Por que muita gente não passa nos concursos e provas da OAB?

Spacca

As propagandas dos cursos de preparação de concursos (OAB, magistratura, Ministério Público, Defensoria etc.), além das demais carreiras jurídicas, promovem sempre a exaltação dos aprovados. Há holofotes, brilho, entrevistas e, por certo, muito esforço. O marketing sabidamente ilumina os que podem posar como vencedores, desprezando os que não passaram nos concursos. A maior parte. Raramente um concurso para magistratura no Brasil inicia-se com menos de 5 mil inscritos, e, ao final, passam cerca de 2%. Serão estes os endeusados pela sapiência, competência e capacidade. Os perdedores são desprezados. E o sujeito se espelha, na sua luta por aprovação, justamente no vencedor. Talvez seja o caso de olharmos para os aparentemente perdedores.

Podemos dizer que, com a quantidade de material para ser estudado e as contingências de um concurso público, é impossível apontar os critérios para sucesso de um candidato. Além de estudar, porque não se trata de milagre, surgem fatores imponderáveis, na lógica do efeito borboleta, ou seja, pequenos detalhes que mudam uma vida. Não é porque o sujeito que foi aprovado estudou 10 horas por dia usando a apostila tal que, necessariamente, o candidato-espelho obterá o mesmo êxito. Existem diferenças pessoais, de ordem cognitiva e subjetiva, exigindo uma singularidade na preparação, até porque o fator sorte torna os certames imprevisíveis. O sujeito estuda praticamente todo o Código Civil, e justamente a parte faltante cai na prova, ou o contrário: estudou somente a parte que foi objeto da prova.

No fundo, os fatores de sucesso são muito mais acasos do que metodologia, embora se venda justamente o contrário. Basta perceber que, se a mesma apostila foi fornecida a vários candidatos, os quais, por sua vez, estudaram 10 horas por dia, juntos, tal fato não é condição necessária, nem suficiente, para aprovação. Ficou apavorado? Não sabe o que fazer? Inexiste solução fácil. Porém, não se pode superestimar entusiasmadamente as probabilidades de sucesso baseadas em cases vencedores. Podemos aprender com eles, mas o fundamental é procurar a singularidade, os limites e possibilidades sinceras de cada um. Basta perceber as promessas de dietas que já fizemos. Mas a ilusão de que seguindo os passos obteremos o sucesso é o que move os cursinhos que matriculam cada vez mais gente, porque se tornam pais cognitivos dos aprovados eventualmente. Logo, estudar no cursinho A ou Z não nos torna, definitivamente, mais inteligentes.

As possibilidades cognitivas decorrem da formação do cérebro, e podemos, com treino e boa alimentação, quem sabe exercícios físicos, melhorar a capacidade de memorização. Temos, para tanto, diversas explicações teóricas para memória de curta e larga duração. Mas uma coisa é pressuposta: alguns nascem com uma capacidade melhor do que outros, e também a infância e a adolescência influenciam de maneira significativa na nossa capacidade de compreensão, especialmente pelo investimento narcísico que os pais fizeram.

Enfim, cuidado com a milagrosas receitas de sucesso vendidas, pois, no fundo, diante da quantidade de matriculados nos cursinhos e o percentual de aprovados, podemos estar sendo enganados pela foto do pódio que apresenta somente os melhores colocados. Algo, porém, é certo: estudar corretamente aumenta a incidência da sorte.

P.S. Na coluna anterior, havia prometido dar dicas de livros para formação básica. Fiquei com vontade de escrever esta coluna em face do desânimo de alguns parceiros. Retomo a temática da indicação dos livros em três semanas, quando volto a escrever aqui. Abraços.

Alexandre Morais da Rosa

é juiz de Direito de 2º grau do TJ-SC, doutor em Direito e professor da Univali (Universidade do Vale do Itajaí).

O IDEÓLOGO disse:
27 de agosto de 2016 às 08:21

Excelente artigo.

O IDEÓLOGO disse:
27 de agosto de 2016 às 08:23

Segue bibliografia para quem se interessar sobre o pensamento conservador.
1- Russell Kirk: A Era Eliot – a imaginação moral do século XX;
2- Russell Kirk: A Política da Prudência;
3- Irving Babbitt: Democracia e Liderança;
4- Edmund Burke: Reflexões sobre a Revolução Francesa;
5: Alexis de Tocqueville: A Democracia na América;
6- Thomas Sowell: Os intelectuais e a sociedade;
7- Allan Bloon: O declínio da cultura Ocidental;
8- Roger Kimball: Os radicais nas universidades;
8- Bertrand de Jouvenel: O Poder- história natural de seu crescimento;
9- Michel Oakshott: Ser conservador;
10- Friedrich A. Hayek: Os Fundamentos da Liberdade;
11- Ludwig von Mises: Ação Humana;
12- Ludwig von Mises: A mentalidade anticapitalista;
13- Paul Johnson: Tempos modernos;
14- Eugen von Böhm-Bawerk: A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo;
15- Alexander Soljenítsin: Arquipélago Gulag;
16- Thomas Mann: José e Seus Irmãos;
17- Richard Weaver: As ideias têm consequências;
18- Paolo Prodi: Uma história da Justiça;
19- Michel Villey: A formação do pensamento jurídico moderno;
20- Arold J. Berman: Direito e Revolução, e
21- Leo Strauss: Direito Natural e História.

