Campelo Filho: Impeachment e a perda do diálogo de coalizão

Vivemos nestes últimos dias, por ocasião do julgamento da então presidente eleita Dilma Rousseff, um momento da história do Brasil que será objeto de discussão e análise através dos séculos. O debate jurídico-político e socioeconômico que envolve a questão deverá permear os discursos, desde as conversas do senso comum, nas mesas de botequins, aos bancos de defesas de teses das Universidades mais conceituadas. O certo, porém, é que, enfim, descobrimos em toda a sua plenitude o funcionamento do sistema presidencialista, edificado sob a égide de uma Constituição Federal de um Estado Democrático de Direito.

A história do processo de impeachment da presidente Dilma pode ser divida em cinco Atos, tal qual uma tragédia shakespeariana, todos entrelaçados, todavia, por uma variante que denominamos perda do diálogo de coalizão, a qual, ao nosso sentir, foi a principal responsável pelo desfecho final. Como é sabido, por expressa previsão legal, a pena capital para a condenação por crime de responsabilidade é a perda do mandato e a declaração de inelegibilidade para cargos públicos.

Dois momentos podem figurar como pontos centrais do primeiro Ato: a situação econômica do país, que atravessa a pior crise de toda a sua história, o que fez com a que a presidente encerrasse o primeiro ano de seu segundo mandato com uma reprovação de 70%, conforme pesquisa do IBOPE, e a falta de apoio político expressivo no Congresso Nacional, tanto na Câmara quanto no Senado.    

Quanto ao primeiro aspecto, diversas foram as manifestações populares que eclodiram por todo o país, dando sinais claros de que parte considerável da população não acreditava mais na política econômica e social do governo, aliado ao fato da operação "lava jato" ter deflagrado a prisão de pessoas ligadas ao partido da presidente, gerando dúvidas, incertezas e insegurança, que são aspectos desalinhados de uma democracia constituída sob o amparo de uma Constituição forte, demandando profundas mudanças na condução da nação.

No que tange ao Congresso Nacional, diferentemente do que ocorrera em seu primeiro mandato, a coligação da presidente não possuía maioria absoluta nas duas casas, o que dificultava uma aprovação de mudanças na Constituição Federal, por exemplo, sem contar que mesmo para manter esta maioria simples, havia a necessidade de que não houvesse deserções em sua base aliada. Uma vida nada fácil para quem já enfrentou dificuldades para aprovar alguns projetos, mesmo tendo maioria nas duas casas, como ocorreu no primeiro mandato.

Toda esta conjuntura política, social e econômica fez com que vários pedidos de impeachment fossem protocolados na Câmara dos Deputados, cerca de 50 pedidos entre fevereiro de 2015 e abril de 2016, um número assustador, considerando que entre 2010 e 2013 houve apenas três pedidos.

O segundo Ato também pode ser dividido em dois momentos: o primeiro, consistente na reprovação das contas da presidente da República pelo Tribunal de Contas da União, fato que não ocorria desde 1937, e o segundo corresponde justamente ao recebimento pelo então presidente da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha, de um dos pedidos de impeachment, que se baseava justamente naquela decisão.

A partir daí temos o terceiro Ato, que é o processamento do impeachment na Câmara dos Deputados, culminando com o julgamento e deliberação de que o processo fosse remetido ao Senado.

O quarto Ato, que a esta altura já identifica a crônica de uma tragédia anunciada, divide-se em duas partes. Na primeira os senadores decidem pelo afastamento da presidente, ocasião em que assume o seu vice Michel Temer. Na segunda fase, sob a presidência do ministro Ricardo Lewandowiski, presidente da Suprema Corte brasileira, o Senado julga definitivamente a presidente Dilma Rousseff e a condena pela prática de crime de responsabilidade, aplicando-lhe a pena de perda do mandato de presidente da República, para o qual fora eleita.

Durante toda a tragédia, a protagonista, a ex-presidente Dilma, bradou aos quatro cantos que seu algoz foi justamente o então presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, que determinou o processamento do pedido de impeachment. Reclamou que tudo fez parte de um golpe orquestrado para derruba-la do poder, para o qual havia sido legitimamente eleita, defendo, no mérito, que não praticara crime de responsabilidade algum, e que por isso mesmo, a sua condenação, caso fosse efetivada, como de fato o foi, seria eivada de vícios, uma injustiça e um crime que se cometia.

Eis aí, contudo, o erro da presidente, e o quinto Ato, magistralmente construído, como só Shakespeare em sua genialidade poderia conceber, exsurge para espanto de todos, inesperadamente, servindo de exemplo para a própria presidente apenada! E aqui fazemos uma pausa para que o gran finale possa descortinar-se com uma anunciação!

