Filme sobre “lava jato” simplifica história e achata personagens

Desde o lançamento de Tropa de Elite, em 2007, o cinema brasileiro aposta em produzir retratos irreais de policiais. Recheado de clichês, Polícia Federal – a Lei é para Todos, do diretor Marcelo Antunez, é o mais novo descendente dessa linhagem.

10 anos de policiais
no cinema nacional
Tropa de Elite (2007)
Segurança Nacional (2010)
Tropa de Elite 2 (2010)
Federal (2010)
Assalto ao Banco Central (2011)
Operações Especiais (2014)
Polícia Federal – a Lei é
para Todos
(2017)

A ConJur assistiu à pré-estreia do filme em São Paulo, a convite da Associação dos Delegados da Polícia Federal (ADPF). A sessão aconteceu no cinema do shopping Eldorado e ocupou todas as oito salas convencionais do Cinemark, com capacidade para 1.478 pessoas.

O filme conta histórias do início da operação “lava jato” sob o ponto de vista dos delegados que trabalharam nas investigações em Curitiba — e só deles. O filme tem 121 minutos e dá pra contar nos dedos as aparições de agentes da PF, que fazem breves figurações. Todos os momentos são conduzidos pelos delegados, que aproveitam espaços do roteiro para disparar chavões do senso comum, como “o sistema é feito para não funcionar”; “esse país…”; ou “me sinto como se estivesse dando socos num muro”.

Mas o nível da discussão fica claro já nos primeiros segundos de filme, quando aparece um aviso: “Os fatos aqui narrados aconteceram entre 22 de abril de 1500 e março de 2016”.

A história é conduzida pelo delegado Ivan Romano, vivido por Antonio Calloni. A personagem é uma representação do delegado Igor Romário de Paula, coordenador da “lava jato”, mas concentra episódios e conversas protagonizadas também por outros dois profissionais.

Todos os delegados e os dois procuradores da República que aparecem no filme tiveram os nomes trocados. Já os réus, investigados e delatores são chamados pelos nomes, cargos e atividades de verdade mesmo.

Deltan Dallagnol e Carlos Fernando dos Santos Lima viraram Ítalo e Pedro Henrique, e no filme são quase um casal: terminam frases um do outro e quase não aparecerem separados. Marcelo Serrado é Sergio Moro e captou com precisão os trejeitos do magistrado — só não reproduziu o sotaque de Maringá (PR), terra natal de Moro, e preferiu continuar com o carioca mesmo. Como também o fizeram todos os demais atores que interpretam paranaenses.

Divulgação

Divulgação

O roteiro do filme é conduzido pelo bom mocismo dos delegados, sempre por meio de declarações, quase nunca diálogos, com falas de alto teor de responsabilidade cívica. Por isso são necessários pontos de descanso para a história ser explicada.

O delegado Ivan faz o papel de narrador — como o capitão Nascimento de Tropa de Elite —, que também faz um apanhadão dos escândalos de corrupção vividos pelo Brasil desde seu descobrimento, com direito a citação do padre Antônio Vieira e “ao mar de lama de Getúlio Vargas”, expressão usada por Carlos Lacerda quando ele estava em campanha para derrubar o adversário.

Digno de nota que a narração de Ivan vai do “mar de lama” com ilustrações do suicídio de Getúlio para casos que ficaram conhecidos durante o governo Sarney. Os fatos que aconteceram entre 1500 e 2016 tiveram uma pausa entre 1964 e 1985, justamente o período em que o país esteve sob ditadura militar.

Às vezes a narração é interrompida pelas descobertas dos delegados. O “maluco do Júlio”, que na vida real é o delegado Márcio Anselmo, vivido pelo ator Bruno Gomlevsky, é responsável pela maior parte dos avanços importantes da operação. Suas ideias geniais são sempre desenhadas numa lousa e explicadas didaticamente pela delegada Bia, personagem de Flávia Alessandra — representando a delegada Erika Marena.

