A sabedoria popular avisava sobre a impossibilidade de assobiar e chupar cana ao mesmo tempo. Isso porque nossos antepassados sabiam que era impossível realizar as duas atividades conjuntamente. Por certo a geração que está na graduação, na sua imensa maioria, sequer chupou cana (de açúcar, claro). Mesmo assim, o ditado trazia consigo uma sabedoria, a saber, não se consegue fazer bem duas coisas ao mesmo tempo.
Os neurocientistas conseguiram demonstrar que o cérebro somente consegue focar a atenção, especialmente a visual, em um objeto da percepção. Alison Gopnik aponta que para que tenhamos o foco da atenção são necessários estímulos fortes, provenientes do córtex pré-frontal, área cerebral que se desenvolve por último nos seres humanos e, pela qual, com sistemas neurais maduros, a atenção somente consegue abranger um foco estreito, ou seja, só conseguimos prestar, de fato, a atenção em uma coisa de cada vez. O filtro humano da atenção impede que tenhamos noções amplas. Segundo Stephen Macknik e Susana Martínez-Conde “a atenção resulta da ativação de neurônios inibidores, que, por sua vez, inibem os neurônios das regiões visuais e circundantes que possam causar distrações. Onde quer que você concentre a atenção, também estará eliminando os causadores potenciais de distração ao redor. Quanto mais você se concentra, maiores se tornam sua ativação central da atenção e sua eliminação do entorno.” [1]
Assim é que o mito de que se consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo se esvai. Se você, caro leitor, estiver na carona de um veículo, conversando com o condutor, quando chegar perto de uma curva perigosa, com movimento de carros de ambos os lados, a tendência é que você pare a conversa para que o condutor possa prestar mais atenção na direção. O mesmo acontece na vida e, no nosso caso, na sala de aula.
Tudo bem que as aulas no curso de Direito são enfadonhas, chatas, sem nenhuma graça, com professores tediosos, repetindo textos legislativos e doutrina de almanaque (O jurista Dr. Google não precisa mais de professores?). As aulas são toleradas, quando há cobrança de presença (lista de chamadas), mediante o uso do Facebook e do WhatsApp. Os recursos da internet ajudam a matar o tempo que simplesmente não passa.
Aliás, conforme sublinhei juntamente com Sylvio Lourenço da Silveira Filho[2], embora a noção de tempo pareça evidente, a maneira como compreendemos a coordenada temporal foi culturalmente aprendida[3]. Inexistia, no passado, a leitura pelo dispositivo tempo/espaço. E a reflexão mais aprofundada sobre a questão apresenta diversos paradoxos interessantes. Marramao[4] demonstra que a passagem do presente fixo, sem distinção entre passado, presente e futuro, deu-se pela adoção do tempo cronométrico, pelo qual a humanidade restou prisioneira do relógio, do calendário e da sucessão entre passado, presente e futuro, apontando, entretanto, que quando se diz: nesse instante, já é passado. Daí que a nossa relação de dupla face entre a experiência e a dimensão temporal é sempre complexa. Indaga-se, pois, sobre o sentimento do tempo. Entre a experiência do tempo e sua representação há sempre uma tensão irresolúvel. As coordenadas que pensamos não são naturais, mas sim ensinadas. Portando a evidência entre espaço-tempo como coordenadas dadas, na verdade, são artificiais. E o paradoxo é que podemos pensar o espaço sem tempo, mas não o contrário. Desta forma, o ponto de observação do fator tempo entra em cena e condiciona o sentimento temporal. Marramao propõe repensar o paradoxo do caráter inconcebível do tempo, para além das referências a representações espaciais.
