Em 7 de março de 1936 (há 86 anos), Adolf Hitler, ditador da Alemanha, (re)ocupou a região da Renânia, desafiando, mais uma vez, as disposições do Tratado de Versailles, de 1919, que tinha posto fim à Primeira Guerra Mundial, a chamada "Grande Guerra".
A Europa entrou em pânico. Ordens militares foram dadas. As chancelarias começaram a se movimentar. Líderes mundiais previram guerra. As rádios relembravam os horrores da "última guerra". A busca por máscaras protetoras de gás começou, frenética. A França esperou uma investida alemã diretamente pela Alsácia.
No fim de alguns dias, semanas, tudo voltou à calma.
Mas a Europa tinha mudado. Para pior.
A Alemanha de Hitler mostrava as garras, cada vez mais afiadas. O governo nazista, no poder desde janeiro de 1933, já tinha começado a se movimentar contra as disposições restritivas de Versailles, principalmente no que dizia respeito à limitação de armamento e poder militar, em geral.
Hitler não parou.
Desde a eclosão da Guerra Civil Espanhola, seus exércitos e sua aviação militar (a temida Luftwaffe) apoiavam os exércitos nacionalistas do general Franco contra o regime republicano de socialistas e comunistas no poder.
Mas, no coração da Europa, Hitler avançou para unir à Alemanha os "alemães" austríacos, com o Anschluss, cruzando as fronteiras estabelecidas por Versailles em 12 de março de 1938.
Mas não era só. A "crise dos Sudetos" teve início logo em seguida à anexação da Áustria. As reclamações das minorias alemães que viviam na antiga Tchecoslováquia tomaram vulto na mídia alemã e europeia, cada vez com maior repercussão nos centros políticos. Em setembro de 1938, mais uma vez, as potências europeias, França e Reino Unido, cediam às pressões alemãs e, sem ouvir os checos, desmembravam profundamente o país, entregando à Alemanha as regiões de fronteira (além dos animais que ali também habitavam!), tornando o país indefensável.
Chamberlain voltou para a Inglaterra vibrando em seu pequeno avião, com um pequeno papel esvoaçando em sua mão e garantindo "paz para o nosso tempo".
Em março de 1939, a Alemanha de Hitler ocupou o que restava, tristemente, da Tchecoslováquia.
Enfim, veio a vez da Polônia e do famoso "corredor polonês".
As pressões foram crescendo, pouco a pouco, seguindo o mesmo padrão nazista da época, com reclamações quanto ao tratamento das "minorias" alemães que viviam na região cobiçada. França e Inglaterra tentavam fazer valer a diplomacia contra o ditador, mesmo já tendo sido enganadas várias vezes em poucos meses.
Em 1º de setembro de 1939, as tropas alemãs cruzaram os marcos fronteiriços com a Polônia, além de bombardearem a cidade de Dantzig (hoje Gdansk).
Tinha início a Segunda Guerra Mundial.
Mas… Por que relembrar todos esses acontecimentos já de todos conhecidos?
A memória histórica não é um dado disponível a todas as pessoas. No dia a dia, as pessoas têm sua atenção voltada para os afazeres cotidianos, as contas a pagar, os filhos na escola, os relacionamentos, o trabalho, ou seja, o pão de cada dia.
Os jornais televisivos, a mídia impressa e as redes sociais têm voltado sua atenção para a crise entre Rússia e Ucrânia.
As semelhanças entre a crise atual e o comportamento da Alemanha nazista são evidentes, bastando ao bom conhecedor da realidade histórica fazer as comparações necessárias.
A Rússia de Putin (no poder desde 2000) apresenta o mesmo comportamento ofensivo que Hitler e os nazistas forma mestres nos anos 30.
A anexação da Crimeia, em março de 2014, se assemelha à ocupação da Renânia pela Alemanha. Sob a alegação de que os russos estavam sendo maltratados na Crimeia, tropas sem qualquer identificação militar começaram a aparecer na Crimeia e, de repente, fecharam as fronteiras terrestres e tomaram o porto de Sebastopol, importante base militar no Mar Negro. Em seguida, foi realizado um plebiscito em que ficou "confirmado" o desejo da população de "voltar" a viver na Federação Russa.
