* Artigo originalmente publicado na edição desta terça-feira (17/8) do jornal Folha de S.Paulo.
A intensidade dos últimos anos legou um ambiente institucional tensionado, onde os limites vêm sendo testados continuamente e parte da sociedade tem demandado ações enérgicas, muitas vezes desconhecendo os limites e raios de ação de cada um dos atores.
É o caso do procurador-geral da República (PGR), que, mesmo acumulando competências e responsabilidades, não pode tudo. A linha divisória é claramente delimitada pela Constituição e leis. Cinge-se, especialmente, como titular da ação penal pública, nos crimes comuns, contra autoridades com prerrogativa de foro no Supremo Tribunal Federal, como o presidente da República, senadores e deputados federais.
Não tem atribuição, de ofício, para processar quem ofende a honra de terceiros, salvo se a vítima for chefe de Poder (antiga Lei de Segurança Nacional). Se não for, dependerá de representação do ofendido. Também não pode processar aquelas autoridades por crimes de responsabilidade porque é da competência do Congresso Nacional. De regra, não é dado ao PGR compartilhar da retórica política (ainda que a crítica seja ácida) consistente no diálogo, em busca de consenso social, típica dos Poderes Legislativo e Executivo.
Cabe ao PGR ficar adstrito ao discurso jurídico inerente ao sistema de Justiça que submete, repita-se, submete as duas magistraturas ao império da lei, à norma, ao Estado de Direito (de segurança jurídica, de verdade e de memória).
Quando o PGR sai do discurso jurídico e passa à retórica política, igualando-se aos representantes eleitos, criminaliza-se a política. Usando a norma para submeter contrários, cassando mandatários, obstando o desenvolvimento sustentável, econômico, ambiental e social, inclusive com a paralisação de obras.
Podendo até embaraçar o enfrentamento da pandemia com discussões marcadas pelas incertezas empíricas alheias às relações jurídicas, em tese, para cumprir as sagradas funções que lhe foram confiadas pela Carta Magna.
Quando a atuação jurídica se imiscui com o dia a dia da retórica política, é possível invocar a Constituição para defender absurdos. Foi nela que o vice-presidente e senador norte-americano John Caldwell Calhoun (1782-1850) se baseou para sustentar sua posição antiabolicionista em sua época. Foi assim que constatamos, em 34 anos de carreira pública, que certos excessos e violações à Constituição Federal e à lei orgânica que estrutura e organiza o Ministério Público resultaram em graves lesões aos princípios constitucionais, mormente republicano e da administração pública, com reflexos nocivos nos direitos e garantias fundamentais, levando ao questionamento da amplitude da instituição.
Na gestão atual, buscamos o aprimoramento institucional, propiciando a todos os membros e servidores iguais oportunidades, sem odiosas preferências e facciosismos; aos cidadãos, inclusive às minorias, o respeito aos seus direitos e garantias, ao devido processo legal; às empresas, a liberdade de iniciativa e de concorrência; aos trabalhadores, a sua proteção com a geração de empregos; a todos, a liberdade de expressão.
Fortalecemos os órgãos internos de combate à corrupção, instalando os Gaecos federais (Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), investigamos e processamos centenas de pessoas com prerrogativa de foro nos tribunais superiores, recuperando ativos bilionários.
Em 22 meses promovemos as campanhas "Respeito" e "Diversidade" em busca da pacificação social, renovamos os quadros e o programa da Escola Superior, com a adoção da deontologia do MP, e antes mesmo do reconhecimento da pandemia, constituímos o Giac (Gabinete Integrado de Acompanhamento) e centralizamos as demandas buscando otimizar o seu atendimento.
Superamos, quantitativa e qualitativamente, todas as expectativas, graças aos colegas de todos os ramos do MP brasileiro, sem exibicionismos, pois nosso dever é promover Justiça com independência funcional e impessoalidade.
É preciso sobriedade e sabedoria para retomarmos, superando o luto vivido por milhões de famílias e o drama do desemprego sem abrir mão da democracia, que foi por décadas ansiada e buscada. Temos de nos apegar ao combate de problemas reais e ao cuidado para não apagar fogo com gasolina. O Brasil vive um momento onde todas as cordas estão esticadas. E cabe a nós, do Ministério Público, guiar-nos sempre contra o excesso de ativismo para evitar injustiças irreversíveis.
Meras palavras são, por si sós, ou por si, palavras.
Grande Aras, o PGR que, ao invés de abrir inquéritos quando há denúncia, prefere abrir "investigações preliminares". Aras, o homem das "investigações preliminares"...
Parabéns ao PGR que, embora nitidamente bombardeado por efusivas críticas, surge demonstrando, num relatório simples, porém, sensato e honesto, afirmando que não se pode apagar o fogo com gasolina. Excelente demonstração de responsabilidade!
- Ratificou e Aclarou para um STF ideologicamente contaminado, a missão da PGR.
Muito bom artigo!
Quem dera a maioria dos ministros do STF tivessem o mesmo conhecimento jurídico e discernimento do PGR! Esse tem grandeza para o cargo!!!
o que seria em poucas palavras "STF contaminado"?. Mais um conjunto de palavras vazias de conteúdo. As decisões do STF nos ultimos quinze anos tem contrariado as "opiniões"tanto do espectro direitista, como centrista e da esquerda. Sinal que tem decidido sabiamente.
O que não pode são opinioes que tentam derrubar a tênue Democracia em que vivemos , fundamentado em livre arbitrio ou pretensos direitos que não existem. Eu não posso dizer que vou tirar a vida do meu vizinho porque não gosto dele e achar que sou livre para tomar essa atitude. Eu não posso ser eleito para um cargo publico, em eleições livres, e depois atentar para que eleições futuras não se realizem por que não tenho a mesma linha de pensamento do meu adversário politico. Se voçe quiser ser realmente ser livre totalmente, para fazer o que vier à sua mente, no mais amplo sentido, convido para que façam um expedição ao pico do Himalaia a 9000 ms de altitude e ali passem a viver. Pode ser que ninguem irá de encontro às suas idéias. Pode ser, mas não é certeza absoluta.....
Muitos Salves ao PGR, pelo equilíbrio na condução do seu mister. Continue na mesma linha e não se humilhe com algumas falsas críticas e não esmoreça frente ao ativismo judicial de alguns ministros da corte maior.
Parabéns!
Você precisa estar logado para enviar um comentário.
Fazer login