Carlos Abrão: Momento de protestos no Brasil representa a primavera tropical

É tempo de nos indignarmos. É o momento de não nos calarmos, o barulho das ruas, o silêncio das autoridades e a perplexidade da sociedade nos colocam no rumo de alternativas sadias para sairmos da crise. A população, refém da criminalidade, a violência enfurecida e a explosão incontida dos delitos, passeatas, movimentos, reivindicações, teria chegado ao momento de uma primavera tropical.

É o recado que consta do movimento jovem que se insurge contra o aumento das tarifas de ônibus e se refere, com desprezo, ao escárnio do arrocho salarial. Estamos diante de um movimento pendular, cujas autoridades perseguem a tranquilidade dos seus cargos e a população, prejudicada, protesta com sentimento de combate, depredações e arruaças.

Qual seria o sentido fundamental para sairmos dessa anomalia latente e tentarmos encontrar uma rápida solução para o estado de crise? O Brasil perdeu a linha de concorrência com as demais nações, entrou na infantilidade do mascarado consumo e agora não consegue reagir com forças, visando combater as mazelas que nos afligem.

A balbúrdia de leis e o macrocenário do entorno nos convencem, cada vez mais, que se trata, parafraseando Alfredo Augusto Becker, de um manicômio judicial formatado por leis, milhões de decisões e a quantidade de processos. São mais de 90 milhões, cujo Superior Tribunal de Justiça, nos seus 25 anos, proferiu mais de 1 milhão de decisões.

Alguma coisa, e grave, está muito errada na nossa sociedade, e isso precisa ser mudado de forma eficiente, enérgica e com bastante capacidade. A falta de crescimento nos empaca, a realidade dos números da criação de empregos não retrata o perfil de contentamento da sociedade, além do que, sofremos os aspectos da inflação em alta, câmbio descontrolado e a Bolsa de Valores em queda livre.

Não há, ao que tudo indica, um plano B, mas sim meras hipóteses e abstrações, o que não muda absolutamente nada nosso sentimento de falta de otimismo a curto prazo. O choque de gestão envolve um curto circuito na forma como o governo vem conduzido sua política, no corte de gastos, no aumento da melhora da infraestrutura e no combate incansável à corrupção.

O modelo de transporte individual está superado, aquele coletivo não pode contar com tanto subsídio e as ferrovias devem sair, e logo, do papel. Atormentam tantos fatos que fazem parte de uma realidade ainda não compreendida e captada pelas autoridades, as quais preferem discutir o pleito de 2014 e não perceber que, para chegar lá, precisam de terreno seguro e boa visibilidade para alcançar reeleições.

O tempo é de renovar o sentido da governabilidade, de enxugar a Constituição com sua reforma e até de se pensar num STRF, Superior Tribunal Federal, dada a criação de mais quatro novos tribunais federais, que, por certo, trarão um volume insustentável para o STJ, que estaria limitado aos tribunais de Justiça do país. Novas ideias, grandes desafios e colocar o Brasil no rumo, tudo isso tem sentido se a governabilidade significar a autoridade para servir ao interesse público.

Carlos Henrique Abrão

é desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Vic Machado disse:
16 de junho de 2013 às 10:13

Infelizmente o destino desse movimento vai ser o mesmo da primavera árabe. Não dar em NADA. E la a insurgencia foi bem mais ampla Não ha revolta por grandes ideias e ideais que trespassam o tempo e realmente fazem valer a pena o sacrificio. Aumento de tarifa de ônibus...enquanto o país se dissolve nas mãos de uma corja esquerdista...brincadeira

Observador.. disse:
16 de junho de 2013 às 10:15

Parabéns pelo artigo.Foi uma brisa de esperança notar e ler seu artigo no Conjur.
Grande parte das autoridades, muitas delas no judiciário, esqueceram sua importante, nobre e vital missão:servir o povo e, dentro do universo de cada um, tornar o Brasil uma nação se não boa, razoável de se viver e conviver.
Com tanta violência, insegurança, desrespeito às regras e normas e com tal desprezo pelas aspirações populares, corre-se o risco de, em algum momento, nos depararmos com situações que colocam ( ou colocaram ), em alguns lugares do mundo, governos e instituições emparedados diante de uma população cansada, frustada e legitimamente enfurecida.
Que hajam mais pessoas como o senhor em todos os círculos jurídicos.

Observador.. disse:
16 de junho de 2013 às 10:20

Que HAJA mais pessoas...

Plinio Marcos Moreira da Rocha disse:
18 de junho de 2013 às 00:44

Prezados,
Apresento o documento “Meu Deus - Caras Sujas Que Pensam Ser Caras Pintadas”, http://pt.scribd.com/doc/148453372/Meu-Deus-Caras-Sujas-Que-Pensam-Ser-Caras-Pintadas , onde estamos reconhecendo minha total ignorância frente ao movimento dos "caras SUJA", que pretensamente, se equiparam aos "Caras Pintadas".
Abraços,
Plinio Marcos

J. Ribeiro disse:
20 de junho de 2013 às 13:13

O texto comete uma gafe, ou melhor, tem um desfecho incoerente e até reacionário, ao propor a criação de mais um elefante branco – pasmem: “reforma e até de se pensar num STRF, Superior Tribunal Federal, dada a criação de mais quatro novos tribunais federais”. Por favor, data venia, hipocrisia tem limite.
Apenas o estopim foi o movimento contra o aumento de tarifas/passagens de transportes públicos, por sinal de péssima qualidade.
O grande movimento, empós aquele, é de fato contra a precariedade dos serviços públicos, a insegurança, a impunidade geral, a corrupção que assola os três poderes, construção de verdadeiros elefantes brancos (obras faraônicas e improdutivas) frente a falta de boas escolas (educação como prioridade nacional) e hospitais, etc, etc.
Ainda tem gente que não compreende muito bem esses fatos, essa triste realidade brasileira, comprometida apenas com os seus, comprometida com pessoas e partidos políticos, escravos de ideologias totalitárias ultrapassadas.
Um determinado jogador da seleção espanhola, ao sair da zona sul do Rio, ficou pasmo com a miséria, a pobreza. A Espanha com toda a crise, não existe este cenário social macabro. Por sinal, nem mesmo na vizinha Argentina, que se encontra há muito tempo em grave crise social e econômica, apresenta tamanha mazela social.
Os projetos sociais deste país, sempre de ordem assistencialista, são conhecidos mundo afora como esmolas sociais (bolsas família, escola, etc, até reclusão), alimenta o parasitismo/assistencialista com a baixa estima de pessoas que poderiam ter seus empregos. As pessoas, mesmos as mais simples, não querem esmolas, desejam o desenvolvimento, o trabalho, boas escolas, saúde adequada, segurança e perspectivas de oportunidades para si e para os seus.

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