Fiquei sabendo que no “campeonato mundial do raciocínio”, o Brasil ficou fora das oitavas de final, perdendo, ao que parece, para importantes nações como Honduras e Burkina Faso. Consta que ficamos no 38º lugar entre 44 países. Antes já sabíamos que parcela considerável dos universitários é analfabeta funcional. Penso que isso é assim porque vivemos tempos de estandardização. Tudo é prêt-à-porter (e prêt à penser e prêt-à-parler). O simbólico disso é o twitter. Hoje as pessoas não leem. Tuitam. Limitaram tudo a 140 caracteres. Tudo deve ser resumido. A TV “explica” o mundo colando o “relé”, ou seja, para explicar a enchente, o repórter fica com água pelo pescoço. Resultado: o que ficou resumido foi o cérebro da malta. Assim, forjou-se um novo “paradigma” (ironia minha): a nesciontologia, onde impera a “nesciedade”, que quer dizer estultice, mediocridade, etc (Cervantes fustigava os néscios). Nesse “paradigma neciontológico”, estuda-se o “ser do néscio”. E os fundamentos da nescio-cracia, cujo regime político deverá substituir a nossa frágil demo-cracia.
Pois se alguém achava que estávamos mal, acabaram-se os problemas: no ar, um novo produto — a facilitação na literatura. “Simplificações Tabajara”, a nova onda. Peguemos Shakespeare e o simplifiquemos. E vamos “orelhar” Machado de Assis. E assim por diante. A vida imita a arte. Ou a arte imita o direito? Os juristas chegaram antes. Mas foram alcançados pela gente da literatura. Bem feito. Só espero que isso não chegue na física e na química. Se chegar na medicina vou estocar comida … Na psicologia já chegou, porque já vi Gestalt em resumos.
Para quem ainda não sabe: Os jornais noticiam (ler aqui) que a escritora Patricia Secco encontrou um novo nicho para vender seu peixe, a exemplo do que ocorre nos cursinhos na área jurídica (e nas faculdades). Vejam a genialidade da moça: "Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis". E ela “explica”: "— Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso." Bingo! Hip, hip, hurra! Diz mais a matéria da Folha de S.Paulo: “—Ela simplifica mesmo: Patrícia lançará em junho uma versão de ‘O Alienista’, obra de Machado lançada em 1882, em que as frases estão mais diretas e palavras são trocadas por sinônimos mais comuns (um "sagacidade" virou "esperteza", por exemplo"). "A ideia não é mudar o que ele disse, só tornar mais fácil." Ah, bom. E o projeto dela não para por aí. Vem mais coisa por aí.
Estamos perdidos. “A equipe que ‘descomplica’ o texto é formada ‘por um monte de gente’, diz a autora, entre eles a própria e dois jornalistas amigos”. Aleluia. Achei que ela estava sozinha nessa nova empresa facilitadora. Vê-se, assim, que Patricia não receberá o Prêmio (Ig)Nobel sozinha. Estará acompanhada em Estocolmo! Já imagino a cerimônia da entrega: E por ter inventado a literatura facilitada-simplificada, o (Ig)Nobel vai para Pindorama! Quero estar lá para ver. Vou pedir passagens aéreas e estadia via Lei Rouanet. Aliás, como fez Patrícia para publicar 600 mil exemplares, segundo consta na imprensa. Tinha que ter dinheiro da Viúva nisso. Todos nós pagamos os pato. Viva a Viúva. O Brasil anda a passos de cágado.
Incrível como perdemos os fundamentos e os sentidos. É essa praga da pós-modernidade que-ninguém-sabe-o-que-é. Pulamos da modernidade e caímos em um vazio recheado de simplificações, twitters, sertanejos-universitários e universitários sertanejos. Jeca Tatu venceu. Viva nosso imaginário jeca!
Já aqui vai uma sugestão para a autora e seus amigos (com isso, o Nobel é certo!). A peça Julio Cesar, de Shakespeare, pode ter substituída, já no início, por frases curtinhas e bem explicativas. Por exemplo, eis o texto original:
“De uma feita, numa tarde enublada e tempestuosa, em que o Tibre agitado se batia dentro das próprias margens, perguntou-me César: “Cássio, ousarias atirar-te, junto comigo, na corrente infensa e nadar até ali?” Mal acabara de falar-me, vestido como estava, joguei-me na água e a me seguir chamei-o, o que ele fez de fato. A correnteza roncava; nós lutávamos contra ela com membros indefesos, apartando-a e à sua fúria opondo o ousado peito. Mas antes de alcançarmos nossa meta, César gritou: “Socorro, Cássio! Afogo-me!” Então, tal como Enéias, nosso grande progenitor, que carregam aos ombros o velho Anquises e o salvara às chamas que Tróia devastavam: da corrente do Tibre, assim, tirei o exausto César. Num deus, agora, está mudado esse homem, sendo Cássio uma mísera criatura que precisa curvar-se, quando César com enfado lhe faz um gesto vago. Na Espanha apanhou febre; e, quando o acesso lhe vinha, notei bem como tremia. Sim, esse deus tremia; seus covardes lábios ficaram pálidos, e os mesmos olhos que ao mundo todo inspiram medo o brilho a perder vieram. Muitas vezes o ouvi gemer. Sim, essa mesma língua que os romanos deixava estupefactos, levando-os a guardar os seus discursos, ah! gritava tal qual donzela doente: “Água, Titínio! Dá-me um pouco de água!” Muito me espanta, ó deuses! ver que um homem de uma constituição assim tão fraca tenha passado à frente neste mundo majestoso e, sozinho, obtido a palma”.
Lindo, não? Mas muito complicado. Solução tabajara: uma nova versão de Júlio Cesar simplificado, na qual poderíamos ler: Cassio era um intrigueiro (=fuxiqueiro). Odiava Cesar. Para mostrar como Cesar era um sujeito bundão, contou para Brutus que Cesar não sabia nadar e um dia quase morreu de sede. Resumindo a fala de Cassio: Cesar se achava um Deus, mas era um incompetente e medroso. Nem nadar sabia. Ah: o Enéias do texto não é o “meu nome é Eneas”. Final: Brutus acreditou nisso e acabou com Cesar.