De fato, a ex-presidente adotou uma linha de defesa na lógica do tudo-ou-nada, ela e seus aliados não conseguiram enxergar (ou compreender) o verdadeiro cerne do problema. Era preciso que compreendessem o funcionamento do sistema presidencialista, que é pautado, se se quer que funcione adequadamente, no diálogo de coalizão. Sem ele não há como governar. O governo da ex-presidente perdeu esse diálogo de coalizão e não conseguiu vislumbrar que ali perdera também a governabilidade, e sem esta, neste sistema, é o mesmo que andar em um carro desgovernado ladeira abaixo: não se sabe onde irá parar e tampouco em que momento.

A defesa com base no tudo-ou-nada apenas acentuou a perda do diálogo de coalizão, uma vez que, ao invés de buscar uma (re)aproximação da base e uma (re)união de todos, afastava ainda mais, cada vez mais.

No sistema presidencialista é preciso habilidade para saber ouvir e saber calar. É preciso humildade (que não significa subserviência) para reconhecer erros, voltar atrás, andar de lado, parar, enfim, é preciso realizar o diálogo de coalizão!

Salvo se tiver uma maioria absolutamente tranquila de aliados no Congresso, pode o presidente querer enfrenta-lo com arrogância e destemor, o que ainda assim, em alguns momentos, não evitará possíveis dissabores.

A ex-presidente já havia vivenciado essa experiência no primeiro mandato, quando mesmo com a maioria absoluta no Congresso, teve dificuldades, por exemplo, com o projeto dos royalties do petróleo e com a medida provisória do Código Florestal. E o que dizer se, em seu segundo mandato, a situação era deveras mais difícil?

Abrem-se as cortinas e o final, quinto e último Ato, exsurge com uma lição, justamente no ponto em que a presidente Dilma pecou. O Senado, com o conhecimento de que no sistema presidencialista atual é condição sine qua non da governabilidade a existência do diálogo de coalizão, como quem age com benevolência e misericórdia, deixa de execrar da vida pública a apenada, para conceder-lhe um paliativo, uma espécie de salvo conduto, desmembrou a punição máxima em duas distintas e a absolveu da mais branda. A ex-presidente não se tornaria mais inelegível, apenas perderia o seu mandato! Uma sinalização para abertura do diálogo futuro dentro do Congresso com o novo presidente, uma demonstração de que no atual modelo não se pode radicalizar se se quer manter-se dentro dele.

A tragédia se encerra, pois, com uma punição à protagonista que não soube respeitar o sistema, e com uma lição que aponta para qual deveria ter sido a conduta. 

Agora não há mais o que fazer senão aprender definitivamente a lógica desse Sistema e a discussão, doravante, deve ser sobre se este é o modelo ideal para o Brasil!

Francisco Soares Campelo Filho

é advogado e professor da Escola Superior da Magistratura do Estado do Piauí (Esmepi). Doutorando em Direito e Políticas Publicas pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), mestre em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e membro da Comissão de Ensino Jurídico do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil.

C.C.B. disse:
05 de setembro de 2016 às 19:57

O articulista está correto em destacar que o governo Dilma perdeu o diálogo com a coalização. Ao final, o maior motivo para sua derrocada.
Agora pensando no futuro, todo o sistema político deveria ser reformado, a começar do sistema de governo.
Ou se altera esse presidencialismo de coalização, ou jamais um governo terá estabilidade.

Cristovão cassino disse:
05 de setembro de 2016 às 22:23

Mestre, poderia descrever-me a conduta típica, ilícita, antijurídica e culpável praticada por Dilma Rousseff ou o para o senhor o "conjunto da obra" justifica recorrer-se à ultima ratio?

Gryphon disse:
06 de setembro de 2016 às 00:25

Artigo bom, mas o autor esqueceu de responder a questão mais óbvia do contexto:

"diálogo de coalizão é possível sem mensalão? Se sim, como?"

Sim, porque enquanto o PT pagou o dinheirinho do PP PMDB etc, APROVOU TUDO que quis. O problema do "diálogo de coalizão" só começou quando secou a fonte dos recursos.
Explica aí para nós, doutor. Desde já agradeço!

