Lenio Streck e Angelita da Rosa: Moro caiu na própria armadilha

Farsa é um gênero teatral cômico que surgiu na Grécia Antiga e teve seu auge em meados do século 14 quando se espalhou pela Europa. Com poucos personagens e geralmente breve, a farsa se caracteriza por satirizar as situações da vida cotidiana, por meio de personagens caricatas e extremamente exageradas. As elites não gostavam; diziam que era grosseiro. 

Spacca

Pois a vida imita a arte…! Na última terça-feira (7/6), o TRE (Tribunal Regional Eleitoral) de São Paulo negou pedido de transferência do título eleitoral de Sergio Moro, ex-juiz, ex-ministro, ex-candidato à Presidência da República, ex-consultor de empresas e agora ex-candidato a qualquer cargo pelo estado de São Paulo.

A Corte entendeu, por maioria de votos (4 a 2), que as provas apresentadas não foram suficientes para comprovar o vínculo do cidadão Moro com a capital paulista.

Como bem frisado pelo relator, "não se desconhece que na seara eleitoral o conceito de domicílio é muito mais amplo do que o do Direito Civil, mas o que não se pode deferir é a concessão de um benefício sem que se prove minimamente a existência de um vínculo, circunstância que não ocorreu no caso".

Ora, apesar de o conceito de domicílio eleitoral ser mais amplo, ele tem exigências legais mínimas e é evidente que elas precisam ser cumpridas até por Moro (talvez ele achasse que, por ser especial, estaria dispensado desse ônus). Isso! Até por aquele que desde que surgiu no cenário jurídico-político brasileiro julgou (literalmente), estar acima e por cima das regras do Sistema de Justiça.

Mais evidente, ainda, é que as condições que determinam o domicílio de um eleitor são comprovadas de forma simples, porque se resumem aos atos cotidianos de nossas vidas como vínculos residencial, afetivo, profissional, familiar, comunitário e quejandos, tal qual constam no caput do artigo 23 da Resolução 23.659/2021 do TSE.

No caso de Moro, a falta de tais vínculos é a comprovação de mais uma farsa protagonizada por ele que fica evidenciada na argumentação do relator: "Não se pode deferir a concessão de um benefício sem que se prove minimamente a existência de um desses vínculos, circunstância que não ocorreu no caso concreto".

Aliás, dar o drible da vaca sempre foi especialidade do ex-juiz, a começar pelo abandono da magistratura para trabalhar com o adversário do candidato que ele, Moro, tirou da disputa.

A tentativa de estabelecer domicílio de forma ilegal e a justificativa para tal ato está bem dentro do perfil do então juiz quem trocou mensagens comprometedoras com procuradores da operação "lava jato", combinando estratégias para a condenação do ex-presidente Lula, passando pelo vazamento ilegal de áudios do petista para a imprensa até interromper as férias para auxiliar no descumprimento da decisão de um desembargador federal em Habeas Corpus também do ex-presidente Lula. Nada, pois, deve nos surpreender.

O curriculum de Moro cresce dia a dia. Principalmente nos itens "ex" e "quase". Ele se acha(va) acima da lei. Ungido.

Usou a investidura do cargo de juiz "salvador da pátria" — registre-se, com apoio da grande mídia e até de cineastas (lembremos do filme "O Mecanismo") — para alterar o quadro eleitoral, semeando o ovo da serpente da antipolítica, responsável, não apenas por Bolsonaro, mas por uma caterva de políticos como Mamãe Falei e Daniel Silveira, para falar apenas desses dois símbolos dessa néscio-pandemia.

Neste sentido, o que é declarar falsamente que possui domicílio em um lugar em que ele mesmo disse ser um "hub", comparado com o que Moro fez na judicatura, no ministério de Bolsonaro e na Álvares & Marçal, em que atuou na empresa que cuida dos processos em que ele, Moro, fora juiz? 

A ironia da história é que o juiz que se acostumou a condenar sem provas, não as conseguiu para demonstrar uma coisa singela que é a comprovação de domicílio eleitoral. Pode ser tudo, menos hub.