Eis a sugestão (grátis) que dou para o volume sobre Shakespeare! Abaixo, a capa do livro e a contracapa:
Divulgação
![Coluna Lênio [Divulgação]](https://cdn-conjur.s3.amazonaws.com/uploads/2014/05/coluna-lenio.jpeg)
Ah: outra dica — O maior romance semiológico de Eco, O Nome da Rosa, pode ser facilitado, transformando o personagem (ockeano) Guilherme de Baskerville em Sherlock Holmes e o Adso de Melk em “meu caro Watson”. Pronto. Para que ficar discutindo nominalismo, poder, segredo, medievo, secularização etc, se podemos resumir tudo a um romancezinho policial? Bingo de novo! E uma versão simplificada de A Revolução dos Bichos (bichinhos que aprendem a falar) poderia facilmente se tornar roteiro de um filme da Disney. A Metamorfose de Kafka seria um livro sobre uma pessoa que vira uma barata. Ponto final. Ainda: A Megera Domada pode ser uma versão “simplificada” de 50 Tons de Cinza. E eu vou para o meu Bunker Facilitado. Lerei de novo Der Mann ohne Eigenschaften (O Homem Sem Atributos), de Robert Musil (o maior romance do século XX), antes que essa gente faça uma facilitação dizendo que o personagem Ulrich era um desclassificado (porque não tinha qualidades… se me entendem a ironia ou o sarcasmo)… Afinal, quem troca “sagacidade” por “esperteza” porque acha que a choldra não saberá o sentido, por certo achará que “sem qualidades” quererá dizer “incompetente”!!! Bingoooo!
É que tal Bobók, considerado por muitos uma das mais importantes menipeias de toda a literatura universal. Seria fácil “simplifica-lo”, pois não? Para que afinal perder tempo com temas que, incluídos no conto, retratam boa parte da complexa obra de Dostoiévski, se é possível dizer que o livro diz respeito apenas às excentricidades de um bando de almas penadas que, num cemitério, decidem narrar desavergonhadamente suas perversões praticadas em vida… Almas penadas safadinhas e desbocadas.
E Bentinho, coitado … Logo os simplificadores de Dom Casmurro estarão rotulando o pobre rapaz de cornudo, sem pestanejar! E colocarão no twitter: # Perdeu, Bentinho corno!
Pronto. Por que ler o original se podemos ler um “facilitado” com sinônimos? A Sinfonia Inacabada de Schubert por certo merecerá um lançamento por parte do grupo dos (neo)facilitadores. E ainda dirão que esse Schubert — por certo, um preguiçoso — poderia ter acabado a sinfonia com trinta minutos menos, além do relevante fato de que poderia ter poupado divisas para o Imperador, dispensando um tocador do Oboé, três violinistas, etc.
O Brasil é terrível. Há tempos atrás, o programa Fantástico da Globo quis ensinar filosofia nos domingos à noite. Queria, é claro, facilitar. Genial, não? No primeiro programa a repórter-filósofa entrou em uma caverna em Tubarão (SC), e de lá buscou explicar…o Mito da Caverna. Entenderam? Caverna-que-é-igual-a-uma…caverna! Bingo. O Nobel e o Ignobel são nossos. Na sequência, para explicar Heráclito, ela subiu em um caminhão, para falar do… movimento. Céus. O que mais inventarão?
Tudo para facilitar a vida dos néscios. Dos néscios, pelos néscios e para os néscios (DOPELOPÁ). A nesciocracia venceu. Até na literatura. Estamos liquidados. Há um livro que pode nos ajudar a entender isso e que li nesses feriados: Psiche e techne – O homem na idade da técnica, de Umberto Galimberto, um “pacote” de 917 páginas (não havia uma versão facilitada e tive que pegar o original). Lendo-o, vislumbra-se a era da técnica, da alienação, do Google, da cultura de massa (que, no caso, não é um carboidrato!). Mais: como jurista, dá para ver a técnica dominando o homem do direito. Ele já não maneja a técnica; é ela que o maneja. O processo eletrônico é um bom exemplo disso. O jurista virou “suco”, exprimido entre techne e psique.
Heidegger alertava: O que inquieta, de fato, não é que o mundo se transforme num completo domínio da técnica. Muito mais preocupante é que o homem não está preparado para essa radical mudança do mundo.
Trata-se da soma da era da técnica com a cultura de massa, em que ocorre a desarticulação entre público e privado, entre social e individual, operada pela racionalidade técnica, que modifica também o conceito tradicional de massa, introduzindo uma variante que é a sua atomização e desarticulação em singularidades individuais, que, modeladas por produtos de massa, consumos de massa, informações de massa, tornam obsoleto o conceito de massa como concentração de muitos e atual o conceito de massificação como qualidade de milhões de indivíduos, cada um dos quais produz, consome e recebe as mesmas coisas de todos, mas de modo solitário (Galimberti).
No direito, eis o caldo de cultura onde pode ser encontrado o atual homo juridicus, o homo concurseirus, homo senso comunis, enfim, essa nova espécie de jurista FaSimpleResum (o jurista que quer facilidades, simplificações e resumos — estou resumindo para facilitar!!!). Para ele, o Direito é uma mera técnica. Uma mera racionalidade formal-instrumental, como se fosse uma ferramenta comum, uma enxada ou um machado. Às vezes até uma régua (“princípio” da proporcionalidade?”). Por isso, o direito sempre pode ser manipulado de qualquer modo. Não exige grandes elucubrações. O processo vira também instrumento. E a interpretação se faz via retórica, em que essa se autonomiza.
Numa palavra final.
Parafraseando Nietzsche, no Nascimento da Tragédia, digo: como se poderá constranger esse senso comum e essa fragmentação a abandonarem os seus segredos, a não ser se opondo vitoriosamente a ele? Mas como fazer isso?
Parece que ficamos em um meio fio: entre a ruptura e a alienação (acomodação). Opor-se vitoriosamente é sempre uma tarefa perigosa. Entregar-se ao conforto e à simplificação é sempre sedutor. A palavra alienação vem do latim alienus, que quer dizer “o outro”. Por isso o inferno sempre é o outro ou sempre são os outros. É possível derrotar tabus? Quais os totens a serem derrubados?
