O massacre de Moïse Kabogambe e as botas do aristocrata

Há um filme sobre uma peça de teatro que pretende contar a Revolução Francesa.

Spacca

Na primeira cena, o rei e a rainha fogem da França e são recapturados na fronteira. A plateia reclama, dizendo que a revolução deve ser contada de outro modo.

Outra encenação, com outros argumentos, digamos assim, "lineares", e novamente a plateia protesta.

Vem, então, uma nova encenação. Passa-se na casa de caça de um palácio.

Aparece uma bacia com água quente, uma camponesa prestes a dar à luz e a parteira pronta para o ato.

Na sequência, entra o aristocrata, que voltava da caçada. Vendo aquela água límpida, olha de soslaio para a grávida e… lava suas botas sujas na bacia destinada ao parto.

Desdém, deboche e desprezo.

"Pronto", alguém grita da plateia, "é assim que se conta a origem da Revolução; assim se resgata a capacidade de indignação".

Quando o mal de banaliza, perde-se a capacidade de indignação, diz-se. A morte do congolês Moïse Kabogambe é difícil de ser contada. Difícil até de se falar. A sangria do cotidiano nos banalizou.

Há vários modos de falar de um assunto. Assim como há vários modos de contar a revolução francesa.

Uma delas é mostrar algo que provoca a indignação. A lavagem das botas sujas na água do parto aponta para o ponto de estofo. Aquilo que nos sobressalta.

São muitas as botas lavadas nas águas do parto. Essa foi mais uma. Até quando?

"Pronto", alguém grita da sociedade. Que não seja uma indignação no varejo e uma alienação no atacado. Sim, porque talvez estejamos nessa situação por causa do olhar meramente varejista.

Falta o atacado.

Yuri Almeida disse:
03 de fevereiro de 2022 às 08:17

Primeiro que leio e, salvo um equívoco de pesquisa, atual único texto do Conjur que se dirigiu à monstruosidade que ocorreu no Rio de Janeiro. Obrigado.

Pablo Malheiros da Cunha Frota disse:
03 de fevereiro de 2022 às 09:10

Está morte, como todas, nos mostra como é importante e a empatia e a humanidade….

Vinícius Quarelli disse:
03 de fevereiro de 2022 às 09:38

Imagino que deve ter sido difícil escrever o texto dessa semana. Como também é difícil comentar. As palavras parecem ficar mais 'pesadas' quando falamos sobre algo tão brutal. Entre a brutalidade da realidade e ignorância do desprezo, porém, sempre melhor optar pela brutalidade. Não escondê-la, pois esse é um único meio para mudá-la.

Professor Edson disse:
03 de fevereiro de 2022 às 10:33

Só não vamos esquecer, que o professor apóia e apoiou um governo que assistia 60 mil mortes violentas por ano sem fazer absolutamente nada, foram 14 anos com altíssimas taxas de mortes violentas crescendo ano após ano, sem criar nenhum projeto para mudar esse quadro, e não era algo difícil, tanto que o Temer em um ano conseguiu diminuir os homicídios em 20%.

Professor Edson disse:
03 de fevereiro de 2022 às 10:37

"Apoia e não apóia"

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
03 de fevereiro de 2022 às 11:20

Brilhante análise.

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
03 de fevereiro de 2022 às 11:56

A realidade brasileira tornou-se mais nítida com a pandemia provocada pela COVID-19.
O homicídio de um homem negro, imigrante, pobre e trabalhador fortalece a minha visão da realidade brasileira, parcialmente retratada no comentário, bastante extenso, que fiz no artigo escrito pelo Mestre Streck, com o título "Os baldes de água furtados, a mídia Barrichello e um Habeas do STF".
Enquanto escrevo essas poucas linhas, "milhões de "Moise" estão sendo surrados em território brasileiro, milhões de Evas são vítimas de feminicídio, agressões verbais e físicas, ataques para saciar os "baixos instintos de vários daqueles que se reputam "descendentes de Adão".
Uma particularidade da "brava gente brasileira" é que Moise foi vítima de pessoas que se assemelhavam a ele: pobres, mal remunerados, sem destino certo, sem honrarias, sem estudos especiais e desassistidos pelo Estado.
A conclusão é que, ao contrário do brasileiro pacífico, religioso, inocente e trabalhador, nós temos um brasileiro descrito pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, pelo filósofo Luiz Felipe Pondé (uma elite cruel, rodeada de pobres violentos e interesseiros), do ex-policial Rodrigo Nogueira ( livro "Como Nascem os Monstros"),e do sociólogo Jessé Souza (no aspecto negativo).
Nós termos qualidades? Sim, nós brasileiros temos qualidades, como qualquer outro povo.
Acontece que as nossas qualidades não são suficientes, primeiro, para resolver os nossos próprios problemas, segundo, para termos uma posição de destaque no mundo.
Essa realidade se torna mais "bestial", quando ocorre a aplicação da combalida lei penal.
Não será surpresa se os assassinos de Moise fiquem impunes, porque para os detratores do pensamento do teutônico "Gunther Jakobs" é "nazi".
Esse é o Brasil varonil!!!