Para o que interessa aqui, todavia, necessária a superação da visão platônica de uma verdade eterna, dualista, acolhendo-se o mundo das verdades contingentes. De qualquer forma a noção cronológica parte de um ponto arquimédico abstrato e eterno fora da experiência dos sujeitos de carne e osso[5], servindo de mecanismo coletivo, mas longe da experiência interna do tempo. As coordenadas fabricam sistemas de pensamento que servem racionalmente para dar sentido e diminuir a complexidade, embora não consigam expressar a dimensão pessoal do impacto do tempo. A partir da noção de perspectiva (espacial) e expectativa (temporal), vinculadas na representação racional moderna, as quais se encontram imbricadas, pode-se apontar as compreensões do tempo.
Marramao aponta, ainda, que o tempo como apreendido pelos modernos poderia se aproximar ao que os gregos chamavam de kairos, ou seja, tempo oportuno, tempo propício[6], o qual não é equivalente ao tempo cronológico. Virilio chama de Dromologia e Kosellecck de síndrome da pressa. Entretanto, desde Einstein e a teoria da relatividade, houve a distinção entre tempo psicológico e tempo físico. Enquanto o primeiro apresenta-se como experiência subjetiva, para a qual o impacto humano da sensação não pode ser apreendido de maneira universal, dadas as variações emocionais que implica, o segundo pode ser medido a partir de um observador externo, munido de critérios de fixação do tempo. Daí que Marramao propõe a compreensão do tempo em três planos: a) o sentimento do tempo interno; b) A síndrome temporal da pressa; c) o aspecto prático do que se pode fazer. O paradoxo entre o tempo privado e o tempo público ou o tempo individual e o tempo coletivo. Dito de outra forma: a sensação do tempo depende de diversos fatores pessoais e, por isso, não compartilhados, podendo-se apontar as variáveis da idade, de gênero, de profissão, ansiedade, estresse, rotina, atividade realizada, lugar de sua realização, em suma, cenário e contexto da experiência de tempo. Assim é que para o aluno o prolongamento da aula pode ser compreendido de maneira diversa do professor. Para alguns alunos a aula interessante passa rápido, enquanto para o desfocado, simplesmente, a aula não passa. O que está no Facebook ou Whatsapp nem viu que a aula acabou…
De qualquer forma, o que se pode dizer, com o auxílio dos neurocientistas e filósofos, confortados pela sabedoria popular, é que acreditar que se está prestando a atenção na aula do curso de Direito ao mesmo tempo em que se está no Facebook, WhatsApp e outros programas, é o mesmo que acreditar que se pode dirigir um automóvel e teclar no WhatsApp. Muitos responderão que fazem isso e nunca bateram. A questão é que agravam muito o risco de baterem, além de nem responderem, nem dirigirem direito. No fundo, no fundo, ainda não bateram. Baterão, mais dia menos dia. Na sala de aula é o mesmo. Acreditam — e a ilusão embala os sonhos — de que conseguem fazer duas coisas ao mesmo tempo. A questão é que se são seres humanos e dentro dos padrões, lamento informar, não conseguem. Iludem-se.
Proibir o Facebook e o WhatsApp não é o caminho para tornar as aulas mais interessantes. Mas participar de aulas que possam contribuir com algo assobiando e chupando cana é como assistir a um filme e teclar no Facebook. Muita coisa escapa. Pode-se estar de corpo presente em uma sala de aula enquanto se faz outra coisa. As duas juntas é quimera. O caminho talvez seja tornar as aulas mais interessantes, pois proibir o Facebook ou o WhatsApp, no fundo, seria comprovar a incapacidade pedagógica. Prestou a atenção ou estava zapeando em algum lugar… distante. Compartilha a coluna? Boas festas, já que não escrevo mais esse ano na Diário de Classe. Obrigado aos parceiros de espaço: André Karam Trindade, Rafael Tomaz de Oliveira e Lenio Streck.
O tempo é vivido de forma diferente por essa nova geração. Não temos como lutar contra o fato que as 'mídias' sociais provavelmente são mais 'estimulantes' que as aulas. Assim, considero que haverá uma mudança na gestão do tempo de aula e da relação dos alunos e professores no futuro. Escolas com nova didática já lidam com isso. A sátira não é capaz que suplantar o fato. O mundo mudou e a aula terá que mudar também. Como? Vamos descobrir.
