223 anos após a sua morte, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, voltou a ser notícia nos últimos dias — e não por causa do trânsito na saída de São Paulo na véspera do feriado em sua homenagem (21 de abril). No último Dia de Tiradentes, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro revisou a história e encenou um novo julgamento de Tiradentes, interpretado na ocasião pelo ator Milton Gonçalves. O advogado Técio Lins e Silva, que defendeu o mártir da independência alegou que seu cliente só confessou a participação na Inconfidência Mineira sob tortura. Considerando que esta prova era ilícita, o desembargador Claudio dell’Orto absolveu o ex-dentista e alferes e o “desenforcou”.
Além disso, na Semana da Inconfidência, a Imprensa Oficial de Minas Gerais publicou na internet todos os documentos dos Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, o processo que resultou na condenação à morte de Tiradentes.
Mas há outra razão para trazer o inconfidente de volta à tona. Em tempos de operação "lava jato", em que depoimentos feitos em delações premiadas estampam jornais diariamente, vale lembrar que Tiradentes foi possivelmente vítima da primeira “dedurada” legalmente recompensada na história do Brasil, feita pelo coronel Joaquim Silvério dos Reis.

Cabeças vão rolar
No final do século 18, os mineiros estavam descontentes com a Coroa Portuguesa. Em 1785, a rainha d. Maria I proibiu que fossem produzidos na colônia manufaturas de ouro, prata, seda, algodão, linho e lã. Quatro anos depois, a metrópole resolveu compensar a queda na arrecadação — resultado do declínio econômico de Minas Gerais — instituindo uma forma mais eficiente de recolher o Quinto, imposto que garantia aos portugueses 20% de todo minério extraído até o teto de cem arrobas anuais (1,5 tonelada). Conhecida como “derrama”, a prática consistia em confiscar bens e objetos de ouro para garantir que a meta tributária não seria descumprida.
Essas medidas inflamaram a elite da época. Inspirados pela independência dos Estados Unidos da América e pelo movimento intelectual que culminaria na Revolução Francesa, um grupo de bacharéis, militares, comerciantes e fazendeiros passou a se reunir rotineiramente nas casas dos poetas Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, que também era desembargador e foi apontado como o líder do movimento. A principal ideia deles era se livrar do domínio lusitano e tornar Minas Gerais um país independente, que seria organizado sob a forma de república.
Quando soube do movimento, Silvério dos Reis vislumbrou uma oportunidade de obter os benefícios do parágrafo 12 do Título VI das Ordenações Filipinas (lei vigente na metrópole e em todas as colônias na época) e se livrar das pesadas dívidas que possuía junto à Coroa Portuguesa. De acordo com o livro O Processo de Tiradentes, escrito pelos advogados Ricardo Tosto e Paulo Guilherme Mendonça Lopes e editado pela ConJur, o dispositivo “previa não só o perdão, mas também favores do Reino para quem primeiro delatasse a existência de atos de crime de Lesa Majestade”. Este delito, tipificado no Título VI da mesma norma, era aplicado em caso de “traição cometida contra a pessoa do Rei, ou seu real Estado”.
Visando à sua redenção, Silvério dos Reis resolveu abrir o bico – mas por livre e espontânea vontade, e não devido à coação de uma prisão preventiva. Ele então procurou o visconde de Barbacena e governador da Capitania de Minas Gerais na época, Luís Antônio Furtado de Mendonça, e contou tudo o que sabia. Depois de um mês, o nobre pediu que o dedo-duro formalizasse a denúncia por escrito, para que ela fosse enviada ao vice-rei, D. Luis de Vasconcelos.
Na carta, Silvério dos Reis relatou que, certa vez, fora convidado a participar da conjuração pelo sargento-mor Luís Vaz. Este, segundo o delator, contara que Tomás Antônio Gonzaga liderava um grupo que iria mandar mais de 460 “pés-rapados”, “que haviam de vir armados de espingardas e facões, e que não haviam de vir juntos para não causar desconfiança; e que estivessem dispersos, porém perto da Vila Rica, e prontos à primeira voz”.