Mas para isso há que se tomar consciência do problema. E estar atento aos efeitos que a história tem sobre nós. Como diz o autor de Techne e Psiche, a memória desvela aquela abertura para o sentido da qual está excluído o animal, que, sem memória, não tem consciência de si nem do mundo que o circunda.
O homo simplificatus, alienado de sua condição, não-sabe-que-não-sabe. Não se dá conta que-pode-se-dar-conta. Mergulhado no senso comum, fica refém de um mundo pré-dado. E que, por ser pré-dado, é-lhe predador!
Outro livro que li nos feriados foi O livro dos Prazeres Proibidos, de Frederico Andahazy. É um romanceamento picante sobre a história da “invenção” do livro. Guttenberg é o personagem, é claro. Trabalhando com seu pai, que cunhava moedas para o Rei, vê com admiração os calígrafos reproduzindo a bíblia e outros textos. Diz, então, Guttenberg:
-“Estes homens devem ser verdadeiros sábios. Afinal, tanto copiam e com tal perfeição…”.
“-Talvez” – disse-lhe seu pai, esboçando um sorriso, e complementou: “- Se soubessem ler. Os melhores copistas são aqueles que não sabem ler”.
De fato: os melhores copistas são aqueles que não sabem ler! Bingo outra vez!
Post scriptum 1: para quem acha que isso que acabei de escrever não é necessário, vai uma frase de outro filósofo que curto (quem m’o apresentou foi o filósofo Alfredo Culleton), sobre a diferença entre sábios e néscios. Chama-se Avicena. Ele dizia:
Um sábio sabe a diferença entre as coisas necessárias e as desnecessárias. O néscio não sabe disso. Solução: bata-se nele (no néscio) com um chicote até que ele grite: “basta, basta: isso não é necessário”. Pronto. Agora ele aprendeu a diferença entre o necessário e não necessário.
Saludos para todos os que sabem a diferença entre o que é necessário e o que não é necessário! Sem necessitarmos colocar sinônimos… E sem substituir sagacidade por esperteza. Caso contrário, Chapolin Colorado dirá: não contavam com minha sagacidade…!
Post scriptum 2: Estou me aliando ao movimento “Ministério da Cultura do Brasil: Impeça a alteração das palavras originais nas obras da língua portuguesa”.
Vou aproveitar para iniciar um movimento similar no direito, que seria mais ou menos assim:
Comunidade Jurídica de terrae brasilis: impeça que o direito continue a ser “facilitado”, “simplificado”, “mastigado” e “resumidinho”.
* Texto alterado às 9h39 para inclusão de imagem.
Como nos ensina M.Adler, ler um livro está longe de ser uma atividade passiva, porque é necessário diálogar com o autor da obra. Entrar em concordância. Só que há um passo anterior que precisa ser realizado primeiro para viabilizar tal concordância.Está no "compreender" o que está sendo lido para depois (con) ou (dis) "cordar". Digamos que: para (a)cordar é necessário antes compreender.
Com - preender - é a atitude de "em - preende"r pelo ato da "com - preensão". Essencialmente a realidade humana se constitui num processo de atualização entre inteligência e realidade.
Toda intelecção inicia-se irrefragavelmente, mesmo que de modo oblíquo, em e por apreensão primordial. Esta apreensão primordial constitui-se, intrínseca e formalmente, pela impressão (de dados) da realidade na inteligência (dados ou notas). "Sentir é inteligir, inteligir é sentir". Talvez o maior erro descritivo cometido tanto na filosofia antiga como moderna está em dissociar sentir e inteligir. Se alguém quer compreender o pensamento atual precisa enfrentar o grave problema: A entificação da realidade e a logificação da inteligência. No caso da escritora, devemos lembrar do que incoa desde o Livro 9 - de Etica a Nicomano. Aristoteles ensina como se faz uma imitação (emulação). Machado era bom em emular obras dos outros. Não é algo errado, mas necessário e útil. Se um livro não é compreendido dentro de uma realidade histórica e social, ele falece. Na história do mundo, de certo modo, Tomás de Aquino fez algo parecido com Aristóteles. Atualizar uma obra ou emulá-la - alterando o contexto e vocabulário é atividade antiga, mas não deixa de ser escandaloso ver "Machado de Assis - em linguagem simplifica". Mas o problema é menor do que se pensa, reside só numa péssima falsificação.
Ministério da Cultura do Brasil: Impeça a alteração das palavras originais nas obras da língua portuguesa po/petition/Ministerio_da_Cultura_do_Bra sil_Impecam_a_alteracao_das_palavras_ori ginais_nas_obras_da_lingua_portuguesa/?d kCYMdb
https://secure.avaaz.org/
O ar de superioridade com que a matéria é escrita, apenas é suplantada pela própria superioridade do autor.
Talvez na década de 80, 70, de difícil acesso a informação, não havia internet, digitalização, não havia uniformidade, e muito devaneio e desinformação, enfim, talvez nessa época fosse mais bonito e lúdico? A opção a esse fenômeno de facilitação e uniformidade do conhecimento seria a aplicação de métodos de análise subjetiva nos processos seletivos? Sério mesmo? No Brasil? Essa é a solução? Com tantos figurões do alto escalão procurando métodos para embarcar sua prole, sério mesmo? Acho que é bom também sair um pouco do mundo acadêmico das idéias e dar um "bizu" na realidade dos fatos brasileira. Existe uma fundação muito conhecida no Brasil que aboliu o vestibular, eu não ficaria impressionado se constatassem que boa parte dos aprovados são filhos de figurões que não foram aprovados nas federais.
Em uma coluna sim e na outra também, Streck malha" a tribo dos simplificadores-descomplicadores- esquematizadores do direito. Descontados a afetação retórica e o excesso de clichês, Streck presta um serviço à cultura jurídica. Mas só denunciar cansa até mesmo, suponho, os leitores e os devotos discípulos de Streck. (E não são poucos os devotos, como se lê no campo de comentários às suas colunas.) O professor/procurador faz bem em denunciar a "miserabilização" do conhecimento jurídico.
