O pensador político norte-americano Charles Beard nasceu em 1874 e faleceu em 1948. A compreensão que Beard tinha da história do direito era realista no sentido de que nada se aprende do passado. Projetamos no passado nossas preocupações presentes, reinterpretando a história, a partir dos pontos de vista que detemos no momento em que fazemos história. Somos escravos de nossos preconceitos.
Beard afastou-se do modo romântico de se fazer história, que tanto prejudica a compreensão do direito, porque baseada na falsa percepção de que o direito seria resultado de uma evolução. O tempo comprova as teses de Beard. Livros de história do direito norte-americano refletem vínculos ideológicos e culturais de seus autores. Temos várias histórias do direito. Exatamente como possuímos inúmeras soluções jurídicas para um mesmo caso, certamente admitimos a existência de várias possibilidades históricas para um idêntico problema historiográfico.
O índice do grande livro de Beard – – “A Interpretação Econômica da Constituição os Estados Unidos” – -dá-nos conta da amplidão de interesse de sua pesquisa. Beard fez levantamento dos interesses econômicos que estavam em jogo em 1787, ano da promulgação da constituição norte-americana. Na premissa fundamental de que o poder segue a propriedade, Beard identificou os interesses econômicos dos membros da convenção constitucional norte-americana. Qualificou a constituição norte-americana como documento prioritariamente econômico. Vinculando economia e política, o que é tema marxista, Beard reconstruiu as doutrinas políticas que animavam os membros da convenção constitucional.
Beard ocupou-se do processo de ratificação. Isolou a participação popular e qualificou os limites do voto popular. O livro de Beard afasta toda a historiografia jurídica ingênua, de manuais e apostilas de história de direito, disciplina que muitas vezes cai no domínio de ingênuos que admiram o passado, sem que entendam os porquês do escapismo.
O livro de Beard é uma insurreição contra o formalismo. Beard minou a veneração que havia para com a Suprema Corte, que acintosamente reprimia legislação crescente de preocupação econômica e social. Beard realizou obra de desconstrução, decompondo os termos da constituição dos Estados Unidos, e comprovando que se vivia sob um governo de homens, e não de leis, ao contrário do que defendia historiografia jurídica romântica, cravada no ideário popular.
Para Beard, quando a Suprema Corte decidia sobre questões de interesse direto da população, esta deveria ser compelida a votar, anuindo ou discordando da decisão, que fora produzida por seres humanos, detentores de interesses e preconceitos, representantes de grupos de pressão, de lobbies e de conjuntos específicos, circunstância que se mascara com o ramerrão da neutralidade e da cientificidade.
Beard apontou no texto constitucional norte-americano todas as questões econômicas que agitavam os Estados Unidos, a exemplo de proteção tarifária, comércio internacional, transporte, indústria, comércio, trabalho, agricultura, temas que não podem ficar à mercê dos falsos problemas trazidos pelas leituras analíticas do direito, que se perdem em formalismos, campo discursivo que engendra todos os tipos de solução.
Em introdução que preparou em 1935 para nova edição de seu célebre livro, Beard questionava que interesses poderiam estar por detrás de todo o modelo constitucional norte-americano. Beard questionava a fluidez de conteúdos jurídicos vagos como princípios, de entendimento abstrato, provocadores de todo o tipo de injunções conjunturais. Beard duvidava de premissas fluidas, a exemplo de presunção normatizada dando conta de que o governo procede diretamente do povo.
Beard lembrou que boa parte da produção jurídica é relacionada com a defesa da propriedade e que há tentativa de se isolar o direito constitucional dessa circunstância, entre outros, por causa de construção cultural que fraciona o universo normativo em conteúdos de direito público e privado.
Beard percebeu a relação que a constituição dos Estados Unidos mantinha com projeto econômico de expansão. O delicado problema da escravidão não passou despercebido a Beard, dado que a solução que o texto constitucional norte-americano preservou, lacônica, é causa concorrente para o conflito nacional que se alastrou de modo mais explícito a partir de 1861, e que foi a guerra que matou o maior número de norte-americanos, travada entre o norte e o sul.
Charles Beard pode ser inserido no realismo jurídico, em sentido historiográfico, na medida em demonstrou exaustivamente a impossibilidade de se divorciar a história do direito de seus fatores determinantes, que se localizam na economia e na política. É o que os juristas precisamos compreender.
1 Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy é livre-docente pela USP, doutor e mestre pela PUC-SP e advogado, consultor e parecerista em Brasília. Foi consultor-geral da União e procurador-geral adjunto da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.
"Charles Austin Beard (1874–1948) foi um historiador e professor americano , que escreveu principalmente durante a primeira metade do século XX . Professor de história na Universidade de Columbia , a influência de Beard se deve principalmente às suas publicações nas áreas de história e ciência política . Seus trabalhos incluíam uma reavaliação radical dos fundadores dos Estados Unidos , que ele acreditava serem mais motivados pela economia do que pelos princípios filosóficos . O livro mais influente de Beard, Uma Interpretação Econômica da Constituição dos Estados Unidos (1913), tem sido objeto de grande controvérsia desde sua publicação. Embora tenha sido frequentemente criticado por sua metodologia e conclusões, foi responsável por uma ampla reinterpretação do início da história americana.
Um ícone da escola progressista de interpretação histórica, sua reputação sofreu durante a Guerra Fria, quando a suposição de conflito de classe econômica foi abandonada pela maioria dos historiadores americanos. O historiador de consenso Richard Hofstadter concluiu em 1968: "A reputação de Beard hoje permanece como uma ruína imponente na paisagem da historiografia americana. O que já foi a maior casa da província é agora uma sobrevivência devastada". Hofstadter, no entanto, elogiou Beard dizendo que ele era "o primeiro entre os historiadores americanos de sua geração ou de qualquer geração na busca de um passado utilizável" (Fonte Wikipédia, em inglês).
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