A reação da União Europeia, da Otan, dos Estados Unidos foi fraca, se limitando a não reconhecer a anexação e a impor algumas restrições econômicas à Rússia, que, simplesmente, riu.
Com a perda de influência russa no governo ucraniano com as revoltas da Praça de Maidan, em 2013 e 2014, com a deposição do presidente pró-Putin e, posteriormente, a eleição de governos pró-Ocidente, a pressão russa sobre a Ucrânia aumentou substancialmente. As alegações de maus tratos aos russos que viviam na parte leste da Ucrânia se intensificaram, culminando em uma guerra civil na região, com o envio, mais uma vez, de tropas militares não identificadas por parte do Exército russo. As províncias da região do Don foram ocupadas, ricas em ferro. Não por acaso o Donbass era a maior produtora de aço da União Soviética e hoje toda a estrutura industrial está desmantelada.
E, atualmente, a concentração de poderosas tropas militares russas, principalmente na fronteira leste da Ucrânia, faz com que as semelhanças sejam evidentes.
Renânia e Áustria, Sudetos, Corredor Polonês.
Crimeia, Donbass, leste da Ucrânia.
Basta ligar os pontos e chegamos à conclusão de que as táticas de ambos os governos são as mesmas. E que as soluções procuradas na época pelas potências europeias apenas adiaram o confronto final. A diplomacia não resolve quando apenas uma parte quer negociar. Se a outra parte se senta à mesa de negociação já portando uma arma em cada mão, qualquer argumento apresentado será rejeitado como insatisfatório. E cada novo ponto cedido também se revelará insuficiente, sendo contraposto por uma nova demanda. Até o momento em que o "valentão" se volta para a plateia mundial e diz que tentou tudo, que sempre esteve aberto às negociações, mas que não foi compreendido, que é vítima de um cerco e que está apenas se defendendo.
O que vemos hoje é, infelizmente, uma quase repetição de uma peça que já vimos no passado e cujo fim ainda traz amargas lembranças para todos nós.
Theodore Roosevelt, presidente americano por dois mandatos (1901 a 1909) dizia que "você deve negociar com um porrete na mão e uma cenoura na outra". O que vemos hoje é que a Rússia se apresenta com dois porretes nas mãos e a União Europeia e os Estados Unidos, apenas com cenouras. O resultado não será nada bom para o Ocidente, como a história dos anos 30 do século 20 nos mostra. A cada mordida na torta, a torta diminuía e, no fim, a fome continuava. Até que o esfomeado invadia a nossa cozinha e tomava conta de toda a casa.
A Rússia, principalmente depois que Putin assumiu o poder, jamais aceitou a perda de poder em sua antiga esfera de influência, no leste europeu e na Ásia central. A perda dos países bálticos e da Ucrânia retirou da Rússia o domínio sobre um "porto quente", ou seja, um porto livre de gelo no inverno. Com a ocupação da Crimeia e, especialmente, do porto de Sebastopol, o porto quente voltou a integrar a soberania russa.
Já apareceram notícias na mídia russa e bielo-russa de que a Bielorrússia desejaria voltar a integrar a antiga "Mãe Rússia", renunciando à sua própria soberania enquanto Estado. As tensões das minorias russas que continuaram vivendo nos Estados bálticos são outro elemento complicador nas relações desses países com a Rússia de Putin e, por esse mesmo motivo, há pouco tempo, a Lituânia negou aos russos residentes a cidadania lituana, justamente com receio de que seriam uma espécie de "quinta coluna" de Putin para desestabilizar o Estado. É apenas um passo a mais para serem comparados aos antigos Sudetos alemães na Tchecoslováquia.
