As bolsas mundiais passam por um momento de forte turbulência e instabilidade, com grande volatilidade, e os países emergentes, dentre os quais o Brasil, reportam prejuízos enormes para as companhias listadas, além, é claro, de acionistas que passaram a criar o gosto pelo risco. No entanto, se os papéis despencam e passam a assustar aos menos experientes, dois aspectos fundamentais devem ser considerados na análise macro do mercado de capitais.
O primeiro diz respeito à própria companhia: se ela tem interesse, mantendo reserva em caixa, de recomprar as ações e colocar em tesouraria, diminuindo o expressivo volume de papéis e projetando um estoque que pode significar alternativas válidas no tempo de recessão da economia global.
As companhias abertas seguem os dispositivos da lei do anonimato e as exigências do órgão regulador, necessitando, portanto avisar a respeito da recompra e obedecer ao limite normativo, de tal modo que se trata de um sistema prudencial do controlador obter aprovação em assembleia e levar adiante a medida para conservar parâmetros e manter ganhos em escalas.
É cediço que a maioria das empresas que abriu capital na Bolsa no ano em curso amargou vultosos prejuízos e, assim, a situação com a qual se deparam diz respeito à recompra ou pura e simplesmente o fechamento do capital mediante oferta pública. Porém, é sempre questionável pelos acionistas minoritários o preço oferecido, e isso pode desaguar numa arbitragem na qual é dificultoso até se encontrar o justo valor do papel.
Entretanto, a recompra mostra um efeito imediato, como um aspirador de pó: retirar de circulação milhares de ações da companhia e fazer uma espécie de bloqueio, pois à medida em que diminui a liquidez, pela redução também provoca uma fator de compensação com a própria volatilidade.
Em tempos estranhos de muita circunstância do mercado interno, e fundamentalmente do externo, as grandes companhias podem, e devem, se precaver com relação à queda substancial dos papéis, e isso se mostra muito peculiar com algumas companhias, no que se refere ao setor varejista.
No propósito específico, embora o mercado acionário brasileiro seja desprezível se comparado com o peso daquele norte americano e europeu, a questão que se coloca é no sentido de que o número de empresas com abertura de capital foi drasticamente reduzido. Mas o contraponto é que nossos papéis cotejados com o mercado externo tem um preço muito refletido na operação e de baixo valor.
O segundo aspecto se reporta ao aluguel de ações, metodologia muito frequente quando o investidor, premido pelo preço do papel, não deseja negociar enquanto não houver estabilidade e a certeza de amenizar ou reduzir completamente seu prejuízo.
Contudo, as regras de locação dos papéis são bastantes flexíveis e a remuneração diminuta, além do que a retomada pode ser feita de forma bilateral. Isso significa dizer que o titular pode requerer junto à corretora não mais intencionar locar, ou o tomador se desfazer do papel por se tratar de contrato dotado de prazo indeterminado.
A conflituosidade é minorada por intermédio da recompra de ações, e também o investidor pode obter um lucro alimentado pela locação do papel se o mercado precificar de acordo com a realidade, no ponto de vista das operações, já que temos, ainda, o mercado de opções de progressivo risco.
Muito embora a maioria das pessoas físicas ingressantes no mercado acionário desconheça regras básicas, o grande problema é que, ao menor sinal de perda e aumento do risco, disparam ordens de venda para que, com receio de não mais terem recursos financeiros, evaporarem suas posições.
O mercado de ações é altamente vitaminado pela adrenalina do imponderável e das expectativas da economia global. Porém, o assunto não é recente e desemboca no período alargado da pandemia e da sofrível guerra do Leste Europeu.
Decerto, a guerra fria imposta pelos EUA e Europa aos russos foi um verdadeiro tiro no pé, pois houve gargalo nos vasos comunicantes e a energia do gás russo não mais jorrou para os gasodutos que levariam o produto para diversos países europeus.
O cenário no Brasil não é muito diferente: complexo e agudizado pelas eleições que se aproximam, de tal sorte que as companhias, para manterem a higidez do mercado acionário, devem repensar o sistema de recompra, sempre eficiente, e o investidor, quando puder, usufruir dos rendimentos provenientes da locação do papel.
Ambos os sistemas gozam de confiabilidade e deliberação expressa do órgão regulador, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), de modo que a instabilidade criou uma verdadeira era da incerteza. Para superarmos com todas as forças este desequilíbrio, precisamos ter luzes que reflitam posições dos controladores das empresas e uma proteção direta ao investidor que, se desejar locar o papel ou toda a carteira, terá mais chances de romper com a assimetria proveniente da recessão global em tempos de volatilidade, além, é claro, dos sinais reveladores da crise que se abate na China.
Alternativas sempre existirão, mas ao lado delas precisamos da governança corporativa e do full disclousure para que empresas e acionariato, em momentos delicados, não experimentem oscilações constantes que possam provocar a insolvência da companhia, ou a própria iliquidez do investidor.
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