Transformar a cracolândia em um comercial da Doriana funciona?

Talvez você se recorde: os comerciais da margarina “Doriana” suscitavam o imaginário da família perfeita, limpa, feliz, com 32 dentes, no melhor imaginário burguês americanizado. Terminavam com o jingle: “Os elogios são para você”. Confira:

Spacca

Agradavam o público. Tanto assim que embalavam as famílias na construção de um imaginário que justifica a ação: queremos ser iguais. A iniciativa higienista do prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB), quer transformar o centro da cidade em um local aprazível aos olhos e, quem sabe, comercialmente viável, simplesmente varrendo a questão social para baixo do tapete e, também, valendo-se do discurso medicamentoso-higienista da salvação dos desviados, impondo tratamento compulsório. Tudo isso em nome do “bem”, e, claro, ao arrepio das construções democráticas[1].

As cenas da destruição da casa (sim, casa, porque moram na rua) das pessoas, iguais a você e a nós, lembra-nos as cenas do filme MadMax, a saber, hordas de gente “feia”, “sem cuidados”, vivendo na “barbárie”, lutando por sobrevivência, que saiu correndo para fugir da cruzada do bem, da salvação, na ampla inversão do discurso dos Direitos Humanos. A desocupação (como cinicamente dizem) foi assistida por telespectadores estáticos, fascinados pelo sofrimento transmitido ao vivo, enquanto tomavam o café da manhã de domingo, mas com manteiga.

O dito fundamento humanitário se manifesta pela pasteurização, pela neutralidade dos discursos de Direitos Humanos, a qual funciona como mecanismo da ideologia intervencionista, com interesses utilitaristas latentes na varredura que se espetacularizou e, por básico, diversos do discurso manifesto.

O discurso manifesto é o de ajuda humanitária. Mas é o fundamento de uma intervenção capaz de imaginariamente aplacar a culpa e justificar a opressão com a qual, no fundo, se compactua[2]. As intervenções ditas humanitárias escondem os interesses econômicos silenciados no discurso manifesto, como no caso da cracolândia, em que o populismo, a campanha para presidência, o mercado imobiliário e o bom-mocismo é bem mais importante do que a pretensa implementação de qualidade de vida para pessoas que precisam de ajuda de saúde pública e não penal. Foram enxotados e não acolhidos; foram presos e não encaminhados.

A política humanitária é o lema que faz caminhar o povo composto de almas belas no caminho de uma finalidade mal-dita, do qual se fazem instrumento. Congrega, sob a mesma bandeira, desde religiosos pseudo-assépticos ideologicamente até desiludidos agnósticos, fascistas de direita e revolucionários de esquerda, em nome da causa humanitária.

Este engajamento em nome dos Direitos Humanos, todavia, cobra um preço pouco percebido pela maioria jogada na inautenticidade, para usar a gramática heideggeriana, porque desconsidera o sujeito em seu estado constitutivo. Este movimento humanitário invoca a necessidade de salvação, suspendendo os limites democráticos. Serve de instrumento alienado da opressão de um modelo de cidade, de “cidadão de bem” que não quer engajar o sujeito, mas excluir mediante tratamento compulsório. Se você acha que é bom e está tudo certo, deveria compreender os desafios da luta contra instituições totais. Mas pode ser pedir demais, porque sedado pelo discurso do bem, muitos embarcam no discurso da morte[3] — de agentes econômicos nulos. Afinal, são corpos que se pode tocar, em que o limite da dignidade não é mais reconhecido.

Políticas públicas sérias não se fazem com transmissão ao vivo da pseudo limpeza dos “lixos humanos” como os partidários da intervenção havida se referem ao povo que por diversas razões, atira-se nas drogas proibidas, enquanto boa parte acordou e tomou seus remédios (ansiolíticos, analgésicos, enfim, tarja preta) para dar conta da realidade. A diferença é que os perseguidos não têm o dinheiro necessário para fingir uma vida Doriana, típica dos comerciais que, como tais, são da ordem do imaginário e da ficção. O cinismo do bem rompeu os limites do ético. Aniquilar gente tem outro nome na história.

P.S. Confira o vídeo apresentado pelas alunas de Criminologia do Curso de Direito da UFSC: Heloísa Luz das Neves e Juliana Patricia Meyer.