Moral da história… como dissemos no início, a Farsa é um gênero teatral cômico e breve e as diatribes de Moro não são diferentes e, apesar de nem tão breves assim, e dos danos enormes de toda ordem causados ao país que devem ser cobrados via devido processo legal, ele continua dizendo que "não desistiu do Brasil". A questão é: quem lhe perguntou? Quem lhe pediu?

Moro disse que gostava de biografias e não lembrou de nenhuma que tenha lido. Pois ele deveria ter lido As Eumênidas, de Ésquilo. Um juiz que se preze se emociona ao ler a Deusa Palas Atena conclamar o povo para que examine a causa de Orestes com — vejam — imparcialidade. Imparcialidade! Eis um bom livro.

E mais um: As Vespas, de Aristófanes, que conta a história de Filocleón, um juiz que era viciado em — vejam — condenar (e sem provas). Preso na sua casa (por seu filho), Filoclêon exige que possa sair: "Que é que vocês estão querendo fazer? Vocês não vão mesmo me deixar julgar? Dracôntidas vai ser absolvido!".

Fica claro que, mesmo sem ouvir as partes, Filoclêon já pensara em condenar o réu Dracôntidas. Filocléon tinha ganas de condenar, sempre. Sempre. Claro, os seus adversários. E diz logo em seguida: "O deus de Delfos me respondeu um dia que eu morreria no momento em que um acusado escapasse de minhas mãos".

Eis bons livros que indicamos para leitura! Com eles entenderemos melhor o funcionamento da justiça e de pessoas como Moro.

O TRE-SP bem entendeu que nosso Filocleôn, morando em outro lugar, queria forjar seu domicílio em Atenas, quer dizer, São Paulo. E não colou.

Finalmente, uma coisa intrigante: se Moro forneceu informações inverídicas na justiça eleitoral de São Paulo (tanto é que foi barrado), e informações inverídicas (portanto, falsas) são passíveis de processo criminal (a ver), por qual razão ele poderá manter seu domicílio eleitoral original ao qual renunciou de forma a tentar enganar o sistema de justiça?

Uma questão de lógica: se alguém diz que possui novo domicílio (mesmo que eleitoral), então é porque abriu mão do domicílio anterior. Sendo mais simples: ele se mudou. Pode, agora, "desmudar"? Ou a justiça admite tentativa e erro, coisas tipo "se colar, colou"?

Angelita da Rosa

é advogada e mestra em Direito Médico.

Paulo Santos - Advogado disse:
10 de junho de 2022 às 12:02

Permita-me somente uma singela correção no brilhante texto dos excelentes (as) juristas: ..."Sergio Moro é um ex-juiz, ex-ministro, ex-candidato à Presidência da República, ex-consultor de empresas e agora" um 'ex-nada', isso porque não tem relevância alguma no cenário político atualmente...

É isso, simples assim.

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
10 de junho de 2022 às 12:06

Sim, professor Lenio Streck, 66 e Doutora Angelita da Rosa.
Tanto "Ele" como o Senhor Sérgio Moro, que tem um "ego elástico", são culpados.

Josué Alves Dornelles disse:
10 de junho de 2022 às 12:47

Caso seja investigado ou denunciado na esfera eleitoral, haverá o recurso de "pedir desculpa" como um ex ministro já o fez ao próprio, que assim o justificou, em que pese o acordo da não persecução penal daquele fato.

Bia Salvatti disse:
10 de junho de 2022 às 14:27

Vcs acham mesmo que o cara de destruiu a soberania do pais, acabou com a economia, tá sempre indo para washington e foi para o partido milionario vai ficar fora dessa? Pelamor.. a justiça o colocou como suspeito sem nenhuma sanção para que gentilmente aterrissasse na politica e o "impediu" de se candidatar por são paulo pra gentilmente aterrissar em cargo federal.

acsgomes disse:
10 de junho de 2022 às 15:16

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Luiz Fux, destacou nesta sexta-feira que "ninguém pode esquecer" que houve corrupção no Brasil e que decisões judiciais na Lava-Jato anulando processos foram tomadas por questões formais. Sem citar nomes, ele mencionou, por exemplo, as malas com R$ 51 milhões, pertencentes ao ex-ministro Geddel Vieira Lima, em um apartamento em Salvador, e os 98 milhões de dólares que o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco confessou ter desviado e depois devolveu.

