Streck e Carvalho: Carta foca na democracia porque ela está em risco

Lemos que a já vitoriosa Carta aos Brasileiros, redigida por professores e antigos alunos da Faculdade de Direito da USP, não falou em corrupção.

Spacca

Para alguns, a Carta é omissa, porque não fala de coisas que poderiam comprometer a democracia.

Também há críticas ao ex-ministro Celso de Mello, por este ter assinado algo que vai na contramão do que dissera num julgamento.

A Carta, de fato, não fala em corrupção.

Também a Carta não fala do papel de determinados veículos da mídia e de determinados jornalistas em suas questionáveis relações com a operação "lava jato", que, como se sabe e não se pode negar, cometeu inúmeros crimes para supostamente combater crimes. E, sem a "lava jato", o governo atual não existiria…

A Carta também não fala dos 700 mil mortos pela Covid-19. Da asfixia de Manaus. Do aviltamento das instituições. Das emendas constitucionais bichadas. Do nefasto orçamento secreto. Da fome que atinge mais de 30 milhões de brasileiros. Da degradação humana.

A Carta omite a bala perdida. O racismo crescente. O esquecimento da violência de gênero. Do meio ambiente esquecido. Das mortes de Bruno e de Dom. Das mortes de Marcelo, em Foz do Iguaçu, e de Genivaldo, num camburão da Polícia Rodoviária Federal.

Não, de fato, a Carta não fala das universidades sucateadas. Dos pastores do MEC, das compras exóticas dos quartéis e de coisas desse tipo.

A Carta fala, sim, da condição fundamental de possibilidade de uma República: a existência da democracia. A Carta trata da democracia porque ela está em risco por todas as coisas de que a Carta não falou. Esse é o ponto.

A História e a literatura nos socorrem para entender os críticos da bela iniciativa a que aderimos com orgulho e alegria. Arquíloco, da poesia lírica grega, dizia: a raposa sabe de muitas coisas, mas o ouriço sabe de uma grande coisa. No século XX, o grande filósofo Isaiah Berlin usou essa mesma ideia para dividir pensadores entre raposas e ouriços. As raposas reconheciam diferentes ideias e valores; os ouriços explicavam e viam as coisas todas por meio de uma única ideia ou princípio mestre.

Num mundo complexo, ser raposa é mais fácil. Raposas simplificam.

Mas, como o ouriço de Arquíloco e Berlin, a Carta centra foco nas coisas grandes que causam as outras.

O que estamos vendo é a mobilização pacífica e engajada de amplos setores e segmentos da sociedade brasileira na defesa firme e intransigente do Estado de Direito, princípio básico que pode salvar nossa democracia . Um movimento plural, sim, mas que sabe de uma grande coisa. Como o ouriço. Como deve ser.

Espiolhar defeitos da Carta aos Brasileiros pode dar uma lacração típica de raposa. Mas o ouriço sabe mais. “Estado de Direito, democracia, ok, mas e a corrupção?”, pergunta a raposa. Pois é. O país pegando fogo, e um certo lulocentrismo ainda impede alguns de enxergar um palmo à frente do nariz.

E a corrupção? E a violência? E os cães de rua? E a fome no mundo ? E a fila no banco? Ora, para explicar por que não se falou de flores, levado às últimas consequências, esse raciocínio nada significa. E por uma razão muito simples: sempre faltará alguma coisa para dizer. Sempre há o que criticar, o que melhorar, enfim.

Diante de uma Carta em defesa da democracia, num dos momentos mais críticos da História do país, assinada amplamente por gente de todas as correntes, o foco tem de se voltar para as convergências e para as questões fundamentais .

A raposa que se quer ouriço não é nenhum dos dois.

Às vezes, as raposas falam muito, mas não dizem nada.

Marco Aurélio de Carvalho

é advogado e coordenador do grupo Prerrogativas.

André Pinheiro disse:
07 de agosto de 2022 às 12:50

A estratégia é simples, como uma pergunta retórica se leva a outros universos argumentativos.
A ideia é conseguir o reverso e levar os incautos ao multiverso, se... então....
Afinal com a fome da África não há discurso pro democracia que se sustente, e assim com esses elementos vazios o bobo se perde, mas o que era que estávamos falando? De família, ah.
O que não podemos deixar de pensar que o discurso diversionista é eficiente, justamente porque a sociedade de consumo e a sociedade do espetáculo precisão viver em uma sociedade de confusão para garantir que o público não veja que o a carta sempre esteve na manga.
Não se consegue manter o foco, se é uma carta sobre democracia é porque querem salvar as saúvas.
Mas é uma carta sobre democracia, própria de homens cis, brancos privilegiados que quer uma democracia sem os gentis.
A questão é que o multiverso e o especulum ( o verso,) não está lá fora, nem é um metaverso, o multiverso somos nós, assim, imperfeitos, achando que deveriam ter enfrentado melhor as questões dos rinocerontes.
Se eu fosse escrever um livro sobre pluralidade e diversidade se chamaria democracia da confusão.
Spoiler, os patrocinadores da confusão são os mesmos.