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
03 de fevereiro de 2022 às 12:04

Não será surpresa se os assassinos de Moise ficarem impunes, porque para os detratores do pensamento do teutônico "Gunther Jakobs", este é "nazi".

Roberto Timóteo, advogado disse:
03 de fevereiro de 2022 às 12:16

Um verdadeiro professor escreve sobre um acontecimento que revela muito da barbárie em que, nos preocupando somente com nossos umbigos e em termos sempre razão, estamos envoltos, e o senhor vem, sem tecer um parágrafo sobre o tema, mais uma vez, externar aversão ao articulista. O senhor se intitula professor, então, se por ventura for comentar o artigo com seus alunos, abordará apenas as incorreções do articulista?

Victor Bianchini Rebelo disse:
03 de fevereiro de 2022 às 13:36

É notável ver o vídeo do irmão de Moïse, clamando por justiça e dizendo “O Brasil é uma mãe que abraça todo o mundo”. Poisé, Brasil. A mãe que abraça todo o mundo já deveria ter percebido que não é mãe, é carrasco letal e sombrio, que disfarça de país acolhedor e miscigenado, democracia racial, da terra do bom selvagem, e afins. A barbárie, aqui, infelizmente já venceu e, pior, se tornou cotidiano, mero fato a ser noticiado em meio a tantos outros. Não nos chocamos mais com o Mal.

Servidor estadual disse:
03 de fevereiro de 2022 às 14:16

O que aconteceu com o jovem congolês, que, talvez por ser estrangeiro ganhou repercussão da mídia nacional e internacional foi uma barbárie, selvagem e sem explicação, mas acontece diariamente em nossas cidades, e as vezes me pergunto porquê. Uns afirmam que a justiça brasileira não resolve, mas aí, paro e olho a mesma selvageria que matou o jovem africano em torcidas de futebol. Mas, também vejo jovem sendo assassinado por pertencer a facção diferente, ou ser de uma região de um Estado ter a cabeça cortada, e o autor receber pena de 7 anos, e vejo tal jovem matar novamente antes do término da pena anterior, e, que DEUS me perdoe, as vezes entendo e me sinto como esses selvagens, talvez eu seja igual, ou até pior, apenas não sei. O direito brasileiro fornece tudo, menos justiça.

Diógenes Laércio disse:
03 de fevereiro de 2022 às 15:36

É impressionante como parcela da sociedade é incapaz de olhar para um caso tão dramático como o de Moïse e perceber a profundidade dos problemas sociais que ele revela.
O mesmo animal autodenominado "racional", que consegue estabelecer relações altamente abstratas no campo das matemáticas e das ciências naturais, muitas vezes rejeita a possibilidade de compreender um caso particular, no âmbito das relações humanas, como sintoma de algo maior e gravemente pernicioso.

Thales B. Delapieve disse:
03 de fevereiro de 2022 às 16:29

A morte do jovem imigrante congolês é apenas um retrato do que o Brasil se tornou: A mãe de Moïse disse que anos atrás vieram para o Brasil para fugir da morte; anos depois vê o filho ser morto espancado - ao que tudo leva a crer pela milícia - por pedir para receber pelo seu trabalho.
Não é mero acaso.