Se os professores de Direito se preocupassem, também, com o método de ensino, além do conteúdo, é muito provável que essa "chatice" fosse mitigada. Existem disciplinas da área da educação que tratam especificamente da didática no ensino superior, mas, infelizmente, boa parte dos professores de direito não procuram estudá-las, atendo-se apenas ao conteúdo. Deveria ser obrigatório na grade curricular de qualquer curso de nível superior alguma disciplina como didática do ensino superior. Como dizem os profissionais da educação: "nós não podemos operar um paciente, nós não podemos defender uma causa no judiciário, mas médicos e advogados podem dar aula sem antes ter se formado para isso".
A meu ver o Facebook e o WhatsApp não são os culpados na história. O Brasil possui hoje mais faculdades de direito do que o restante do mundo todo junto. É uma multidão de pessoas em busca de um canudo para depois buscar aprovação em um concurso público para enriquecer praticando crimes diversos na estrutura estatal. De cada 100 estudante, há 2 ou 3 com vocação real para a área jurídica. Os demais 97 ou 98 odeiam o direito, odeiam o estudo, e não querem nem sabe de aulas, notadamente quando o professor é aplicado e ensina o direito "de verdade". Assim, se não houvesse o Facebook ou o WhatsApp eles usariam uma outra válvula de escape para figir do que não gostam. Infelizmente (ou felizmente), ainda não se inventou um meio de obrigar que quer não quer aprender aprenda, e enquanto for assim esse enorme contingente de pessoas sem vocação para a área jurídica sentadas em bancos de faculdades de direito estarão distante das aulas mesmo com a presença física.
Mas e os professores que, ao final do ano, por pressão de seus patrões , aprovam alunos que não sabem se chupam cana ou assobiam?
Não sou de concordar com o MAP, mas desta vez ele matou a questão!
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A culpa não é da tecnologia, mas sim da horda de desinteressados sem vocação que resolveu cursar Direito apenas por dinheiro e poder, sem nenhum interesse autêntico pela matéria.
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Não existisse Whatapp, certamente matariam o tempo de outra forma, trocando recadinhos em papel, desenhando no caderno ou simplesmente dormindo.
Com todo respeito, creio que o problema não se prenda com facebook ou whatsApp, nem com bom ou mau professor, matéria chata ou não, excesso de IE´s, etc. Julgo que o "buraco" seja um pouco mais profundo.
Diria que em primeiro está a educação de base (família), depois a educação e cobrança dos ensinamentos durante o ensino básico (escola primária e secundária).
Aqueles que esperamos que tenham um comportamento adulto no ensino superior, acabam por assemelharem-se a adolescentes: interrompem a aula com questões estúpidas, conversam uns com os outros, atiram recados pela sala, atendem telefone, vão ao banheiro, etc. Respeito nenhum com a figura do professor que está ali a se esforçar para transmitir o seu conhecimento. E o aluno que não alinha nisso, é o cromo da sala.
Mas não dirijo a minha fisga somente aos alunos. É muito mais fácil dar trabalhinhos e corrigir provas objetivas. Mesmo quando se opta pela avaliação subjetiva, são respostas com 5 linhas. Como se analisa o conhecimento de um aluno com perguntas de marcar X ou em meras 5 linhas?
Um curso de direito deveria exigir dos seus alunos primeiro - ler e interpretar aquilo que leu; segundo - escrever bem (com cabeça, corpo e membros); e, por último - saber defender verbalmente o conhecimento adquirido.
Olhem para Coimbra: não há chamada, não há conversas paralelas, não há perguntas estúpidas, não há interrupções imotivadas, há cerca de 80% de reprovação (quem não demonstra saber, nem com cola não passa).