Mas... e daí? A que se deve o sucesso da simplificação, descomplicação, esquematização (e agora a "compactização") do direito? São pessoas estúpidas, intelectualmente fracas? Não! Muitos membros da tribo são doutores em Direito por Programas de Doutorado bem avaliados pela CAPES/MEC. E aqui é oportuno lembrar uma velha "lei" da economia: a demanda faz a oferta. Se há determinados livros, apostilas etc. no mercado, é porque há compradores. E por que há compradores? Porque o sonho de 9 entre 10 estudantes em Direito é ser juiz, promotor de justiça, procurador federal, advogado/procurador da AGU etc. Quem não sonha receber, antes dos 30 anos, remuneração que pode chegar, em início de carreira, a R$ 20.000,00? Quem não sonha em ter 60 dias de férias por ano? Viajar para lugares interessantes? (Façam uma experiência: acompanhem no facebook as aventuras turísticas de alguns membros de carreiras de Estado!) Isso é ilegítimo? Não! Apenas isto: é preciso ser aprovado em um concurso público. E todos sabemos o que os concursos públicos "testam". Em suma, há um mercado de compradores/vendedores de um certo bem. Mercado, lucro e sonhos não são ilícitos. O enfrentamento, pois, é em outro nível! Não basta estigmatizar a tribo e os concurseiros. Eles apenas jogam o jogo.
E eu considero pleonasmo porque a sua pena, professor, já denota um brilhantismo redacional incrível. Assim, linhas traçadas pela sua pena já demonstram capacidade crítica, literária, cultural e jurídica ímpares.
Sou, antes de advogado, professor de Língua Portuguesa e Literaturas por formação e confesso que, ao voltar à Academia, não conseguia me adaptar às doutrinas esquematizadas e/ou resumidas. A consequência natural era a rechaça que eu acabava sofrendo dos colegas mais jovens (visto que iniciei o curso de Direito com 31 anos).
Com meus alunos, não abro mão da leitura dos clássicos. São eles que nos apresentam as melhores lições. E trouxe isso para o Direito. Nunca compreendi os "esqueminhas" da prescrição, por exemplo. Quando a estudei, preferi ler o artigo do Prof. Agnelo Amorim Filho (Critério Científico para distiguir Prescrição e Decadência), fazer os apontamentos necessários e pronto. A explicação (a retirada das plissas, etimologicamente) do instituto lá estava. Não esgotei o assunto, por óbvio, mas não me utilizei de algo dito resumido/esquematizado/descomplicado para compreender. Apenas pratiquei o que a neurociência sugere: criei novas sinapses. E nem doeu. Obrigado, Professor. É sempre um gosto ler seus artigos.
Sempre veio de cima.Em qualquer sociedade.Depois de um Presidente que disse abominar ler e de um partido onde a maioria das pessoas se orgulha de ter vencido usando a intuição, não o saber, o que poderíamos esperar da nação?
O esforço agora é focado.Em concursos, em vencer eleição, em atingir esta ou aquela meta.Depois podemos descansar em berço esplêndido.Afinal, estamos em um país onde monitor de zoológico se torna empresário bilionário e todos acham surpreendente (e normal) a genialidade tardia do rapaz.
Estamos passando a mensagem de que se aprimorar é para trouxas; nosso Ministério da Educação ensina que falar errado é certo, é uma manifestação cultural de determinadas classes sociais e tudo está bem.Ninguém se choca.Vamos deixando passar qualquer idéia ridícula.
Depois fingimos nos surpreender com a bestialização do povo, a barbárie que toma conta das camadas populares e o nível elevado de crimes que temos.Um descaso e um egoísmo nas relações que são estimulados pela impunidade, fruto da estupidez e da falta de humildade que tem tomado conta de tudo.Dizemos que temos um sistema judiciário muito bom, leis ótimas e vemos (procurem no YOUTUBE) a polícia dizendo que enxuga gelo pois prende e logo as pessoas estão soltas.Mas achamos normal.É "inveja" alguns dizem.Dos policiais que teriam passado em concurso "mais fácil" do que juízes e promotores.Temos um Estatuto da Criança e do Adolescente que fez com que explodissem os crimes nesta faixa etária mas continuamos insistindo que é assim mesmo.Melhor lei do mundo(e ninguém copia)etc, etc.
Se nada fizermos para mudar, nada acontecerá.Simples.
Dizem que uma grande evidência de insanidade(segundo Einstein) está em fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes.Não somos assim como nação?
Nesta semana devo discordar em parte das colocações do prof. Lenio. Essa de não querer raciocinar faz parte da cultura nacional desde há muitas décadas, e já estava aqui muito antes do surgimento da internet, do twitter e da imprensa televisiva. Assim, não foi o twitter e companhia quem forjou uma população avesa ao raciocínio abstrato. Cursinhos, resumidores, imprensa com água até o pescoço surgiram porque encontraram um amplo mercado entre a massa da população brasileira.
Pela primeira vez concordo integralmente com você!
Dia desses um fanqueiro (que agora é trilha sonora da Globo) foi entrevistado pelo Mário Sérgio Conti. Disse que seu exemplo é mostrar ao povo da periferia (salvo exceções, sem perspectivas e com destino certo) que havia outro caminho para se obter sucesso (entenda-se: bens materiais) sem que, para isso, fosse necessário partir para o crime. Ótimo! Positivo! "Fechei com ele!".
Mas perguntado sobre se ele, fanqueiro, havia cursado uma faculdade, eis que responde:
"- Graças a deus não precisei disso."
Quem é mais perspicaz?
Um idiota que passa cinco anos se deslocando de um lado para o outro para obter um diploma (e quando formado, encher de gente ao lado querendo tirar dúvida sem coçar o bolso) ou o fanqueiro que "Ostenta 25 de Março", mas em pouco tempo sentará sobre a "bufunfa" só cuspindo besteira no microfone?
