Ao absolver a empresa de energia chinesa State Grid de pagar R$ 100 mil por assédio moral de um diretor contra uma executiva, o desembargador Roque Lucarelli Dattoli, do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, afirmou que o termo em inglês “bitch” não quer dizer “prostituta” — ainda que vários dicionários lhe atribuam esse significado. E mais: o magistrado disse que o substantivo não é necessariamente pejorativo, não sendo possível concluir que o administrador quis ofender a honra sexual da mulher.
A executiva moveu reclamação contra a companhia alegando ter sofrido assédio moral de um diretor chinês em três ocasiões. Em uma delas, ele respondeu a uma sugestão dela em um e-mail (no qual havia várias outras pessoas copiadas) dizendo “don’t be childish” (não seja infantil). Em outra ocasião, discutiu rispidamente com a executiva e apontou o dedo em riste para ela, gritando para que ela se calasse.
Numa terceira vez, a mulher ouviu uma conversa do diretor e dois funcionários de seu departamento. O chinês estava ordenando que eles tomassem medidas que contrariavam os procedimentos do Operador Nacional do Sistema Elétrico. Como era área de sua responsabilidade, a mulher pediu para participar da discussão. Porém, o diretor aproximou-se do rosto dela, gritou para que ela se retirasse e, após ela virar para ir embora, chamou-a de “bitch”. Ela pediu demissão e, argumentando que o termo significa “cadela” ou “prostituta”, foi à Justiça contra a empresa.
Em sua defesa, a empresa sustentou que a executiva era uma pessoa difícil de se lidar no trabalho e que foram três episódios isolados. A companhia também disse que diretor é chinês e não fala português e que ele contou que não xingou a autora, apenas murmurou para si próprio outra expressão, não ofensiva a ela.
Em primeira instância, a State Grid foi condenada a pagar R$ 150 mil à executiva, sendo R$ 100 mil de indenização por danos morais, já que a ofensa foi enquadrada como média. A mulher recorreu, pedindo para que o fato fosse classificado como ofensa gravíssima, e a indenização aumentada para um valor entre R$ 449 mil e R$ 1,12 milhão, já que seu salário era de R$ 22,5 mil. Por sua vez, a empresa afirmou que o valor era desproporcional e que não havia prova das ofensas.
"Cadela", não "prostituta"
O relator do caso no TRT-1, desembargador Jorge Orlando Sereno Ramos, votou por reduzir a indenização por danos morais para R$ 10 mil. Porém, prevaleceu o voto divergente do desembargador Roque Lucarelli Dattoli, e a State Grid foi absolvida de pagar a reparação. Para ele, a executiva não se ofendeu com a resposta no e-mail, uma vez que iniciou sua resposta agradecendo pelos comentários do diretor (thanks for your comments). E o magistrado avaliou que ela não provou as outras duas agressões verbais. Isso porque as testemunhas não confirmaram a versão da autora. Datolli não considerou suficientes dois comunicados entregues ao departamento de recursos humanos, assinados por outros cinco funcionários.
O desembargador também afirmou, na sessão de julgamento, que o termo bitch não é necessariamente pejorativo. Como exemplo, citou a música The bitch is back, de Elton John. Na canção, o artista diz "I'm a bitch, the bitch is back" (eu sou uma cadela/prostituta, a cadela/prostituta está de volta).
No acórdão, Roque Dattoli, na “tentativa de evitar desnecessários embargos de declaração”, afirmou que a autora traduziu “bitch” como “cadela/prostituta”. Só que, para o magistrado, esse não é o real significado da palavra.
“Sem dúvida que, em seu sentido mais ‘literal’, ‘bitch’ corresponde a ‘cadela’ — a fêmea do cachorro. Entretanto, nenhum dos melhores dicionários da língua inglesa associa a palavra ‘bitch’ a ‘prostituta’ (‘whore’; ‘prostitute’; ‘harlot’). Trata-se, portanto, de significado que a reclamante, guiando-se pela defesa de seus interesses, propõe, mas que não poderia ser aceito pelo julgador. Inclusive, a palavra ‘bitch’, em sentido não elogioso, é utilizada, na língua inglesa, mesmo em relação a pessoas do sexo masculino, significando alguém excessivamente subserviente, que se submete aos desmandos de outrem”, disse o desembargador.