Osvaldir Kassburg disse:
07 de agosto de 2022 às 14:45

Se a cartinha dos banqueiros é em defesa da democracia então deveria ser endereçada ao STF. Afinal, o golpe já foi dado. Vivemos uma ditadura branca, togada.
No dia 25 de Julho de 2022, o CONJUR publicou matéria admitindo publicamente o golpe dado pelo STF, buscando justificá-lo sob o seguinte título: “Com governo frágil, Supremo assume o comando das decisões no país”
Essa excrescência não têm supedâneo na Constituição, pelo contrário, fere de morte o Art. 2º da Constituição Brasileira.
Estão assumindo o golpe abertamente.
Se a Constituição não vale para o STF, também não vale para ninguém mais, e, portanto, sem a constituição para lhes respaldar a autoridade, os atuais ministros não passam de juristas meia-boca defendendo o marxismo.
“Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!” Stanislaw Ponte Preta.

Ion Andrade disse:
07 de agosto de 2022 às 15:32

Quanta bobagem.

Professor Edson disse:
07 de agosto de 2022 às 16:25

O risco é o Brasil voltar a cleptocracia.

Antonio Carlos Kersting Roque disse:
08 de agosto de 2022 às 07:49

Quando disse que sem a "lava jato" este governo não existiria, parei de ler.
Se fosse possível o sr. STRECK me informar as seis dezenas da sena, eu agradeceria.
Quando fala de direito é um gênio, quando fala de direito imiscuido com política, é um "jênio".
Só falta acompanhar e apoiar a fala Barroso que afirmou que "em 7 de setembro conheceremos o tamanho do fascismo".

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
08 de agosto de 2022 às 16:39

Diz parte do texto: "Também há críticas ao ex-ministro Celso de Mello, por este ter assinado algo que vai na contramão do que dissera num julgamento.
A Carta, de fato, não fala em corrupção.
Também a Carta não fala do papel de determinados veículos da mídia e de determinados jornalistas em suas questionáveis relações com a operação "lava jato", que, como se sabe e não se pode negar, cometeu inúmeros crimes para supostamente combater crimes. E, sem a "lava jato", o governo atual não existiria…
A Carta também não fala dos 700 mil mortos pela Covid-19. Da asfixia de Manaus. Do aviltamento das instituições. Das emendas constitucionais bichadas. Do nefasto orçamento secreto. Da fome que atinge mais de 30 milhões de brasileiros. Da degradação humana.
A Carta omite a bala perdida. O racismo crescente. O esquecimento da violência de gênero. Do meio ambiente esquecido. Das mortes de Bruno e de Dom. Das mortes de Marcelo, em Foz do Iguaçu, e de Genivaldo, num camburão da Polícia Rodoviária Federal.
Não, de fato, a Carta não fala das universidades sucateadas. Dos pastores do MEC, das compras exóticas dos quartéis e de coisas desse tipo.
A Carta fala, sim, da condição fundamental de possibilidade de uma República: a existência da democracia. A Carta trata da democracia porque ela está em risco por todas as coisas de que a Carta não falou. Esse é o ponto".

Sou severo crítico do pensamento do Mestre Streck.
Mas, o artigo tem precisão cirúrgica na análise dos perigos à Democracia.
Parabéns, Mestre Streck.

Antonio Carlos dos Santos Carvalho disse:
09 de agosto de 2022 às 09:53

A "carta" não falar em corrupção se autoexplica. Desde que o chefão do crime organizado foi condenado que os arautos da "democracia" falam que está em risco. Democracia sempre está em risco. Mas, que "democracia"? O modelo seria o da extinta República "Democrática" Alemã? Também ela se autodenominava "democrática".

Antonio Carlos dos Santos Carvalho disse:
09 de agosto de 2022 às 10:25

Chega a ser ridículo "A Carta também não fala dos 700 mil mortos pela Covid-19". A propaganda omite que em todo o mundo já morreram mais 6 milhões e 420 mil. Compare o Brasil com os EUA, França, Alemanha, Itália, Bélgica, Japão e tantos outros. Mas, para os marqueteiros esses países não existem!

Antonio Carlos dos Santos Carvalho disse:
09 de agosto de 2022 às 10:31

Também chega a ser ridículo " Das mortes de Bruno e de Dom. Das mortes de Marcelo, em Foz do Iguaçu, e de Genivaldo, num camburão da Polícia Rodoviária Federal." Somente agora que neste país tem assassinato? Se for por assassinato, a "democracia" corre risco há muito tempo.

Antonio Carlos dos Santos Carvalho disse:
09 de agosto de 2022 às 10:48

Também é ridiculo "A Carta omite a bala perdida". Num levantamento rápido, de 2007 a 2017, 35 crianças morreram vítimas e "bala perdida". Cansei de procurar mas não encontrei nenhum artigo dos "defensores da democracia", afinal era o governo do partido do colunista.

Eduardo de Castilhos Fritz disse:
13 de agosto de 2022 às 13:15

Acho que todos devem ter suas críticas ao STF e seus integrantes. Mas o STF é talvez a única coisa entre a democracia e a ditadura. Presidente editou um decreto anistiado um deputado, com claro desejo de afrontar o STF. Criou a PEC do desespero, afrontando diretamente a constituição e a justiça eleitoral. Criou as emendas de relator pra comprar apoio politico no congresso. Tudo esta encenado para que no caso de perda das eleições, os apoiadores do bolsonarismo venha em caravana a Brasília e destruam o supremo. Então o presidente como herói coloca o exército nas ruas para manutençao da ordem. Depois do golpe, precisam se manter no poder por prazo indeterminado. Se sairem, cadeia. Concluo dizendo que o Brasil é muito mais seguro com o STF. Alguém dúvida disso ??? Então no momento é de apoiar o TSE e o STF.

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