Sem contar a defesa explícita do ponto de vista dos delegados sobre a “lava jato” e o nojo que eles explicitam de corrupção, o filme poderia ser uma ópera, ou um musical. Os personagens entram em cena, dão a fala e saem. E a fala quase sempre serve para expor o roteiro, nunca para desenhar algum tipo de personalidade nos protagonistas.

O único deles que tem alguma nuance é Júlio, retratado como um descontrolado, mas que precisa estar em casa com os pais, diante da doença da mãe. Os demais se limitam aos papéis que representam.

Ivan é o retrato da sensatez e da letra fria da lei. Partem sempre dele momentos de temperança em relação aos demais investigadores, ávidos para ir para cima dos corruptos. Bia é a mandona, impaciente e desiludida, autora de declarações do tipo “se for pro Supremo, acabou” ou “eles devem achar que a gente é imbecil”.

Lula é um velhaco, o barão ofendido por, tão poderoso, ser desafiado pela audácia dos representantes da lei (“quando eu for eleito de novo, vou me lembrar de cada um de vocês”, diz a um Ivan aborrecido).

Não se pode alegar surpresa com o maniqueísmo do roteiro nem com a defesa de cada passo dado pelos delegados. O filme — cuja produção custou R$ 16 milhões de investidores — conta com apoio quase irrestrito da cúpula da Polícia Federal. 

Pedro Canário

é jornalista.

Marcelo-ADV disse:
31 de agosto de 2017 às 21:28

“A Lei é para todos”.

O nome do filme já releva a falta de fidelidade com a realidade. Em suma: 100% ficção.

S.Bernardelli disse:
31 de agosto de 2017 às 22:59

Não assisti e nem vou perder meu tempo e dinheiro em assistir no CINEMA ou DVD porcaria. Nem para classificação de pior filme Hollywood não entra, pois ainda não inventaram o Oscar de ASSUSTADORAMENTE PIOR FILME.

Zé Machado disse:
01 de setembro de 2017 às 06:54

Caviar para os coxinhas.

Zé Machado disse:
01 de setembro de 2017 às 06:54

Caviar para os coxinhas.

JP Neves disse:
01 de setembro de 2017 às 08:22

Nada mais do que uma peça de propaganda que acalenta o coração de delegados menos famosos que os Procuradores da República. Um auto-afago.

daniel disse:
01 de setembro de 2017 às 08:43

Quem reclama são os comunistas, os quais estão acostumados a fazerem filmes comunistas com verbas públicas (incentivos fiscais) ou de verbas públicas, sempre explorando o coitadismo social e penal. O simbolo do comunismo deveria ser proibido assim como é o do nazismo, afinal comunismo matou muito mais gente, e tanto nazismo como comunismo são regimes péssimos e que pregam a divisão em classes.

daniel disse:
01 de setembro de 2017 às 08:43

Quem reclama são os comunistas, os quais estão acostumados a fazerem filmes comunistas com verbas públicas (incentivos fiscais) ou de verbas públicas, sempre explorando o coitadismo social e penal. O simbolo do comunismo deveria ser proibido assim como é o do nazismo, afinal comunismo matou muito mais gente, e tanto nazismo como comunismo são regimes péssimos e que pregam a divisão em classes.

Marcos Alves Pintar disse:
01 de setembro de 2017 às 09:16

Deve compor o gênero "Rambo moderno", evoluindo-se da artilharia pesada para o "combate ao crime" de caneta e paletó. Inútil em quase todos os aspectos, mas que representa uma evolução no gosto popular em relação aos clássicos da violência e hediondez glamorizados nas décadas de 1980 e 1990.

Palpiteiro da web disse:
01 de setembro de 2017 às 10:35

Vou assistir com certeza e espero que lancem a parte II do filme com a cena da prisão do chefão da quadrilha. Pena que neste filme não foi retratado a condução coercitiva do mafioso...