[1] WINTER, Gustavo Schlupp. Internação Compulsória de Dependentes de Drogas. Florianópolis: Empório do Direito, 2016.
[2] ZIZEK, Slavoj. Elogio da Intolerância. Lisboa: Relógio D’Água, 2006, p. 14
[3] MORAIS DA ROSA, Alexandre; AMARAL, Augusto Jobim do. Cultura da Punição: a ostentação do horror. Florianópolis: Empório do Direito, 2017.

Alexandre Morais da Rosa

é juiz de Direito de 2º grau do TJ-SC, doutor em Direito e professor da Univali (Universidade do Vale do Itajaí).

Rejane Guimarães Amarante disse:
01 de julho de 2017 às 12:17

Se nos anos 1980, quando começaram a exibir comerciais de margarina do tipo Doriana, as pessoas buscavam imitar o padrão, hoje é quase impossível. A situação econômica mudou drasticamente. A classe média está deixando de existir, só ela não percebe isso. A continuar essa "política", não vai demorar muito para termos uma minoria abastada e milhões de miseráveis. Não sei qual a vantagem de dispersar por vários bairros um problema que estava centralizado numa determinada região. É certo que, na prática, é difícil resolver a questão da internação compulsória. É necessário propiciar algum tratamento antes de implementar programas. As pessoas precisam estar sóbrias para aderir. Cheguei a propor na conta do Twitter do General Villas Boas que o Exército instalasse hospitais de campanha na Cracolândia. Seria um meio termo entre a internação compulsória e propiciar tratamento. O que mais eu posso fazer ?

hammer eduardo disse:
01 de julho de 2017 às 13:03

O artigo nobre Articulista navega por mares variados ate com licença poética de mencionar filmes classe B de Hollywood.
Na verdade o Prefeito João Doria dentro de sua maratona de parecer artista de cinema e poder sonhar com o Planalto em 2018 ( nem tão impossível assim considerando-se a Hiroxima moral que se abateu sobre aquele amontoado de ratos sem bandeira chamado de PSDB), resolveu tentar na marra algo que ate as pedras da rua sabiam que não ia dar certo , e deu no que deu . Faltou alguém soprar no ouvido dele que o tratamento de um dependente químico custa uma FORTUNA e não existem vagas disponíveis para aquela quantidade de gente nem em São Paulo nem no Acre. Prender pura e simplesmente também é inviável pois o sistema carcerário brasileiro esta estourado a anos e dai vem as decisões absurdas de soltar vagabundos condenados a trocentos anos de cana depois de um cada vez mais breve período atrás das grades. É a nossa triste realidade.
Doria destampou a garrafa do gênio do mal e agora não sabe como convencer o dito cujo a voltar para dentro dela . Foi muito afoito num assunto complicado e acima de tudo muito mal assessorado.
Por fim também temos que lembrar que as tais "Pessoas de bem" , cada vez mais marginalizadas pelo estado parasita e insaciável brasileiro , não podem continuar expostas a esses grupos de "tadinhos sociais" que sem duvida apresentam ameaça explicita de violência para elas .

Boa sorte Doria , sem passar com cuidado neste mata-burro, fica difícil emplacar 2018 mesmo retocando a maquiagem e reforçando no laquê.

Eduardo. Adv. disse:
01 de julho de 2017 às 16:18

Às vezes tenho a mesma percepção dos "leigos": o Direito é improdutivo.
"A iniciativa higienista do prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB), quer transformar o centro da cidade em um local aprazível aos olhos e, quem sabe, comercialmente viável, simplesmente varrendo a questão social para baixo do tapete e, também, valendo-se do discurso medicamentoso-higienista da salvação dos desviados, impondo tratamento compulsório. Tudo isso em nome do “bem”, e, claro, ao arrepio das construções democráticas[1].".
Há uma publicidade institucional da Prefeitura cujo enredo conta o passado de um jovem, um passado de alegrias, companhias saudáveis... e quando ele se olha no espelho não se reconhece no reflexo do farrapo que o crack o transformou. Pareceu-me capaz de sensibilizar.
Para compreender quão perniciosa é a crackolândia é necessário conhecer São Paulo. Dias desses, um grande jornal paulista fez uma comparação entre as ruas dos Campos Elísios hoje e no ano de 1985.... Quantos passeios eu, da periferia, fiz ao redor da Júlio Prestes, Princesa Isabel...
Algo precisa ser feito e não houve ação positiva nos últimos quatro anos. Aliás, foram quatro anos de puro abandono. Há outros bairros em que a pobreza e a prosperidade convivem. Mas na crackolândia há uma só realidade: miséria e escravidão absolutas.
Tenho certeza de que Santa Catarina seria pouco atrativa, inviável, se reproduzisse os cenários que hoje fazem parte do cotidiano do Centro Velho paulistano.

