Kakay: Vazamentos visam impedir a independência do Poder Judiciário

*Artigo originalmente publicado no jornal Folha de S.Paulo desta quarta-feira (24/8) com o título A ousadia dos covardes.

Em junho, quando a Procuradoria-Geral da República pediu a prisão do ex-presidente José Sarney, de pronto toda a comunidade jurídica constatou que era um absurdo. A prisão foi negada, mas a divulgação do pedido causou enormes dissabores. A quem interessava aquele vazamento?

Como o pedido era inepto, alguém resolveu vazá-lo não apenas para constranger mas para tentar transformá-lo em fato consumado.

Em nome de Sarney, protocolei duas petições: uma para apurar se algum agente público teria ajudado naquela gravação criminosa e covarde feita pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, base para o pedido de prisão do ex-presidente; outra para pedir que se apurasse o vazamento criminoso. Não sabemos se alguma medida foi tomada.

Agora surge este novo vazamento, também criminoso, de um suposto anexo de delação premiada, que visa nitidamente constranger o ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli e, de forma mais ampla, o Poder Judiciário.

A revista Veja, que divulgou no fim de semana a informação de que Toffoli foi mencionado em delação premiada do empreiteiro Léo Pinheiro, afirmou, após ouvir advogados, ex-ministros e procuradores, que o suposto conteúdo não permite crer na existência de indícios de delito. Qual a razão, portanto, de existir um anexo no qual não há indicativo de conduta ilícita? Apenas constranger, ser vazado, criar um fato consumado.

A Procuradoria-Geral da República possui condições de apurar quantas e quais pessoas tiveram acesso ao documento, já que tais fatos são sigilosos e devem estar na órbita de poucos. E mais: se não há indícios de crime, pode ter havido eventual abuso de autoridade na lavratura do mencionado anexo.

A quem interessa vazar que o ministro Toffoli teria sido citado em um anexo de delação premiada, ainda que sem nenhum tipo de irregularidade? É fundamental saber se o nome do ministro apareceu espontaneamente no relato.

Corre uma história de que alguns investigadores, não raro, pedem para que sejam mencionadas pessoas do Poder Judiciário em depoimentos, como condição para a celebração de acordos. Será mesmo que existe esse direcionamento criminoso para tentar atacar e enfraquecer nossos juízes? Seria um escândalo.

A Procuradoria-Geral da República suspendeu a delação de Léo Pinheiro, ex-presidente da empreiteira OAS. Isso passará a valer para todas as delações que foram vazadas? É incompreensível imputar a responsabilidade da divulgação à defesa, pois é justamente a ela que menos interessa tal coisa.

Todos queremos o enfrentamento da corrupção, mas, se o fizermos sem o respeito às garantias constitucionais, sairemos deste embate como um país punitivo e obscurantista. Só o respeito à Constituição garantirá um futuro melhor.

O país inteiro merece saber como se dão esses vazamentos. São dirigidos, criminosos, visam impedir a independência do Poder Judiciário, inibir os juízes. Antes atingiam políticos e empresários; agora seus autores perderam completamente a vergonha — como diria Nelson Rodrigues, os idiotas perderam a modéstia — e ousam encurralar um ministro da Suprema Corte.

Esperemos que essa ousadia encontre limite na independência e na soberania do juiz, seja ele de primeiro grau ou da mais alta corte do país.

Nós, advogados, continuaremos a acompanhar e, se for o caso, a denunciar os abusos. É sempre bom lembrar Bertolt Brecht e seu poema "Os Medos do Regime": "Um estrangeiro, voltando de uma viagem ao Terceiro Reich,/ Ao ser perguntado quem realmente governava lá, respondeu/ O medo".

"Por que temem tanto a palavra clara?", pergunta-se Brecht.

Lucas Paim disse:
24 de agosto de 2016 às 15:50

Só em Pindorama mesmo pra ocorrer vazamentos, divulgação de conversas sob prerrogativa de função e mais um pouco, pra não ocorrer nada. Agora, furto de havaianas não tem chance pro militante (sic).
Dalhe Republiqueta das Bananas.
Espero que, no final, a Constituição ainda exista.
Saludo!

DTebet disse:
24 de agosto de 2016 às 16:38

Excelente análise do Kakay. Inexplicavelmente, suspende-se a delação ao invés de se apurar o vazamento... Uma vez mais se faz necessária a aprovação do PLS 280/2016. O abuso dos vazamentos não cessa, vez que sequer é apurado. Virou "vale-tudo", infelizmente.

Gabriel da Silva Merlin disse:
24 de agosto de 2016 às 18:15

Nada melhor para diminuir a corrupção e a utilização do cargo público em proveito próprio do que a transparência. Se houvesse transparência ninguém estaria duvidando da integridade dos Ministros do STF ou dos membros da PGR.

O problema é que esses órgãos insistem em viver nas sombras sem dar qualquer tipo de explicação para a sociedade.

DIANA NASCIMENTO disse:
24 de agosto de 2016 às 23:56

Realmente, todos os vazamentos precisam ser investigados e os culpados por isso devem ser punidos. O que não podemos é perder delações importantes que revelam muita coisa como a do Sérgio Machado e outras revelaram. Todas as delações estão repletas de denúncias importantes que devem ser rigorosamente investigadas.

J. Ribeiro disse:
25 de agosto de 2016 às 05:54

Com tantos vazamentos, será que não tem nenhum encanador desempregado por ai?

Servidor estadual disse:
25 de agosto de 2016 às 13:05

Se a confiança no MPF já era nenhuma agora eles demonstraram que não possuem limites e uma revisão constitucional urge. Se faz necessário equilibrar os poderes no país e recolocar o MP como auxiliar da Justiça e não como seu dono.

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