André L Araújo disse:
06 de setembro de 2016 às 13:50

Ao meu ver, se entendi bem, o texto corrobora com um posicionamento que ainda estou desenvolvendo. Na minha opinião, a ex-presidenta Dilma caiu no exato momento que o processo de impeachment foi admitido, pois já faltava a ela força política para se manter no cargo. Desse modo, tal processo foi essencialmente político, restando como jurídico apenas a justificativa para sua instauração.
Nesse sentido, achei brilhante quando o senhor trouxe o elemento "diálogo de coalizão" para o entendimento desse complicado processo de impedimento.
Não se pode olvidar que o governo do Partido dos Trabalhadores sempre encontrou resistência em sua governabilidade, por supostamente ir de encontro aos ideários de uma determinada classe política mais tradicional, mas o que se viu no governo Dilma, diferentemente do de Lula, é que aquela centralizou muito o poder, de forma que enfraqueceu alianças importantes.
Dentro dessas alianças enfraquecidas, o pecado capital cometido pela ex-presidenta foi não agradar ao PMDB, que notadamente tem maioria de representantes Brasil afora, configurando um partido chave para qualquer governante.
Mas, dentro de todos esses elementos, o que parece mais evidente, e o seu texto reforça isto, é que o dito crime de responsabilidade ficou totalmente em segundo plano, tanto que após o encerramento do processo foi promulgada a Lei 13.332/2016 que autoriza o que foi apelidado de "pedalada fiscal".
Em outras palavras, parece que o impedimento teve como objetivo pura e simplesmente afastar a ex-presidenta Dilma do poder e, consequentemente, o Partido dos Trabalhadores.
Por fim, gostaria de lhe parabenizar pelo artigo bem escrito e fundamentado.

Campelo Filho disse:
06 de setembro de 2016 às 15:51

Caro advogado, Dr. Gryphon:
Muito pertinente e perspicaz sua observação, que ao meu sentir necessita de uma grande reflexão e nos remete a uma extraordinária obra de 1864: “Diálogo no inferno entre Maquiavel e Montesquieu” de Maurice Joly. Nesta obra o filósofo francês faz um debate muito interessante entre os dois, cada um defendendo o seu modelo de Governo.
É nesse sentir que encerei meu artigo, aduzindo que o mais importante, agora, após ver todo o desenvolvimento do processo de impeachment, seria definir se este é o modelo (Presidencialismo) melhor (ou ideal) para o Brasil.
É possível este modelo no Brasil sem o mensalão? Ou para que este modelo funcione adequadamente necessita de um país em que haja mais educação e mais consciência política?
Como Maquiavel e Montesquieu debateriam sobre isso?

Agradeço pelo seu comentário e penso que só com o debate saudável conseguiremos evoluir.

Campelo Filho disse:
06 de setembro de 2016 às 16:06

Caro Cristovão Cassino,
O artigo não adentra no mérito da "quaestio", não analisa a culpabilidade da então Presidente, até por que este tema já vem sendo exaustivamente debatido, conforme retrato nos primeiros parágrafos.
No artigo, chamo a atenção para o Presidencialismo e defendo que neste modelo a perda do que denominei "diálogo de coalizão" poderá trazer dissabores, como ocorreu, que poderá implicar na perda da governabilidade, que por sua vez termina por inviabilizar o próprio Governo. Este é o Sistema!!! Mas é o melhor para o Brasil?

Agradeço pelo seu comentário e penso que só com o debate saudável conseguiremos evoluir.

Campelo Filho disse:
06 de setembro de 2016 às 16:11

Caro C.C.B.,
Muito bom! Este é o debate que é preciso ser enfrentado. Até que ponto o Presidencialismo no Brasil funciona? É o melhor modelo para o país no contexto em que o mesmo se encontra?
É preciso levar essa discussão para as faculdades, para a sociedade e para o próprio Congresso!

Agradeço pelo seu comentário e penso que só com o debate saudável conseguiremos evoluir.

Marcelo Eulálio disse:
07 de setembro de 2016 às 08:51

Parabéns Professor Campelo Filho, pela excelente reflexão. É preciso repensarmos o "presidencialismo". Nessa forma de governo a "governabilidade" do país não pode ficar refém de uma relação "promíscua" entre o executivo e o legislativo, onde o interesse de um ou de uns poucos prevaleça sobre o interesse de todos. De que forma o "diálogo de coalizão" pode ser construído sem que interesses escusos maculem a relação entre o executivo e o legislativo? Um debate necessário na atual conjuntura!

Cristovão cassino disse:
07 de setembro de 2016 às 11:42

Obrigado pelos esclarecimentos. Parabéns pela serenidade e cortesia com que vem tratando da matéria. Até a próxima.

Campelo Filho disse:
08 de setembro de 2016 às 11:57

Caro André,
Que bom que está estudando sobre o tema e que nossos entendimentos estão caminhando em um mesmo sentido.
Agora, o impeachment é um julgamento político!?
Vamos continuar com esse debate para que a questão possa ser aprofundada ainda mais!
Agradeço pelo seu comentário e penso que só com o debate saudável conseguiremos evoluir.

Campelo Filho disse:
08 de setembro de 2016 às 16:34

Caro Dr. Marcelo Eulálio,

Excelente o seu questionamento e este é justamente o cerne do problema. Será que a relação (Diálogo de Coalizão) deve, necessariamente, ser promíscua no Presidencialismo? Apenas quando se tiver a compreensão de que o interesse de todos (e não de uns poucos) deve prevalecer, o diálogo será sincero e honesto, ficando no campo das ideias visando o bem comum!

Agradeço por sua manifestação, por demais importante para o fomento desse debate.

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