O IDEÓLOGO disse:
27 de agosto de 2016 às 08:49

1 - A Origem das Espécies, de C. Darwin;
2 -1984”, de George Orwell;
3 -A formação da classe operária inglesa”, de Edward Palmer Thompson;
4 -A República”, de Platão;
5 -A riqueza das nações”, de Adam Smith;
6 -As obras completas de William Shakespeare;
7 -“As utilizações da cultura”, de Richard Hoggart;
8 -Crítica da razão pura”, de Immanuel Kant;
9 -Manifesto comunista”, de Karl Marx e Friedrich Engels;
10 -Modos de ver”, de John Berger;
11 -O macaco nu”, de Desmond Morris;
12 -O príncipe”, de Nicolau Maquiavel;
13 -Orientalismo”, de Edward Said;
14 -Os direitos do homem”, de Thomas Paine;
15 -O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir;
16 -O significado da relatividade”, de Albert Einstein;
17 -Primavera silenciosa”, de Rachel Carson;
18 -Reivindicação dos direitos da mulher”, de Mary Wollstonecraft;
19 -The female eunuch” (A mulher eunuco, em tradução livre), de Germaine Greer;
20 -Uma breve história do tempo: do Big Bang aos buracos negros”, de Stephen Hawking;
21 - Fenomenologia do Espirito, de G. W. F. Hegel;
22 - Das Kapital, de Karl Marx;
23 - Dom Quixote, de Miguel de Cervantes;
24 - Guerra e Paz, de Liev Tolstói;
25 - O Processo, de Franz Kafka;
26 - O Apanhador no Campo de Centeio, J. D. Salinger;
27 - Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley;
28 -Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski;
29 - Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, e
30 - 1984, de G. Orwell.

Paulo Moreira disse:
27 de agosto de 2016 às 11:30

Muita gente não passa porque estudou em vez de "decorar" o "direito tal simplificado". Ser aprovado assim é fácil: basta disponibilizar tempo e boa memória. Raciocínio? Inteligência? Senso crítico? Não, essas coisas "tão por fora". Na semana passada os professores Lênio Streck e André Karam abordaram o "direito das bancas", devido aos cursos ensinarem tão somente o que elas cobram, e sobremais, o que as mesmas acham correto.
Como remate, caso alguém creia que uma prova configure instrumento hábil a mesurar a inteligência e a capacidade de alguém, lanço o desafio: Por que vemos tantos "encarteirados" e concursados cometendo um sem número de bobagens a todo instante por aí? E não me venham com a cantilena de "ruim com as provas, pior sem elas", pois os "encarteirados" e concursados "estudaram" e foram aprovados...

Gilbert R L Florêncio disse:
27 de agosto de 2016 às 17:47

O artigo, a meu ver, é um conjunto de infelizes construções (falaciosas) que nada dizem sobre o método de aferição da aptidão para o exercício de uma função pública. Sobre as provas serem produto de um sacramentado processo de imbecilização nada discorreu o autor. O que se afere atualmente é a capacidade de retenção de informação (decoreba) e não a capacidade de reflexão.
Não é sem razão que muitos concursados, nas mais diversas atribuições públicas, se caíssem de joelhos num chão verde, nunca mais levantariam. Faculdades e cursinhos são fomentados pelo emburrecimento progressivo e, ao mesmo tempo, fomentam-no, numa simbiose teratológica. Fazem o que chamo de perfumaria do cocô que, apesar de perfumado, continua sendo cocô.
Desculpem-se ser tão incisivo, mas não dá para continuar com esse blá-blá-blá.

Ariosto Moreira da Rocha disse:
27 de agosto de 2016 às 18:39

Sabemos e conhecemos muitos colegas que passam em concurso publico mas, são reprovados 10, 20 anos no exame da OAB, o que está errado? Sabemos que o exame da OAB foi a porta que se abriu para corrupção, Democracia em 1988, amordaça pela OAB em 1994, aproveitaram os Ditadores para aprovarem o exame e hoje tem muito dinheiro, sendo este o principal motivo de não fecharem essa porta, a lava-jato perde feio. Apenas um desabafo.