Prontos para quê? Para fazer cabeças rolarem. E “a primeira cabeça que se havia de cortar era a de V. Excia. [visconde de Barbacena] e depois, pegando-lhe pelos cabelos, se havia de fazer uma fala ao povo que já estava escrita pelo dito Gonzaga; e para sossegar o dito povo se havia levantar os tributos”. E o suposto massacre não terminaria aí: os conjurados também decapitariam o ouvidor de Vila Rica, Pedro José de Araújo, o escrivão da Junta, Carlos José da Silva e o ajudante de Ordens Antônio Xavier – e talvez o intendente – “porque estes haviam de seguir o partido de V. Excia. [visconde de Barbacena]”.
Conforme contou Silvério dos Reis, os inconfidentes o convidaram para participar do levante por saberem que ele devia dinheiro para a Coroa Portuguesa. Porém, logo deixaram claro que, se ele divulgasse os planos deles às autoridades, seria assassinado.
O vigário da Vila de São José, Carlos Correia, disse ao delator que, para a conjuração, “trabalhava fortemente o alferes pago Joaquim José”, o qual já tinha vários seguidores nessa cidade e planejava angariar mais sujeitos no Rio de Janeiro, “pois o seu intento era também cortar a cabeça do Senhor Vice-Rei”. O relato do padre foi posteriormente confirmado por Silvério dos Reis quando ele encontrou Tiradentes, que lhe “fez certo o seu intento e do ânimo que levava”.
Após ler a denúncia, o vice-rei determinou a abertura da devassa – uma mistura de inquérito criminal e processo judicial – para apuração dos fatos e julgamento dos culpados. Ao final, os juízes da Alçada culparam todos os inconfidentes pelo crime de Lesa Majestade.
No entanto, só Tiradentes foi condenado à morte. Uns dizem que foi por ele ser o único réu confesso. Outros, por ser o mais pobre dos acusados. Controvérsias à parte, o fato é que a rainha d. Maria I converteu a pena dos demais conjurados em exílio para a África.
Em 21 de abril de 1792, Tiradentes foi enforcado em praça pública no Rio de Janeiro. Depois de morto, seu corpo foi esquartejado.
Delação a peso de ouro
Atualmente, o delator que colaborar com as investigações e tiver comprovadas as informações que prestou pode ter a pena reduzida em dois terços, substituída por penas restritivas de direitos, como prestação de serviços à comunidade, ou até receber perdão judicial.
Contudo, no Brasil Colônia, dedurar criminosos valia (ainda) mais a pena. Por ter denunciado os agitadores da Inconfidência Mineira, Silvério dos Reis recebeu, em Lisboa, o foro de fidalgo da Casa Real e o hábito da Ordem de Cristo. Além disso, suas dívidas com a Coroa Portuguesa teriam sido perdoadas, e ele teria recebido ouro, uma mansão e o cargo público de tesoureiro da bula de Minas Gerais, Goiás e Rio de Janeiro.
A partir daí, Silvério dos Reis adicionou “Joaquim” a seu nome e se mudou para Campos dos Goytacazes, que fazia parte da Capitania de São Tomé e hoje integra o estado do Rio de Janeiro. Lá, o novo-rico, junto com seu sogro, passou a cobrar foros indevidos dos locais e expulsar das terras os que não aceitavam a extorsão, de acordo com o livro O Processo de Tiradentes.
Empolgado pelas recompensas que recebeu por denunciar os conjurados, mas querendo ganhar mais prêmios da metrópole, Silvério dos Reis planejou uma nova delação premiada, dessa vez contra o alferes Joaquim Vicente dos Reis, que combatia as arbitrariedades dele e de seu sogro na região. Como não havia crime a denunciar, o chantagista inventou uma denúncia e acusou o militar ter aberto duas cartas lacradas endereçadas ao vice-rei. Para corroborar sua tese, ele apresentou duas testemunhas, com quem havia previamente combinado o teor de seu depoimento.