Ele não citou as fontes que usou. O dicionário Merriam-Webster define “bitch” como “a lewd or imoral woman” ("uma mulher lasciva e imoral"). O dicionário de gírias The Concise New Partridge Dictionary of Slang and Unconventional English explica o substantivo como “a sexually submissive person” ("uma pessoa sexualmente submissa"). O Password traduz o termo como “prostituta”. Já o Michaelis diz que ele significa “meretriz, puta”.
Ainda assim, o desembargador não acredita que o chinês tenha desejado atacar a honra sexual da executiva. “Em verdade, possível interpretar de várias formas a suposta ofensa dirigida à reclamante. Não haveria porque imaginar que, dirigindo-se à reclamante, o sr. Liuwei tivesse em mente alguma ideia a respeito de sua vida particular — e a reclamante se refere, na petição inicial, a ‘ofensa sexual’.”
Clique aqui para ler a íntegra da decisão.
Processo 0101662-58-2016.5.01.0045

Se o autor do vencedor fosse chamado de algum nome pouco civilizado, não ia exigir "obesa indenização"?
Uma decisão ruim, de uma Justiça ruim, com procedimentos ruins.
Se o autor do vencedor fosse chamado de algum nome pouco civilizado, não ia exigir "obesa indenização"?
Uma decisão ruim, de uma Justiça ruim, com procedimentos ruins.
Já diriam alguns "tempos surreais pedem decisões surreais".
Nesse caso, temos uma decisão dadaísta.
Alegar que não há provas das ofensas é uma coisa. Não há como julgar sem ver os autos, etc.
Agora, dizer que "bitch" não significa prostituta? E mesmo que não significasse literalmente prostituta (e significa - qualquer um com 3 meses de um cursinho mequetrefe de inglês sabe disso), significaria "cadela" de uma maneira extremamente ofensiva.
Ou "son of a bitch" é um termo elogioso em inglês? Ou neutro? Será que o Exmo. magistrado se arriscaria a usar esse termo (bitch) ao dirigir-se a alguma autoridade de qualquer país de língua inglesa?
Surrealismo é pouco.
Decisão que nenhum respeito merece, de lavra de quem somente horror inspira. E se um advogado chamasse um magistrado de "son of a dog", tudo bem? "Bitch" é cadela, "dog" cachorro, e as palavras e atitudes mencionadas são injuriosas e caracterizam assédio moral. Porém, por que tanta tolerância com um estrangeiro que vem aqui desrespeitar uma executiva? Será que se os fatos envolvessem um magistrado a corte teria sido tão tolerante? Essa corte merece um protesto popular maciço num dia de sessão, do lado de fora, com apitos e cartazes reproduzindo as expressões que suas excelências acharam "normais".
this judge is a son of a bitch
O nobre desembargador ou é muito estulto para o cargo que ocupa, ou está mancomunado com a empresa ré.
Obviamente o contexto em que se diz um termo é relevante para sua análise. Se um veterinário se refere a uma cadela como "bitch", obviamente não há nenhum sentido pejorativo nisso. Mas nenhum falante da língua inglesa consideraria que chamar uma mulher de "bitch" nesse contexto não é utilizar o termo de forma depreciativa.
Agora, se chamassem o magistrado de "veado", gostaria de saber se ele se sentiria ofendido ou não, porque, afinal de contas, veado é só um animal silvestre... Ou se um americano xingasse ele de "son of a bitch", se ele manteria o mesmo entendimento a respeito do termo. Com o corporativismo do Judiciário, ai daquele que fizesse isso. Com certeza acabaria pagando algumas centenas de milhares de reais de indenização...
E assim vamos caminhando.
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