Ariosto Moreira da Rocha disse:
27 de agosto de 2016 às 18:39

Sabemos e conhecemos muitos colegas que passam em concurso publico mas, são reprovados 10, 20 anos no exame da OAB, o que está errado? Sabemos que o exame da OAB foi a porta que se abriu para corrupção, Democracia em 1988, amordaça pela OAB em 1994, aproveitaram os Ditadores para aprovarem o exame e hoje tem muito dinheiro, sendo este o principal motivo de não fecharem essa porta, a lava-jato perde feio. Apenas um desabafo.

moreirinha disse:
29 de agosto de 2016 às 10:34

Lamentável, cruel e perverso! Impressionante o oportunismo e a relação de comensalismo entre a OAB e os cursinhos preparatórios. Isso me remete aos anos 60 e 70, quando para ingressar numa faculdade você era obrigado a passar pelos cursinhos, que viriam a enriquecer seus proprietários. O que e quem o exame da ordem avalia? Há uma incompatibilidade total entre as grades dos cursos de Direito e as provas de ingresso na ordem. Afinal, quando cursamos a graduação, deveríamos perquerir a ciência jurídica e não o exame da ordem. A diferença entre em conhecer a árvore ou buscar à floresta. Não raro, encontramos causídicos aprovados na OAB, operadores do direito, sem o menor conhecimento de filosofia do direito, silogismo, hermenêutica, etc. Por último, que falta de sensibilidade da OAB, num país com graves problemas institucionais e econômicos, com desemprego crescente, impedir que pessoas legitimadas a exercerem a profissão, alguns com idade avançada inclusive, e obrigá-las persecutoriamente a realizar por diversas vezes o exame, que lhes roubam o direito de realização profissional e sobrevivência, depois de cinco anos de muito estudo, paixão e dedicação!

Rogério Guimarães Oliveira disse:
30 de agosto de 2016 às 20:06

O artigo foi mesmo muito apropriado.
E quanto a alguns comentários, percebe-se logo que o filtro das provas (exame de Ordem, concursos para a magistratura e o MP) é indispensável para o ingresso de quem está preparado para exercer estas carreiras.
Alguns argumentos entre os comentários perdem-se na incongruência.
Alguém alega que a OAB teria uma relação indevida com "cursinhos", já li que tem interesse com as "taxas de inscrição" no exame, etc. Como assim?
No caso do exame da OAB, cada candidato tem apenas a si próprio como barreira. Basta atingir a nota mínima e é aprovado, torna-se Advogado. Se todos atingirem a nota, todos se tornam Advogados.
Bem diferente do que ocorre nos certames para a magistratura e o MP, em torno de poucas e disputadas vagas.
Aos que imaginam que a Ordem tenha interesse financeiro em reprovar 80%, 90% dos candidatos em seus exames, constrói argumento sem sentido. Isto porque, fosse interesse financeiro a razão de ser do exame (logicamente, não é), a Oram teria muito mais a receber aprovando todos, os quais passariam a pagar anuidades como qualquer Advogado. E a anuidade da OAB não é barata.
Nenhuma carreira jurídica existe para "ajudar" o carreirista a sobreviver, a dar-lhe um trabalho. Elas existem para servir à sociedade.
Um Advogado, Juiz ou Promotor que não desempenha suas funções com mínima qualidade presta desserviço à sociedade.
As provas e concursos estão aí para assegurar isso.
A melhor dica foi dada na lista de obras do Doutor Filósofo. Talvez falte mesmo leitura a muita gente.
Uma boa preparação não faz milagres. Ela apenas auxilia um pouco aquele que já carrega uma boa formação.

Anônimo descrente disse:
31 de agosto de 2016 às 12:59

Dados o preço da inscrição nesse exame da ordem e os índices de repetência, o fato é que ele é, acima de tudo, uma mina de ouro para a OAB e outros. Reflete o método brasileiro de ganhar a vida criando dificuldades burocráticas para depois vender facilidades.

Neli disse:
03 de setembro de 2016 às 21:21

A reprovação em concurso público não é de agora. No início dos anos 1990,prestei concurso para o Ministério Público Federal, no início, mais ou menos 800 candidatos, para a segunda prova foram apenas 12, não sei quantos foram para a prova oral, porque perdi ali e deixei de acompanhar. Em concursos públicos(e exames para a OAB), muitas vezes o candidato perde para ele mesmo: nervosismo, arrogância,"sabe tudo".O candidato, na hora da prova, deve estar focado exclusivamente na prova. Não pode desviar do foco, sob pena de ser derrotado. Se não passar, não pensar no lado negativo(esse já o tem!), mas, sim nos pontos positivos que aconteceram na prova.E fazer dos pontos positivos o caminho para a vitória.Boa sorte.

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