Porém, uma dela falou mais do que devia, gerando contradição com o depoimento de Silvério dos Reis. Por essa razão, a devassa foi arquivada, sepultando seu plano de obter mais recompensas. Pior ainda: os moradores de Campos dos Goytacazes denunciaram à Coroa Portuguesa os abusos de Silvério Reis e seu sogro. Embora o processo não tenha sido concluído, a ofensiva dos locais acabou forçando o delator dos inconfidentes a se mudar para a Baixada Fluminense.
Silvério dos Reis morreu em 1819, no Maranhão, não tão rico quanto gostaria, mas certamente com melhores condições de vida do que as que tinha antes de delatar Tiradentes e os demais líderes da Inconfidência Mineira.
*Texto alterado às 22h01 do dia 2/5/2017 para correção de informações.

Antes da do Silvério Judas fez primeiro com relação a Cristo no Sinédrio.
Acaso o nobre repórter está equiparando a Inconfidência com a "Lava jato"? Equivalem-se o levante e o crime? É isso mesmo??
Parabéns ao autor do artigo! Resumiu importantes momentos da história de Tiradentes e da Inconfidência com riqueza de detalhes.
Quanto a um dos núcleos do artigo, no tocante à voracidade arrecadatória da Coroa Portuguesa, talvez tenha o inconfidente mineiro morrido em vão, pois, apesar da monarquia ter dado lugar à República (como mesmo era uma das razões daquela conspiração), entretanto, a outra razão - a tributação - que antes já era havida como confiscatória ao limite de UM QUINTO de todas as riquezas dos contribuintes, nos dias atuais não diminuiu; ao contrário, aumentou ainda mais!
Atualmente, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), a carga tributária brasileira supera 40% do PIB, ou seja, ultrapassa DOIS QUINTOS de nossa produção (http://siprotaf.org.br/artigos/ver/681/ carga-tributaria-supera). Assim, a carga tributária que nos aflige, sob a República, é MAIS QUE O DOBRO daquela exigida por Portugal à época da Inconfidência Mineira.
Então, fica a reflexão: TERIA "TIRADENTES" MORRIDO EM VÃO? E O ATUAL BRASIL SOBERANO, MUDOU PRA MELHOR? SERÁ QUE NÃO ESTÁ NA HORA DE UMA INCONFIDÊNCIA NACIONAL E DESSA VEZ APENAS PELA ÚNICA RAZÃO QUE ASSALTA NOSSA DIGNIDADE E O PRODUTO DO NOSSO TRABALHO HÁ MAIS DE 200 ANOS? OU VAMOS ESPERAR QUE OCORRA O INVERSO E QUE NOS RESTE APENAS UM QUINTO LIVRE DE TRIBUTAÇÃO?
SUPORTAR OU INSURGIR?
Faltou esclarecer o que existe em comum entre o herói Tiradentes e os bandidos da Sofisticada Organização Criminosa, que tomou de assalto a Petrobras e o Brasil durante os últimos 12 anos.
Meu Deus, até Tiradentes serve para a ConJur levar adiante sua saga contra a delação premiada. Cui bono?
Por que o Conjur, em sua cruzada contra o instituto da colaboração premiada, não voltou um pouco mais na história para lembrar que Jesus de Nazaré, o Cristo, foi supostamente vítima de delação de Judas, premiada com 30 dinheiros?
Não se deve esquecer que a Colaboração Premiada, no direito brasileiro, só autoriza condenações se houver comprovação dos fatos delatados.
Então se devemos recorrer a história, podemos voltar ainda mais no tempo e lembrar que Sócrates foi condenado à morte também delatado por influenciar negativamente a juventude à época...
É, realmente a delação premiada é um absurdo!!
Aonde vamos parar, com empreiteiros, advogados, ex-políticos, e até ex-juízes e ex-promotores sendo presos?
Como fica a histórica impunidade no Brasil com o estrato social dominante, que remonta desde o descobrimento?
Acorda Brasil!!
Acorda Conjur!!