CV Muzzi Filho disse:
04 de fevereiro de 2022 às 07:41

Os assassinos - pouco se fala deles - foram identificamos e presos, provisoriamente, suponho. O que o Professor pensa da prisão desses “suspeitos”? Ele, Professor, fica tranquilo em saber que eventual prisão ocorrerá se, havendo condenação, houver o trânsito em julgado da decisão condenatória?

Afonso de Souza disse:
04 de fevereiro de 2022 às 08:06

Retrato do que o Brasil se tornou, ou vem se tornando, há décadas. Um país violentíssimo. (O caso Moïse foi filmado, mas e os que não foram?)

Afonso de Souza disse:
04 de fevereiro de 2022 às 08:06

Retrato do que o Brasil se tornou, ou vem se tornando, há décadas. Um país violentíssimo. (O caso Moïse foi filmado, mas e os que não foram?)

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
04 de fevereiro de 2022 às 09:25

No Governo Lula ocorreu sensível ascensão social das classes econômicas, porém o nível de criminalidade permaneceu elevado, a ponto do psicanalista e jornalista, o falecido Contardo Calligaris ter ficado surpreso com a situação. Ele, ainda, procurou respostas, porque se o problema do Brasil era econômico (ainda o é), qual a razão do comportamento dos rebeldes primitivos?
A resposta está com o sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda (mas ninguém quer admitir).

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
04 de fevereiro de 2022 às 09:32

Concordo com o ilustre Delegado.
Ou a Democracia procura eliminar aquilo que mais incomoda o povo, que é a violência física e emocional, ou então, aqueles que votaram no "Mito", vão aceitar a instalação de um "Nouveau Régime Militaire".
O Senhor Jair Messias Bolsonaro procurou substituir a tutela penal do Estado na defesa dos cidadãos, pela autodefesa, permitindo que cada cidadão, desde que tenha dinheiro, compre armas e mais armas. Conheço amigos servidores públicos,
Não se pode tolerar uma Democracia fraca, favorável aos rebeldes primitivos

Raimundo Girelli disse:
04 de fevereiro de 2022 às 10:32

Lendo, como sempre, seu artigo, muito bom aliás, me deparei com publicidade de venda de arma de fogo. Não acredito que CONJUR se permita esta barbaridade. (Desculpe Lênio)

A.A.R.C. disse:
04 de fevereiro de 2022 às 11:24

É incrível como o Lênio gosta de usar a literatura para sofismar...Meses atrás, citava Shakespeare para legitimar os abusos de Alexandre de Moraes, e agora vem com essa pecinha de teatro apócrifa, para, ainda uma vez, sofismar ao defender o suposto 'racismo' e 'desigualdade' da sociedade brasileira...Essa pecinha apócrifa do Lênio, certamente nada mais é do que propaganda comunista europeia dos anos 70, mas o que é relevante é que o Lênio, ao endossar esta peça de propaganda que toma como mote a revolução francesa, troca a fantasia pela verdade do que foi a revolução, com suas dezenas de milhares de mortos na guilhotina após "julgamentos" sumários, ou com outras tantas dezenas de milhares de cidadãos inocentes simplesmente massacrados, com as milhares de mulheres estupradas etc. Certamente, essas vítimas inocentes nunca receberão uma palavra sequer de "indignação" do nosso Lênio, assim como não o merecerão das vítimas da violência urbana no Brasil de hoje, e muito menos as pessoas que tiveram seus direitos desrespeitados pelo STF de Alexandre-Barroso...

Luiz.Fernando disse:
04 de fevereiro de 2022 às 16:19

Certamente foi uma barbaridade o fato, mas, recordo que no Brasil morrem de forma violenta por volta de 60 (sessenta) mil brasileiros.
Do total, segundo a triste estatística, de 5 a 8% dos crimes são solucionados.
Somos um buraco dantesco de injustiça.
Não vejo revolução nos incautos brasileiros, muito menos uma guerra civil, apenas o recrudescimento do individualismo que nos assola hoje. Grita-se apenas se realmente atinge a pessoa, família e seus bens. Nada mais incomoda. No fim, cá estamos como tantos outros cidadãos, que propalam suas indignações pela internet mas através do conforto dos seus lares, trabalhos e equipamentos eletrônicos.
Famosa retórica do inútil.

