coincidência entre o mensalão e a abolição da escravatura é que somos escravos destes políticos que tratam o poder público como extensão de suas casas, agindo como se estivessem acima da lei.
E quando a lei lhe cortou na carne reagem culpando a lei, dizendo que defendem um bem maior.
Absurdo.

Cláudio João disse:
22 de fevereiro de 2013 às 17:40

Enquanto se procurava erradicar de uma sociedade americana a chaga escravocrata, aqui deu-se, tão-somente, uma oportunidade de se aferir maiores ganhos, digamos, aumentar a renda familiar dos mensaleiros.

antonio carlos AD disse:
22 de fevereiro de 2013 às 20:15

Não é de se comparar a empreitada para o fim da escravidão no EUA com o mensalão, em vista que os fatos na America do Norte foram passados depois de uma guerra civil, portanto, os animos ainda estavam acirrados, porém, o mensalão não foi perpetrado como unico intuito de votarem reformas sociais, se é que, por um unico pingo, teve essa conotação,pois, nem toda lei votada nessa época foram em favor dos pobres,inclusive, a época foi votada a emenda constitucional que tirou da Constituição o percentual de juros aplicados das dividas bancárias e não foi compensada tal lei com relação aos juros cobrados pelos bancos, outro modo, os implicados também se beneficiaram das benesses e dos dividendos dos valores, que eram públicos,ademais, não é justo comprar alguém,e essa história que o fim justificam os meios é improvável, na maior parte dos casos, além disso, nas peripécias juridicas do Ilustre Dr. Batochio estão fazendo sucesso e, logo, vão virar manchetes.

antonio carlos AD disse:
22 de fevereiro de 2013 às 20:15

Não é de se comparar a empreitada para o fim da escravidão no EUA com o mensalão, em vista que os fatos na America do Norte foram passados depois de uma guerra civil, portanto, os animos ainda estavam acirrados, porém, o mensalão não foi perpetrado como unico intuito de votarem reformas sociais, se é que, por um unico pingo, teve essa conotação,pois, nem toda lei votada nessa época foram em favor dos pobres,inclusive, a época foi votada a emenda constitucional que tirou da Constituição o percentual de juros aplicados das dividas bancárias e não foi compensada tal lei com relação aos juros cobrados pelos bancos, outro modo, os implicados também se beneficiaram das benesses e dos dividendos dos valores, que eram públicos,ademais, não é justo comprar alguém,e essa história que o fim justificam os meios é improvável, na maior parte dos casos, além disso, nas peripécias juridicas do Ilustre Dr. Batochio estão fazendo sucesso e, logo, vão virar manchetes.

David Benevides disse:
22 de fevereiro de 2013 às 21:21

Impressionante como algumas "mentes brilhantes" de nosso país conseguem encontram precedente para justificar a maior aberração política da história política brasileira.
Não há comparações. É como afirma o Professor Lenio Streck hoje se utiliza do argumento "não há fatos, só interpretações" justificando o relativismo de "tudo".

Zé Machado disse:
23 de fevereiro de 2013 às 07:48

Em outras palavras, Lincoln teve que corromper o congresso para levar o desenvolvimento para o Oeste também. O incrível disso tudo é que os melhores homens às vezes usam de instrumentos reprováveis para alcançar objetivos corretos. O pior, é que escancara a escória existente nas câmaras, asembléias e congressos. Eles tão evoluidos, gostam de aplicar pena de morte; porque a escória continua em todos os continentes e ninguém faz nada! É um baita problema que nunca terá solução a não ser com o fim do mundo.

Zé Machado disse:
23 de fevereiro de 2013 às 07:48

Em outras palavras, Lincoln teve que corromper o congresso para levar o desenvolvimento para o Oeste também. O incrível disso tudo é que os melhores homens às vezes usam de instrumentos reprováveis para alcançar objetivos corretos. O pior, é que escancara a escória existente nas câmaras, asembléias e congressos. Eles tão evoluidos, gostam de aplicar pena de morte; porque a escória continua em todos os continentes e ninguém faz nada! É um baita problema que nunca terá solução a não ser com o fim do mundo.

Bia disse:
25 de fevereiro de 2013 às 12:12

Francamente, Dr. Batocchio, só posso admitir e entender suas palavras como uma demonstração de boa intenção de prévia RESPOSTA àqueles inomináveis congressistas brasileiros que se atreverem a também comparar as inquestionáveis boas intenções de Abraham Lincoln (infelizmente norte-americano, quisera que tivéssemos um único político brasileiro que o igualasse) com o incomensurável DESFALQUE nos cofres PÚBLICOS para fins absolutamente egoístas, AGORA COMPROVADAMENTE criminosos e insensiveis às necessidades da população brasileira!

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