O tom sarcástico não possibilita saber se o autor propõe a sério a proibição de simplificar obras. Se não, ótimo. Como crítica à onda de simplificações como panacéia, o texto contribui e faz-nos rir. Se sim, ou se algum leitor assim acha, acho bom repensar seus conceitos. Para instigar, cito um exemplo, de família. Certa vez recontei, ou melhor, adaptei oralmente, para meus filhos, que tinham entre 5 e 10 anos, a história de "A hora e a vez de Augusto Matraga" (Guimarães Rosa). Os garotos curtiram tudo, especialmente, "Seu" Joãozinho Bem-Bem. Teria eu procedido mal?
Divergência é sempre bem-vinda quando se procura acrescentar outros pontos de vista visando uma reflexão.Na divergência se aprende muito.
Agradeço a consideração sobre meu comentário e aproveito para fazer notar, a quem frequenta este sítio, que algo está MUITO errado com este país.Se esconder debaixo da cama ou banca a "Alice no reino encantado do Judiciário" nada contribuirá para melhorar o caos que, sutilmente, vem tomando conta da nossa sociedade.
Li hoje sobre invasões em propriedades privadas de empresas (em prédios de escritório)depredações de ônibus no RJ e Floripa e outros distúrbios (claramente orquestrados) que tem acontecido de forma regular no país.
Ou os senhores do Judiciário começam a perceber que podem contribuir para piora, ou melhora, do que tem ocorrido e está ocorrendo ou só estocando comida e rezando poderemos - talvez - ficar distante do caos que se avizinha.
Alguém, por favor, interdite esta pessoa!!!! Vão colocar abaixo o legado eterno de Machado de Assis! E ainda querem continuar chamando "Machado de Assis". É um assassinato!
Já desisti. Vivo um dia após o outro. procuro apenas criar meus filhos em um ambiente melhor, ao menos em casa, pois fora dela, já joguei a toalha. Há anos que venho dizendo que somos um caso perdido, como sociedade e como nação. Talvez um dia, ainda muito distante, as coisas melhorem. Não viverei para tanto. Mas, antes desse dia chegar, as coisas ainda vão piorar... e muito. Deus tenha piedade de nós.
Já desisti. Vivo um dia após o outro. procuro apenas criar meus filhos em um ambiente melhor, ao menos em casa, pois fora dela, já joguei a toalha. Há anos que venho dizendo que somos um caso perdido, como sociedade e como nação. Talvez um dia, ainda muito distante, as coisas melhorem. Não viverei para tanto. Mas, antes desse dia chegar, as coisas ainda vão piorar... e muito. Deus tenha piedade de nós.
De repente surge a imagem de Escobar. Ele diz: Aê Capitu, danaaada. Que abundância! Ôô Bentinho, volta pro seminário. Sabe de nada inocente!
Chegará o momento que haverá "operação cardíaca simplificada"...
Faço meu comentário não como uma afirmação, mas, sim, partindo de observações, baseadas em crianças com as quais convivo. Penso que grande parte dessa cognição descartável que tem sido praticada se deve à ausência de uma educação mais humanizadora. O brasileiro, assim como ocorre em tantos outros países sub-desenvolvidos ou em desenvolvimento, é educado para competir, pra enfrentar o mercado. O brasileiro é treinado para ser uma máquina de moer a concorrência. O aluno brasileiro é ensinado a conquistar sua vaga no mercado de trabalho. Mas, isso não é importante? Sim, claro que é. Uma das vantagens da mentalidade competitiva é desenvolver a autodisciplina. Contudo, veja-se, por exemplo, noutro giro, a educação praticada nas escolas que adotam a Pedagogia Waldorf, desenvolvida pelo antroposofista austríaco Rudolf Steiner, no início dos anos 1900. Tal metodologia objetiva, em primeiro lugar, desenvolver as aptidões físicas, artísticas (música, literatura, pintura) e espirituais do aluno. Estimula-se a criança a sentir o mundo à sua volta, interagir com as outras crianças, formar e estreitar laços humanos. Na metodologia Waldorf, o pensamento abstrato, isto é, o conhecimento estritamente técnico/científico é relegado a segundo ou terceiro plano. A educação praticada com o uso dessa metodologia é considerada humanizadora. Mas, a escola "comum" também ensina essas coisas! Sim, mas não com a prioridade e intensidade do método Waldorf, por exemplo. Argumenta-se que o discurso acadêmico está "enchendo o saco". Mas é justamente pelo discurso acadêmico estar "enchendo o saco" que temos o cenário vigente. Se antes fosse desenvolvida nas crianças e adolescentes o amor pelo aprendizado, pela observação do mundo e sua compreensão, acho que o panorama seria outro.
Não vejo problema nenhum. A expressão e a produção literária e artística são livres no país, de acordo com nossa Constituição.
A autora escreva o que quiser.
E quem quiser, compre.
[Acho de péssimo tom querer "simplificar" obras clássicas de nossa literatura, mas não há espaço para a "proibição" de se fazê-lo e nem se justifica a histeria a respeito.
No curso de Direito via muitos colegas preparando-se para as provas lendo apenas apontamentos e resumos.
A preocupação com o aprendizado era superada com o desejo de boas notas.
Por outro lado, certos professores adoravam facilitar a correção das provas com questões de múltipla escolha.
Muitos colegas se formaram sem adquirir livros.
Concordo plenamente com o comentário de "Prætor (Outros)".
O Prætor (Outros)"não vê problema algum". Estamos perdidos. Se ela quer escrever uma obra literária simplificada que assine ela própria e deixe em paz Machado de Assis. Se Machado é Machado é porque não escreveu "obras literárias simplificadas". Aliás, como é possível alterar as palavras de uma obra literária? É como alterar as pinceladas de um quadro! Isso não existe! Não se pode simplificar uma obra literária, simplesmente porque ele perde completamente sua essência, deixa de ser o que é. A importância de Machado ser lido (inclusive pelos jovens) é unicamente por ele ser "Machado" (e suas obras terem sido escritas da forma como escreveu). Se você muda as palavras, muda o sentido, e ele deixa de ser Machado - e, portanto, perde a razão de fazer com que os demais o leiam. O que quero dizer: a proposta desta (dita) "escritora" é contraditória em si própria (não sobrevive a ela mesma!). É uma contradição em si! Repito: isso o que ela está fazendo não merece levar o nome de qualquer obra de Machado ou o nome de Machado - é uma descaracterização completa, um assassinato da obra.
