Siro Darlan: Uso da toga em manifestação deturpa simbolismo da veste

Quando um magistrado toma posse, o faz vestindo, nesse momento solene, uma vestimenta denominada toga, e jura respeitar, cumprir e fazer cumprir a Constituição e as leis do país. “A toga, pela sua tradição e seu prestígio, é mais do que um distintivo. É um símbolo. Alerta, no juiz, a lembrança de seu sacerdócio. E incute no povo, pela solenidade, respeito maior aos atos judiciários”, disse o ministro do Supremo Tribunal Federal Mário Guimarães.

A toga deve ser vestida para identificar os juízes quando investido do poder judicial, porque a toga define o poder simbólico dessa vestimenta. O escritor Joseph Campbell afirmou: “Quando um juiz adentra o recinto de um tribunal e todos se levantam, não estão se levantando para o indivíduo, mas para a toga que ele veste e para o papel que ele vai desempenhar”.

O uso da vestimenta pelos magistrados é um ritual carregado de uma importante simbologia. Ela tem a finalidade de conferir solenidade e respeito aos atos do Poder Judiciário. Ao vesti-la, o magistrado expõe ao público que representa a instituição encarregada de julgar com imparcialidade. São vestes, tradicionalmente, cerimoniais e oficiais. Quando o juiz veste a toga ele simbolicamente rompe com o mundo natural e naturalizado, se investe do poder de qualificar os fatos de acordo com o Direito e sobre eles decidir, assim como se investe das responsabilidades da elevada missão a desempenhar.

O uso da toga investe o julgador de funções simbólicas importantes. O preto, também usado pelos sacerdotes, simboliza o luto, a renúncia às cores da vida, a sobriedade, a abnegação, a consagração absoluta à Justiça. Outra função simbólica da toga é a de nivelar os juízes (também aos membros do Ministério Público e advogados em suas becas).

Quando o juiz a veste, simbolicamente, rompe com o mundo de seus valores pessoais e assume os valores impessoais da ordem jurídica. A última função simbólica da toga é a de acrescentar solenidade, respeito, em outros tempos até sacralidade, ao ato de distribuir Justiça.

A toga dos magistrados e a beca dos membros do Ministério Público e dos advogados, devido ao seu simbolismo e responsabilidade, só deve ser usada quando no exercício solene de suas funções, principalmente nas sessões dos tribunais de justiça e do júri. Para Baudelaire, a explicação sobre o uso da cor preta nas togas é política. Para ele, essa cor é um uniforme da igualdade, além de representar a erudição e dignidade em geral.

A cor preta usada nas vestes dos magistrados, não consiste numa ética da sua função, mas porque, sendo o preto definido como ausência de cor, tem a capacidade de absorver todos os raios luminosos e não refletir nenhum, assemelhando à figura do juiz que coloca um fim a todas as questões e demandas, sendo imparcial em relação às pessoas e aos fatos. Assim, a sociedade passa a depositar na pessoa do juiz toda a esperança, a confiança de que ele solucionará as pendências surgidas pelos conflitos humanos com imparcialidade.

Se por um lado a toga é vista sob o aspecto apontado (poder), por outro é ela que carrega na sua história a nobreza de ser o principal símbolo da Justiça, trazendo uma carga de compromissos e responsabilidades inerentes ao seu uso.

O uso da toga em manifestações de cunho político é profanação do símbolo da Justiça.

Siro Darlan de Oliveira

é desembargador do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) e membro da AJD (Associação Juízes para a Democracia).

Radar disse:
21 de março de 2016 às 15:31

Poucas palavras, mas de enorme significância. Que o moro e o gilmar leiam.

Professor Edson disse:
21 de março de 2016 às 16:03

Não seja hipócrita, esse texto foi para o primeiro juiz que impediu a posse do chefe do esquema.

Professor Edson disse:
21 de março de 2016 às 16:03

Não seja hipócrita, esse texto foi para o primeiro juiz que impediu a posse do chefe do esquema.

Almir Sater disse:
21 de março de 2016 às 17:15

Ele se acha deus. pois está sempre de preto. Ele sempre assemelha sua figura "à figura do juiz que coloca um fim a todas as questões e demandas". Só que, como é humano, não consegue ser imparcial, pois nenhum humano consegue colocar um fim a todas as questoes e demandas, sempre.

"A cor preta usada nas vestes dos magistrados, não consiste numa ética da sua função, mas porque, sendo o preto definido como ausência de cor, tem a capacidade de absorver todos os raios luminosos e não refletir nenhum, assemelhando à figura do juiz que coloca um fim a todas as questões e demandas, sendo imparcial em relação às pessoas e aos fatos. Assim, a sociedade passa a depositar na pessoa do juiz toda a esperança, a confiança de que ele solucionará as pendências surgidas pelos conflitos humanos com imparcialidade."

Radar disse:
21 de março de 2016 às 18:43

Vai ver se eu estou na esquina. ???

O artigo serve perfeitamente para aqueles que eu citei. Serve para qualquer que se utilize da toga como escudo para a insindicabilidade de seus atos.

E antes que eu me esqueça, vá///bem, deixa pra lá.

afixa disse:
21 de março de 2016 às 20:09

ainda tem coragem de defender eleição para magistraturda no Brasil?

Leonardo BSB disse:
22 de março de 2016 às 05:53

Esse artigo me fez lembrar de um magistrado que gostava de aparecer, indo até a programas de televisão e dando decisões, para dizer o mínimo, muito polêmicas, trazendo inúmeros contratempos à produção de capítulos de dramaturgia. Lembraram de alguém?!

Cândido Neto disse:
22 de março de 2016 às 08:24

Só pode ser piada? O articulista critica a posição de seus colegas mas integra a Associação de Juízes PARA A DEMOCRACIA "concretizou-se em 13 de maio de 1991, com a fundação, nas dependências da Faculdade de Direito da USP".
Vimos semana passada a defesa de um governo curruPTos na Faculdade de Direito da USP mas para além deste fato: juízes têm o papel de "transformar a sociedade"? Democracia via toga???
Siro que subscreve o "Manifesto ASSINADO POR JUÍZES pela Comissão da Verdade"?

Usando uma expressão comum e recente: "isentão"!

Gabriel da Silva Merlin disse:
22 de março de 2016 às 19:58

Deveria é haver o fim da toga, pois os magistrados são servidores públicos comuns como qualquer outro.

Não vejo motivo para que haja essa diferenciação entre eles e os outros servidores.

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