Kromos, kairos, platonico, dual? O que é isso meus deus? Vou fragmentar esse estudo talvez eu consiga pegar alguma coisa; por enquanto fico com alguma coisa que entendi que atrapalha minha concentração, meu zap! Fui.
O problema é muito, muito mais embaixo.
Vivemos hoje em uma era de informação fácil, consultas rápidas e dados passageiros. "Por que," pergunta o estudante, "devo decorar isso se posso a qualquer momento consultar meu celular?" "Por que ouvir a opinião do professor, se tenho diversas doutrinas disponíveis instantaneamente em meu tablet?". Salvemos estas considerações para mais a frente.
Juntos, temos uma turma, uma horda saindo do ensino médio, acostumados a matérias mastigadas e professores que, se os alunos não passarem, serão punidos. Onde chamar o professor de exigênte é ofensa. Onde o aluno não ser aprovado é uma falha do professor, do sistema, até mesmo do governo, mas jamais do aluno.
Por último, temos em sua maioria adolecentes, já dispersíveis por natureza, conversando silenciosamente com os colegas de sala través de sistemas online, whatsapp, sms, quando não jogando Candy Crush. O computador ou tablet utilizado para anotações, entre um bloco de matéria ou outro (momento crucial, onde o professor faz seu papel de elucidar, exclarecer e sanar dúvidas) vira uma plataforma de jogos.
Por último, nessa quadrilogia de erros, temos o excessivo volume de vagas e facilidade de acesso aos cursos. Pessoas que não passaram no curso que desejava, vão estudar Direito (mais ou menos metade da minha turma).
O que temos, quando misturamos eles elementos, o despreparo, a informação sem conteúdo ou vinculação, a geração "multitarefa" e a dispersão natural, e sem mesmo precisarmos misturar sódio ou potássio, temos uma combinação explosiva.
O problema é muito mais embaixo. Está no ensino básico e médio. Na porta de entrada do curso. Com a matéria prima que chega aos cursos de direito, nenhum professor faz milagre.
Além da total falta de interesse, percebo que hoje em dia, como nunca antes, as pessoas estão mal educadas. Parece que ninguém liga para bons modos. Até entendo que a pessoa não tenha interesse, mas negligenciar a presença do professor em sala de aula, é uma grosseria tal que justificaria a expulsão do aluno de sala para que ele possa refletir sobre o que ele quer e o que ele ali, na sala de aula, estaria fazendo.
Não compactuo com essa leniência didática e pedagógica nem com relação a mal educados, nem com relação a desinteressados.
Além da total falta de interesse, percebo que hoje em dia, como nunca antes, as pessoas estão mal educadas. Parece que ninguém liga para bons modos. Até entendo que a pessoa não tenha interesse, mas negligenciar a presença do professor em sala de aula, é uma grosseria tal que justificaria a expulsão do aluno de sala para que ele possa refletir sobre o que ele quer e o que ele ali, na sala de aula, estaria fazendo.
Não compactuo com essa leniência didática e pedagógica nem com relação a mal educados, nem com relação a desinteressados.
Excelente abordagem Professor Alexandre, infelizmente é o que se vê em sala de aula. O ti ti ti destes alunos desinteressados incomodam aqueles alunos que realmente querem estudar, aprender. Existem professores que infelizmente tiveram que proibir o uso destes subterfúgios e a partir dai as aulas tornaram-se realmente interessantes, participativas e com melhor aprendizado.
è cultural, eu tenho esperança que nas melhores universidades os Professores, coordenação encontrarão um meio para coibir estes absurdos. Parabéns por mais esta excelente publicação.
Interessante a temática do artigo e a pertinência do assunto, haja vista a dificuldade no ensino do Direito em dias atuais. Além disso, algo que reparei nesse ano foi a repercussão do aplicativo em questão em palestras jurídicas; em absolutamente TODAS que fui, o palestrante fez alguma menção, por mais breve que tenha sido, ao WhatsApp. Sintoma ou doença?
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