Qual o modelo proposto? Os editais hoje em dia copiam e colam o sumario dos livros . Pouco importa a relaçao prova x funçao do cargo.
Ja esta na hora do autor parar com esta cantilena. Interromper a ladainha semanal. Nao tem nada de incomum neste repertorio.
Há também a modalidade do prêt-à-commenter. Esse comentário vem somar-se a outros da modalidade...
No fim aguça-me mais a curiosidade de ler Fahrenheit 451 de Ray Bradbury.
Parece que estamos caminhando, na realidade, para o cenário de ficção posto no livro, e dizem amortecido até no filme de François Trufaut.
Pragmaticamente vendo a questão, vale o jargão que ouvia nas aulas de direito tributário. "Existe uma vida muito melhor, só que custa muito mais caro!".
Honesto um dos autores de direito esquematizado, como membro do ministério público em tribunal de contas tem total autonomia e independência, pode pensar o que quiser, manifestar em seus pareceres a posição que considerar a mais adequada, ao passo que como autor de livros tendo como alvo os concursos públicos o compromisso dele não é com a própria doutrina, e sim com a eficácia. O compromisso não é informar o que ele, enquanto autor, pensa, mas informar o que as bancas pensam. Depois de aprovar em concurso, ascendendo ao cargo, investido de prerrogativas, o candidato, já autoridade, poderá usufruir das prerrogativas alcançadas após a aprovação em concurso público...
A questão que poderia ser posta é se após tanto tempo e tanta reverências ao sistema atual o que restaria ao fim, após a aprovação? O que pode ser contraposto com "inveja besta dos não aprovados".
Um ponto a ser destacado. Com todo máximo respeito. O Professor Lenio Streck já é Procurador de Justiça do MPRS, não importando que tenha sido aprovado em outro tempo, em outro modelo de concurso público. Os aprovados em outro modelo de concurso público e que hoje estão no topo podem estar sendo visto como jurássicos esperando pela "compulsória" para fila poder andar e ideias novas arejarem as carreiras com a ascensão dos novos... O sistema tende a se tornar mais autopoiético, fechado e autopoiético.
Devemos lembrar que certos comportamentos e condutas humanas estão interligados. Não existe um sem o outro. Não dá para apenas termos "partes" das coisas. É como um sistema elétrico que uma pane em parte deste pode queimá-lo ou fazê-lo operar com outra configuração.
Não dá para depois reclamar que o país é assim ou assado se nos tornamos esta sociedade permissiva e simplificadora que só discute direitos e esquece que sem deveres não há como construir uma nação civilizada e prospera.
Acredito que certos autores deveriam ter o "Direito" de não serem reescritos . Acho que o professor Lenio tem o dever de apontar (mesmo de uma forma que soe pedante) ao que anda ocorrendo à nossa volta. Este estilo "compreensivo" demais (está mais para permissivo) está inviabilizando o desenvolvimento de uma nação tão rica em recursos como o Brasil. Há vários indícios de que algo errado ocorre. Deixo um abaixo:
"Brasília – O Brasil ficou em penúltimo lugar em um ranking global de educação que comparou 40 países levando em conta notas de testes e qualidade de professores, dentre outros fatores. A pesquisa foi encomendada à consultoria britânica Economist Intelligence Unit (EIU) pela Pearson, empresa que fabrica sistemas de aprendizado e vende seus produtos a vários países."
A obra de Machado de Assis caiu no domínio público e a autora age no âmbito da licitude. A obra de "releitura" de Machado de Assis, digamos assim, é dela: não consta que está a tentar ludibriar quem quer que seja do contrário.
Em países de maior tradição democrática, cono nos Estados Unidos, esta discussão seria vista como ridícula: imagine alguém tentar tolher as mais variadas releituras, adaptações e reinvenções da obra de Shakespeare, que lá fazem a torto e a direito.
Lênio Streck está sem assunto há tempos...
Streck é um produtivo escritor. Inúmeros artigos e capítulos de livros produzidos todos os anos. Escreve uma coluna semanal no Conjur, às vezes duas. São dezenas de palestras anuais. Seria muito importante para o ensino jurídico, se Streck reservasse uma parte dessa energia criativa/produtiva para apontar propostas específicas e factíveis para superarmos os graves problemas enfrentados em salas de aula nos cursos de direito de todo país, sobretudo nas instituições privadas de ensino. Streck está na estrada há mais de três décadas. Têm experiência. Conhece o que acontece nas salas de aula, porque rege aulas todas as semanas na graduação, avalia trabalhos de graduandos, aplica provas a graduandos. Streck convive toda a semana com as carências, limitações e insuficiências formativas de muitos dos nossos alunos de graduação. Com sua experiência e formação intelectual, Streck tem plenas condições de contribuir com propostas concretas e inteligentes para enfrentarmos com alguma chance de sucesso a crise do ensino jurídico. Não basta dizer o que não fazer. Isso nós já sabemos. É preciso dizer o que ele acha que devemos fazer. Depois da descontrução deve vir a construção.
Faz-me rir Prætor (Outros). Talvez por isso sejas um comentador tão assíduo.