Afonso de Souza disse:
04 de fevereiro de 2022 às 17:30

Pois é, e os assassinos têm nome e sobrenome. O Moïse não foi morto a pauladas pelo "racismo estrutural" ou pela "xenofobia", foi morto por pessoas de carne e osso que devem ser exemplarmente punidas pelo crime. (Aliás, punição exemplar também para os corruptos ricos e poderosos que recorrem a todo tipo de artifício jurídico - e político - para evitar o mérito das acusações)

Afonso de Souza disse:
04 de fevereiro de 2022 às 17:30

Pois é, e os assassinos têm nome e sobrenome. O Moïse não foi morto a pauladas pelo "racismo estrutural" ou pela "xenofobia", foi morto por pessoas de carne e osso que devem ser exemplarmente punidas pelo crime. (Aliás, punição exemplar também para os corruptos ricos e poderosos que recorrem a todo tipo de artifício jurídico - e político - para evitar o mérito das acusações)

neimyr G guaycurus disse:
05 de fevereiro de 2022 às 11:15

Impressionante como os bolsonaristas não têm vergonha de escrever as besteiras que escrevem, mostrar a dificuldade de interpretar um texto, a ideia, é triste estarmos vivendo esse momento.

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
06 de fevereiro de 2022 às 20:56

Rio de Janeiro – Um homem foi morto pelo próprio vizinho na noite dessa quarta-feira (2/2), ao ser confundido com um bandido. O crime aconteceu em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro.
Durval Teófilo Filho, de 38 anos, foi baleado pelo sargento da Marinha Aurélio Alves Bezerra. O autor dos disparos chegou a socorrer a vítima, mas foi preso em flagrante.
O crime aconteceu na rua Capitão Juvenal Figueiredo, no bairro Colubandê, na zona sul da cidade, por volta das 23h. Em depoimento à polícia, ao qual o G1 teve acesso, Aurélio afirmou que chegava em casa quando viu um homem se aproximar “muito rápido” de seu veículo.
O militar, então, disparou três vezes em direção ao vizinho, que foi atingido na barriga. Aurélio notou posteriormente que Durval não estava armado. O atirador também afirmou, durante o relato, que Durval chegou a dizer que era morador do condomínio.
O sargento socorreu o vizinho e o encaminhou para o Hospital Estadual Alberto Torres, onde foi preso. Durval Teófilo, no entanto, não resistiu.
O caso foi comunicado à Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG). Em nota ao Metrópoles, a Polícia Civil afirma que os agentes realizam diligências para esclarecer os fatos (https://www.metropoles.com/brasil/homem-e-morto-por-sargento-da-marinha-ao-ser-confundido-com-bandido).

A reportagem omitiu o fato que a vítima era negra e o atirador, sargento da marinha, branco.

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
06 de fevereiro de 2022 às 21:08

"Os negros pobres são mais discriminados do que os brancos também pobres. A opinião é do juiz federal William Douglas, que também é coordenador e professor do Educafro (Educação e Cidadania de Afro-descendentes e Carentes). O professor é a favor do projeto que prevê adoção de políticas de cotas sociais e raciais nas universidades públicas. As informações são da Agência Senado https://www.conjur.com.br/2009-mar-19/negros-pobres-sao-discriminados-brancos-pobres-juiz).

Aliás, Mestre Streck, em seu Dasein – Núcleo de Estudos Hermenêuticos, existem negros?

Afonso de Souza disse:
07 de fevereiro de 2022 às 12:54

Na essência, ele está certo. (E você nem sabe se ele é bolsonarista mesmo)

Afonso de Souza disse:
07 de fevereiro de 2022 às 12:54

Na essência, ele está certo. (E você nem sabe se ele é bolsonarista mesmo)

Afonso de Souza disse:
07 de fevereiro de 2022 às 17:52

Não há como determinar, objetivamente, quem é "negro" ou "branco", ainda mais num país tão miscigenado como o nosso. A autodeclaração não resolve o problema (vide, por exemplo, caso OAB-PR).
As cotas deveriam ser apenas sociais.

Afonso de Souza disse:
07 de fevereiro de 2022 às 17:52

Não há como determinar, objetivamente, quem é "negro" ou "branco", ainda mais num país tão miscigenado como o nosso. A autodeclaração não resolve o problema (vide, por exemplo, caso OAB-PR).
As cotas deveriam ser apenas sociais.

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