A justificativa que Putin tem apresentado para essa movimentação contra a Ucrânia é o "avanço" dos Ocidente em suas fronteiras, especialmente com a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para abranger países que antes se encontravam diretamente sob o domínio da antiga URSS. Mas os fatos não confirmam isso. Ao contrário, foram a Polônia, a República Tcheca e a própria Hungria que pleitearam, nos anos 90, o ingresso na organização militar de defesa. Para os conhecedores da história europeia, a situação de penúria em que a Rússia se encontrava logo após o fim do regime comunista não iria perdurar. E os países vizinhos, todos sofredores sob as botas dos militares russos, sabiam com quem estavam lidando. A única proteção de suas próprias fronteiras se encontrava em uma organização militar pan-europeia e com o apoio dos Estados Unidos. A expansão da Otan jamais teve o objetivo de "cercar" a Rússia (como dizia Hitler com a sua teoria do lebensraun, o espaço vital alemão). A inclusão de novos países na Otan veio atender ao anseio desses mesmos países de manterem sua própria segurança interna e externa, especialmente aqueles que haviam saído da dominação russa.
Infelizmente, na época, a Ucrânia teve de enfrentar situação distinta. Base de um imenso arsenal militar nuclear da época soviética, os Estados Unidos e a Europa negociaram com o russo de Moscou e com governo ucraniano o desmantelamento físico e operacional de todas as armas nucleares que se encontravam em seu território. Jamais foi aventada a possibilidade, naquele momento, de que a Ucrânia (ou qualquer dos países do antigo leste europeu) integrassem a Otan. A preocupação era com a segurança do aparato militar após o desmantelamento dos regimes soviéticos nestes países.
Com a recuperação da economia russa, principalmente em razão da alta dos preços de petróleo e gás no mercado internacional, os países fronteiriços (países bálticos, Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária) começaram a se preocupar com a própria segurança. A solução, como dito, foi o ingresso na Otan e, posteriormente, na própria União Europeia, seguindo uma série de exigências institucionais, especialmente voltadas para a garantia do regime democrático e do Estado de Direito.
E como fica a posição da China nesse "imbróglio" todo? Ela pode ser comparada à posição que a própria Rússia, na época, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), assumiu em todo o período de expansão da Alemanha nazista pela Europa. A China observa, como a URSS observou. Acompanha o desenrolar dos acontecimentos. Finge distanciamento, considerando que "o problema não me interessa", a mesma política adotada pela Rússia stalinista nos anos 30. Quanto mais os países do Ocidente se desgastarem em conflitos entre si, em conflitos "internos", segundo a visão da Rússia da época e da China de hoje, mais espaço de crescimento esses países teriam e têm para expandir suas próprias economias e interesses. Tal como a URSS, a China hoje torce para que surjam cada vez mais problemas no "Ocidente", mantendo as vias comerciais abertas para ambos os lados.
As semelhanças históricas e políticas são muitas, guardadas as diferenças de cenário e de atores políticos atuais. O que importa ressaltar, todavia, é o que a História nos ensinou no passado, a fim de que não esqueçamos a lição não aprendida pelas gerações passadas. Se repetirmos o mesmo tipo de resposta conciliatória (o famoso appeasement) que os políticos de outra época utilizaram, o resultado será o mesmo, ou seja, o crescimento e o fortalecimento de ditaduras em todo o mundo e uma permanente ameaça de guerra às democracias.
A diplomacia deve continuar sempre e sempre, mas acompanhada de decisões firmes e fortes no sentido de que existe uma linha da qual não retrocederemos mais.
Enquanto o Ocidente continuar a aceitar cada avanço dos regimes totalitários mundiais (Rússia, China, Coréia do Norte, Birmânia, Venezuela etc.) sem qualquer movimento contrário, continuaremos a assistir uma derrocada dos valores mais caros que a civilização judaico-cristã construiu por mais de dois mil anos de lutas, guerras, derrotas e vitórias: o respeito à dignidade do ser humano como pessoa livre em seus pensamentos e em suas ações, somente restringidos pela lei.
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