Sempre gostei de avaliar as coisas com base na bíblia, pois acredito que ainda é insuperável em todos os aspectos. Ora, se o professor Lênio escreve todas as semanas para a Conjur e tal de Praetor sempre o julga denegrindo-o e discordando de tudo, então resta uma pergunta: será que ele erra em tudo? Que nada! Tudo não passa de perseguição barata sem fundamento ou cunho científico. Está certo o professor Lênio quando insiste no tema da simplificação. Fala, fala, fala. “Ninguém” escuta. Certo? A repetição é sintoma de que o mal não foi curado. Mas o curso do balão mágico, a história da ladra Jane e do ativismo do Barroso, mandam lembranças. Resumir e simplificar livros é um erro legítimo. Tem que ser falado sobre isso sim. E muito. A simplificação dos livros é sintoma da banalização dos dons. É claro, se o povo não sabe ler vão buscar algo que os livrem da leitura. É isso. Por isso e por outras coisas é que o texto está correto, coerente, atual e deve ser sempre repetido. Assunto atual? Sim, e muito. Quanto a bíblia, resta lembrar: Não me aborreço de escrever-vos as mesmas coisas, e é segurança para vós. Filipenses 3:1
Concordo plenamente com o articulista. Quero também esclarecer que DOMÍNIO PÚBLICO diz respeito implica tão só a liberdade de publicação e uso, e não à modificação do texto da obra: nesse aspecto, por exemplo, não se pode atribuir a outrem a obra de alguém: esse direito é inalienável e imprescritível (melhor, não decadencial). Quem quiser pode escrever uma versão da obra de qualquer escritor:tratar-se-á, aí, de uma outra obra intelectual (aliás, há um livro em que cinco ou seis escritores de renome 'reescrevem' o conto do nosso Machado 'A missa do Galo', e é uma excelente obra. Agora, apropriar-se para reescrever a obra do mestre trocando as palavras por ele usadas é uma violação à natureza da obra, já que, retirar-se o estilo da escrita de um escritor é matar esse escritor e contribuir para a extinção de sua obra. É um crime. Bem, e para desde já me garantir, vou reler pela 15ª vez o monumental "Dom casmurro', antes que alguém resolva reescrevê-lo mudando seu título para 'O velho corno rabugento'.
Sou professor de língua inglesa e posso dizer, com conhecimento de causa, que, ao contrário do que diz o ilustre Lênio, isso não é invenção brasileira. Também não me refiro aos livros "adaptados" a aprendizes de línguas estrangeiras ou mesmo "abridged" (abreviados, resumidos); no Reino Unido e nos EUA é muito comum encontrarmos livros com "linguagem adaptada à atualidade (sic)" de Shakespeare ou outro p(r)o(f)eta.
Filio-me a Harold Bloom e sua cruzada para demonstrar que a sabedoria pode e deve ser encontrada na literatura. Shakespeare, segundo o crítico, é o inventor da humanidade. W. S. sempre soube que seu invento sairia de controle, pois somos carregados de emoção.
Não há como impedir a modificação de uma obra de domínio público, a não ser com o império - tirano, em meu pouco aprofundado julgamento, por desrespeito a Direitos Fundamentais - de uma lei que assim o faça. Cabe a nós, pais, professores, e profissionais, em qualquer área, livrar-nos, e aos que vêm e vão, desse senso comum já fincado em nossa cultura.
A cada semana leio e releio os artigos do Dr. Lênio e até já me perguntei, como um jurista deste porte não integra um tribunal superior?
Com certeza, o articulista daria um show de cultura num plenário onde se estivesse discutindo matérias de ampla repercussão.
O problema, é que a mediocridade ocupa hoje lugar de destaque no pensamento nacional e não permitiria esta concorrência.
É uma pena.
Prætor, acho que você não percebeu o que tá acontecendo. A escritora não fará uma obra, analisando machado de Assis. Ela vai reeditar "O Alienista", trocando palavras que entende serem difíceis de compreensão pelos jovens. Não se trata de inovar, criar obra nova. Trata-se de reescrita das obras de Machado, apenas com substituição de palavras.
Santo deus, se isso não é descaracterização do patrimônio cultural nacional, forçando até um pouco a barra, uma apropriação indébito da obra alheia, então é o sinal de que estamos perdidos mesmo. É o fim dos tempos. Vou começar a estocar comida também.
Agora, tente reformar uma casa que foi tombada por algum órgão ligado ao Patrimônio Histórico... alterar machado à sorrelfa, e de modo descarado, pode!!! Reformar uma casa tombada que é nossa propriedade, aí não pode!!! É um deus nos acuda...
Prætor, acho que você não percebeu o que tá acontecendo. A escritora não fará uma obra, analisando machado de Assis. Ela vai reeditar "O Alienista", trocando palavras que entende serem difíceis de compreensão pelos jovens. Não se trata de inovar, criar obra nova. Trata-se de reescrita das obras de Machado, apenas com substituição de palavras.
Santo deus, se isso não é descaracterização do patrimônio cultural nacional, forçando até um pouco a barra, uma apropriação indébito da obra alheia, então é o sinal de que estamos perdidos mesmo. É o fim dos tempos. Vou começar a estocar comida também.
Agora, tente reformar uma casa que foi tombada por algum órgão ligado ao Patrimônio Histórico... alterar machado à sorrelfa, e de modo descarado, pode!!! Reformar uma casa tombada que é nossa propriedade, aí não pode!!! É um deus nos acuda...
Apesar de ser justificável a preocupação de Lênio, (imbecilização do ser e da linguagem), não vejo risco algum no projeto simplificador da Fulana. Não adianta fingir achando que os jovens estão entendendo o palavreado potente dos clássicos. NÃO ESTÃO! Confesso que no meu tempo de ginásio, uns 20 anos atrás, tive imensas dificuldades para entender Machado & Cia, mas persistia até o final, pelo bem do enredo contado. A discussão vai longe, mas é certo que as obras consagradas de Machado e tantos outros continuarão firmes e fortes.
Teria dito Euclides ao tentar ensinar Matemática ao rei egípcio Ptolomeu I, que reclamava da dificuldade.
Por isso sigo com a rainha das ciências.
O Direito é tão simples que já não precisamos de universidades ou bons livros para compreendê-lo. Afinal, o conhecimento é meramente institucional, existindo inúmeros manuais, simplificados e plastificados, super didáticos, super leves, super-ficiais, para deixar tudo claro, quando e onde você estiver! Os sinais estão no ar, em toda esquina encontramos um especialista, com ou sem formação, com ou sem habilitação, com ou sem noção.
Noção? Sim, e é aí que mora o problema! Segundo Eros Roberto Grau[1], a operacionalização do Direito “reclama o manejo de noções, e não somente de conceitos”. A falta de uma pré-compreensão adequada sobre o novo paradigma de Estado Democrático de Direto, o papel dos princípios jurídicos, enfim, do que seja a própria Constituição Federal, tudo aquilo que é condição para compreensão do fenômeno, pode ser sentida diante da falta de sentido.