Rivadávia Rosa disse:
01 de julho de 2017 às 17:42

É o dilema objeto de críticas contundentes pelos militantes: se o Poder Pública faz é criticado, se não faz também o é.
O fato é que a ação desenvolvida pelo prefeito – é necessária e se revela de muita coragem ou é melhor alimentar/manter a degradação [des] humana como se fosse um museu a céu aberto?
Ademais, tudo deve operar, sobretudo as ações públicas sob a vista da mídia, de forma transparente.

Observador.. disse:
01 de julho de 2017 às 20:34

O imaginário da família perfeita e burguesa, americanizada.....
Tais termos parecem ter saído dos anos 60 do século passado, que buscavam nos anos 20 suas aspirações para este tipo de crítica.

Enfim.Não se pode ter ideais? Não se pode buscar o melhor?
Ter humanidade é deixar as pessoas se destruírem a céu aberto como se fosse em um zoológico?

Não entendo estes p ensamentos que se travestem de Direitos Humanos.
Assisti a filha de um casal de conhecidos, moça jovem, bela e estudante, ser destruída pelo crack....e levou a família junto. Nem todo o carinho da família a convencia a se tratar...a querer sair da sarjeta...sempre refém de traficantes e abusadores.....
De fato ela tinha todos os dentes...e sobraram poucos.
Não entendo as críticas. Se uma pessoa for salva deste destino cruel...o Estado terá feito uma grande coisa.
Uma vida vale mais do que qualquer discurso bonito.

O não fazer nada parece que virou "Direitos Humanos" no Brasil.
Os bandidos aplaudem.
Não é à toa que temos um mar de crimes (60.000homicídos/ano) e 3 por cento de elucidações dos casos.
Vivemos no mundo do faz de conta.
Enfrentar os problemas não dá mídia, é complexo, é difícil.....e demora para ser ter resultados.

Fico imaginando o discurso de Churchill "We shall not surrender" em um país como o Brasil de hoje.
Seria linchado , metaforicamente, por nossos pensadores.

Observador.. disse:
01 de julho de 2017 às 20:40

Tem o outro (foram 3 grandes discursos) que seria "ainda pior"...
O Blood, toil, tears, and sweat .
Imagine um governante brasileiro falando algo assim......
E nem morriam tantos ingleses nos bombardeios de Londres quanto o número de brasileiros tristemente perdidos para os homicídios e para as drogas.

Enfim...
Lamentável.

Eduardo. Adv. disse:
03 de julho de 2017 às 12:55

"Não sei qual a vantagem de dispersar por vários bairros um problema que estava centralizado numa determinada região."
Acrescento ao meu comentários as provocações de hammer eduardo (Consultor).
Ontem, o Fantástico expôs algo que muitos já sabem: o tráfico ocorre porque os agentes estatais lucram com ele. De integrantes do Legislativo Nacional até policiais e vereadores (ou vice-versa).
Nos últimos quatro anos, porém, um dado adicional está aí. Um grupo político trocou a propaganda "Doriana" pela degradação proposital de áreas já desinteressantes.
Que o Centro Velho já não despertava interesse há muito tempo é algo sabido. Bastava somente preservar, cuidar e manter condições mínimas para a região. Tenho vergonha quando vejo turistas posando para fotos na Catedral da Sé, no Teatro Municipal...
Nos últimos anos, porém, apostaram na degradação total! Degrada-se, gera o abandono definitivo (de moradores e pequenos comerciantes) e ao final, destinam tudo a quem faça política.
Moradia? Analisem o cadastro da Cohab! Milhares de desatendidos ao longo de mais de trinta anos e gente com menos de 25 anos sendo contemplada por integrar "movimentos sociais".
Estamos literalmente rifados por Legislativo, Executivo, Judiciário e Ministério Público.
O "João Trabaiadô" finge que resolve? Já estamos no lucro...

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