"Mas há outra razão para trazer o inconfidente de volta à tona". Como também há outra razão para o presente artigo, não é "cumpanheiro". Ao contrário do passado, os envolvidos na "lava jato" vão morrer tão ricos quanto gostariam, e certamente com melhores condições de vida do que as que dos milhões de brasileiros que são vítimas dessa organização criminosa que dominou o país. Infelizmente não temos mais enforcamento!
Com a abertura democrática de nosso país, cada vez mais vamos sabendo de coisas que são diferentes daquelas aprendidas na escola. Uma delas é a respeito da iconoclastia de Tiradentes. Dizem que ele não usava nem barba e nem bigode. Esta imitação de Cristo, foi feita há tempos e sacramentada através da Lei Federal 4897 de 1966 pelo presidente Castelo Branco, quando foi definido a imagem com barba e cabelos longos de Tiradentes. Dizem tbm que Joaquim José da Silva Xavier, era maçom, bem como quase a totalidade dos líderes do movimento de independência. Segundo historiadores, dentre eles Machado de Assis e Assis Brasil, relatam que Tiradentes não morreu enforcado. Quem morreu em seu lugar e teve seu corpo esquartejado foi o facínora italiano Renzo Orsini. Tiradentes, com a ajuda dos maçons da época e da rainha de Portugal, Da. Maria I, refugiou-se no porão da mesma Rua dos Latoeiros e depois foi para Lisboa no navio "Golfinho", onde viveu até 1808. No mesmo ano voltou ao Brasil com a família real. Chegando ao Rio de Janeiro reviu sua mulher Francisca e sua filha Joaquina e morreu de velhice. Tiradentes teria inclusive tratado de assuntos atinentes à inconfidência com Thomas Jefferson, embaixador americano na França, bem como seu exílio e Portugal. Tiradentes foi pessoa de confiança de D. João. Tanto que teria tratado de Da. Maria I em sua fase de loucura. Inclusive teria trazido para o Brasil uma filha bastarda do rei por imposição da rainha Carlota Joaquina. Enfim com o malogro da conspiração dos mineiros a maçonaria brasileira, muito sabiamente ficou quieta até melhor oportunidade, reaparecendo na Revolução Pernambucana de 1817 e que também fracassou. Novamente em 1822, a mesma proporcionou a Independência do Brasil. Como se pode ver, a história real.
Realmente os corruptos compram tudo, até o conjur.
Quando é que os defensores da impunidade vão se convencer que a comunidade jurídica comprometida com a justiça não está mais disposta a aceitar a construção de teses mirabolantes que subvertem a ordem das coisas colocando aspectos processuais acima do direito material e do interesse social, como forma de livrar a cara dos criminosos das responsabilidades de lhes cabem? A criminalidade elitizada que tanto mal tem causado à população brasileira precisa responder pelos seus atos. Chega de invencionices e de forçar a barra.
“O excesso de apego à legalidade formal pretende, consciente ou inconscientemente, que as pessoas sirvam à lei, invertendo a proposição razoável e lógica, segundo a qual as leis são instrumentos da humanidade e como tais devem basear-se na realidade social e serem conformes esta.”. Dalmo de Abreu Dalari, em, O Legalismo Expulsou a Justiça.
É triste ver o que se faz para desacreditar um instituto que vem sendo utilizado para livrar o país da chaga da corrupção. Delatar, por delatar, o testemunho também não é uma forma de apontar o dedo para o outro?
É por essa e por outras, que estou deixando de fazer meus comentários aqui. Não há mais seriedade no CONJUR, desde que fez sua opção ideológico-partidária em defesa dos criminosos, que tomaram de assalto o Brasil e o transformaram em uma república governada por cleptocratas. O CONJUR hoje se transformou no grande baluarte de militantes, que combatem, sistematicamente, a Operação Lava-Jato em uma cruzada insana para desmoralizá-la com argumentações tendenciosas, estéreis, sem fundamento em um franco desrespeito à nossa inteligência. Se não nos respeitam como cidadãos, pelo menos, nos respeitem como profissionais do direito.
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