Para desgosto de muitos especialistas, o direito é muito mais do que um conjunto de leis, decretos, instruções normativas e o escambau, decorados, cantados, traduzidos (do juridiquez para o português), etcetera.
Em tempos de excesso de informação, todo mundo parece querer propagar teorias grandiloquentes e visões panorâmicas que unificam tudo, ligando causa e efeito com linhas retas e, por consequência, ignorando os detalhes, as sutilezas, o diálogo, a vida real que passa ao largo de interpretações literais e nem sempre sensíveis. É como diria Humberto Gessinger[2]: “tudo se resume, se presume, se reduz ...e o principal fica fora do resumo principal”.
O Direito agora está ao alcance de quem quer pegar o bonde andando, assim como as músicas de hoje em dia. É só chegar e mexer os quadris. Você pode saber tudo em textos de não mais de três (03) linhas...
http://domdiegohs.wix.com/
Tenho lido muitas vezes a incessante cruzada do escritor para denunciar a forma de ensino do direito ultimamente e concordo com a idéia.
Meu post, porém, tem o objetivo de demonstrar outro aspecto, um aspecto diferente. Vejo muitas vezes em processos (ou mesmo em conversas, apesar de achar que neste caso o problema é menor), o uso exacerbado de termos difíceis. Não termos técnicos, mas termos exagerada e desnecessariamente complicados, como neste despacho de um juiz do mato grosso do sul há um tempo:
"Declino à conspícua escrivania o presente encartado, com fincas ao dealbar nesta urbe do luculento arconte, que inaugura a comarca."
Ora, ao mesmo tempo em que não se pode simplificar o ensino do direito, também não se deve elitizar o seu uso de uma forma em que uma pessoa, mesmo instruída, não consiga entender absolutamente nada do que ocorre num processo. Simplificar tais palavras não é tirar a essência de complexidade, mas deixar o essencial ao alcance da sociedade, para a qual o direito se volta. Já vi juizes interrogando testemunha com palavras que simplesmente não tem como uma pessoa daquela classe entender, e o magistrato não, digamos, "diminuiu o nível" para que a pessoa entendesse.
Esse "juridiquês" também merece suas críticas. Além disso, também acho que as coisas mais básicas, digamos o que se ensina num "resumidinho facinho explicadinho", deveria ser ensinada, na verdade, durante o ensino médio. Afinal, apesar de não ser realmente o direito, são as "regras do jogo", e a maioria das pessoas (inclusive eu), sai de lá sem fazer a menor ideia delas.
Há (do verbo hajar - neologismo do caipira) dois meses dei de presente o Livro Dom Casmurro para minha sobrinha mais nova (13 anos) e ela leu inteirinho. Achou difícil. Preferiu Alice (mais o perfil dela) e viu que o livro é muito melhor que o filme. Mas leu e entendeu ambos! E com 13 anos!
O que ela viu no livro foi a capacidade dos autores de criar imagens, quadros através de palavras. Acho que isso se chama estética da linguagem escrita. É o mesmo sentimento de ver um belo quadro e por isso digo que fica monótono o mundo sem essa dificuldade dos bons autores, pintores, escultores.
Frequentem o MASP e entenderão. Caravaggio pintou a Medusa onde e qual foi a expressão dela? Por que foi assim? resp.: pesquisem na mitologia! Essa é a genialidade da estética de Caravaggio.
Guerra e Paz. Ah, Portinari. E seu "Os Retirantes". Que tristeza real e impactante, mas belíssimo.
Pelo menos não queimem nossos quadros, pois os livros já foram.
Remeti a alguma memória? Sim, estão simbolicamente queimando livro. Quem queimava livros, mesmo?
Abraço.
P.S.: para facilitar (desculpa Prof., não aguentei de novo) pesquisem em Medusa e Teseu (que não é nenhuma palavra maliciosa - rindo).
As pessoas hoje esperam pelo milagre de aprender lendo um texto ou um livro uma única vez.
As pessoas hoje esperam pelo milagre de aprender lendo um texto ou um livro uma única vez. Estudar? Isso é coisa de gente velha. Vou arrumar um bunker também.
Alto lá e com vênia máxima! Comentaristas que insinuam que haveria há algum tempo o "cantilenamento" (ou a "cantilenização") do discurso de Streck ou que há mero jogo retórico de palavras ("falatório") sem clareza e rigor em suas colunas, ignoram ou não levam a sério o paradigma filosófico no qual ele se move (e desenvolve em "terrae brasilis"). Heiddeger, em "Ser e Tempo", no § 35 (Unicamp/Vozes, 2012, p. 471 e ss.) faz menção expressa a "falatório" ("Gerede", em alemão) como categoria filosófica. Cito: "A expressão 'falatório' não deve ser empregada numa acepção pejorativa. Ela significa terminologicamente um fenômeno positivo, que constitui o modo-de-ser do entender e interpretar do Dasein cotidiano. No mais das vezes, o discurso se expressa e já se expressou sempre em palavras. O discurso é linguagem. Mas, no que foi expresso, já residem então cada vez entendimento e interpretação. A linguagem, como o ser-do-expresso, contém em si um ser-do-interpretado do entendimento-do-Dasein. Esse ser-do-interpretado, assim como a linguagem ela mesma, não se reduz ao ainda só subsistente, mas seu ser é ele mesmo conforme-ao-Dasein [...] A falta-de-solo do falatório não o impede de ingressar no que é público, mas favorece seu ingresso. O falatório é a possibilidade de tudo entender sem uma prévia apropriação da coisa. O falatório já protege por antecipação contra o perigo de malograr em tal apropriação. O falatório, que qualquer um pode obter, não só dispensa da tarefa de um entendimento autêntico, mas desenvolve uma entendibilidade indiferente para a qual já não está fechado" (p. 471 e 474). Ora em português cantilena é um conceito que pode ser subsumido ao conceito de falatório. Por que não falarmos então em "cantilena" como categoria filosófica?
Essa ideia de substituição de palavras tidas por difíceis acabará levando à desfiguração da obra do grande Machado de Assis.
Será que a autora atentará para os significados das palavras no século XIX?
Essa mania atual de querer receber o conhecimento mastigado por certo atrofiará áreas cognitivas.
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