— Tive a oportunidade, nesses dez anos de Supremo Tribunal Federal, de julgar de casos referentes a corrupção, que ocorreu no Brasil. Ninguém pode esquecer que ocorreu no Brasil, no mensalão, na Lava-Jato, muito embora tenha havido uma anulação formal, mas aqueles 50 milhões das malas eram verdadeiros, não eram notas americanas falsificadas. O gerente que trabalhava na Petrobras devolveu 98 milhões de dólares e confessou efetivamente que tinha assim agido — disse Fux em evento ocorrido em Belém em homenagem aos 75 anos do Tribunal de Contas do Pará.
...
No evento em Belém, Fux também disse que a corrupção tira dinheiro da merenda e dos hospitais.

— Às vezes falta uma percepção importantíssima. Cada ato de corrupção é um colégio que fica sem merenda para as crianças. Cada ato de corrupção é um hospital sem leito. Cada ato de corrupção é um lugar onde não há saneamento. E onde não há saneamento, não há saúde — disse Fux.

olhovivo disse:
10 de junho de 2022 às 16:31

Além das farsas, o sujeito carrega em seu DNA a molécula da traição. Traiu a magistratura (não agindo conforme o juramento); traiu Bolsonaro (na tentativa de derrubá-lo); traiu o partido (trocou o Podemos pelo União Brasil sem aviso prévio). E é esperar pra ver: vai trair o Álvaro Dias saindo candidato a senador . Está no DNA.

Jacques Villeneuve disse:
10 de junho de 2022 às 16:41

Parece que não foi somente o Moro quem supostamente fez isto. O STF acaba de fazê-lo em uma ação penal originária (que não deveria ser, a princípio) que carece de qualquer prova concreta e destoa gravemente do nosso arcabouço jurídico. Aproveitando este ensejo, fiz um comentário em um outro artigo recente de Lenio, que ainda permanece aberto para tal e observo que há pessoas que comentaram após eu e já tiveram os seus comentários publicados após a moderação. Já não é a primeira vez que ocorre. O moderador ao que parece não gosta que eu contradiga com argumentos a figura de Lenio Streck. Não há nada de calunioso ou baixo de calão naquela contradita.

José C. de Oliveira disse:
10 de junho de 2022 às 20:50

Ministro Fux, o mesmo que, atropelando toda a ética, fez campanha deslavada e opressiva para que a filha, que não tinha os requisitos para tornar-se desembargadora, pudesse sê-lo.
Quanto à corrupção na Petrobrás, óbvio que houve, mas as condenações foram contaminadas pela ação fora da lei do ex-juiz que tinha como único objetivo atingir o ex-presidente Lula e para isso cometeu uma série de ilegalidades.

Joro disse:
11 de junho de 2022 às 06:33

Ser que habita as trevas, filho do mal, que se compraz em infligir sofrimento a todos que tenham a desventura de cruzar seus perversos caminhos. Vade retro, rebento de Asmodeo!
Retorne aos subterrâneos sombrios do reino das masmorras curitibanas…

Rafael Calegari disse:
11 de junho de 2022 às 11:33

Não conheço o livro indicado no texto para Moro, mas uma boa leitura que lhe recomendo para que ele faça uma releitura da própria biografia é Curso de Direito Constitucional Positivo, de José Afonso da Silva. Com este aprendizado, Moro será capaz de contextualizar a si mesmo na sua sociedade e na História.

Eduardo de Castilhos Fritz disse:
11 de junho de 2022 às 16:20

Depois dessa, o ex juiz deve ter perdido até o rumo.

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