Drake disse:
01 de setembro de 2017 às 13:13

Até resenha de cinema o Conjur começa a fazer para atacar a Lava-Jato e defender bandidos. Deixemos a bilheteria dizer se o filme é ruim mesmo.

Servidor estadual disse:
01 de setembro de 2017 às 13:47

"Recheado de clichês". Cultura é a glamorizarão dos filmes do tipo Carandiru, onde um homem vende a irmã para pagar as dividas de droga que faz na prisão, /salve Geral, onde uma professora tem um filho drogado que resolve virar motorista do crime organizado e se apaixona pelo líder da quadrilha levando recados para matar pessoas na rua. esses são bons exemplos para a sociedade, ou ainda o recente "escândalo" patrocinado pelo antigo governo, onde pessoas nuas caminham em circulo pelo palco nuas, e a dado momento se agacham e examinam o ânus uma da outra, isso pago com dinheiro publico, isso deve ser cult. No dia em que se pública artigo do prof. Nucci, o CONJUR demonstra parte do preconceito com os órgãos de segurança. Aceita-se que o filme possa ser ruim, como foram os citados acima, mas a rusga imputada aos delegados não se sustenta, pois não foram eles nem o MPF que escreveram a estória, mais, o filme demonstra a parte de cima da investigação, ou para o articulista só trabalha na atividade policial quem faz campana? Não conheço a realidade dos delegados da Polícia Federal, mas não devem ser muito diferente da nossa, efetuamos monitoramento, prisões, diligências, busca e apreensões, etc., embora, reconheço que exista parte da classe que entende que deve ficar no gabinete, mas é uma pequena parcela e em extinção.

Bellbird disse:
01 de setembro de 2017 às 13:47

o filme incomoda o pessoal do Conjur.

O fracasso dos mais famosos advogados em evitar que seus clientes fossem presos gerou esta estranha frustração.
A lava jato continua, quer queiram ou não.

Bellbird disse:
01 de setembro de 2017 às 13:47

o filme incomoda o pessoal do Conjur.

O fracasso dos mais famosos advogados em evitar que seus clientes fossem presos gerou esta estranha frustração.
A lava jato continua, quer queiram ou não.

D. Avlis disse:
01 de setembro de 2017 às 16:02

Participei de um fato retratado no filme e me impressionou o respeito à fidedignidade até com pequenos detalhes como a tipografia de despachos e os processos eletrônicos. As únicas críticas que poderia fazer ao filme seriam a excessiva proximidade temporal com os fatos (é tudo ainda muito recente) e a falta de desenvolvimento da personalidade de alguns personagens (a delegada faz as vezes do público para explicarem detalhes e ficou parecendo desinformada em algumas cenas). De resto, impossível fugir de alguns clichês do gênero. Mas, tirando isso, é um filme que vai ficar para a história. Trata com o máximo de isenção e, de certa forma, expõe ambos os lados e algumas críticas feitas à operação, como a polarização, a suposta seletividade, dentre outros aspectos. É certo que tende um pouco para o lado dos heróis, o que faz com que alguns "vilões" sejam pintados até de forma caricata. Afinal, o nome do filme é "Polícia Federal". Aconselho a todos que vejam, para prestigiar a indústria nacional e a diversidade de gêneros (não apenas as comedinhas da Globo Filmes, do Leandro Hassum e cia). Tirem suas próprias conclusões para ver se concordam comigo com o fato de o filme não ser panfletário nem propagandista. Parece um filme policial como vários que vemos de Hollywood. Um bom programa para qualquer matiz ideológico ou político-partidário. Uma curiosidade: usaram a imagem do prédio do Ministério Público do Estado do Paraná ao invés de usar a do MPF.

Marcelo-ADV disse:
01 de setembro de 2017 às 18:05

O filme explica como o Brasil se tornou a República dos Vazamentos? Três anos de vazamentos?

“A Lei é para todos” = 100% ficção.

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