Desembargador que mandou prender Duran é pai de sócio de Moro

Autor da ordem de prisão preventiva do advogado Rodrigo Tacla Duran, o desembargador Marcelo Malucelli, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (PR, SC e RS), é pai do advogado João Eduardo Malucelli, sócio do ex-juiz Sergio Moro em um escritório de advocacia. Duran acusa Moro de uma tentativa de extorsão para que não fosse preso durante a finada "lava jato".

Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Sergio Moro é acusado de
extorquir advogado Tacla Duran
Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Ex-advogado da Odebrecht, Tacla Duran mora na Espanha. Ele tem depoimento marcado para esta sexta-feira (14/4) ao juiz Eduardo Appio, da 13ª Vara Federal de Curitiba. No entanto, na terça (11/4), Marcelo Malucelli decretou a prisão preventiva de Tacla Duran.

O desembargador é pai de João Eduardo Malucelli, que integra a banca Wolff & Moro Sociedade de Advogados, do casal Sergio e Rosangela Moro, segundo informa o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo.

A assessoria do casal informa que eles estão "afastados das atividades do escritório desde o início do mandato parlamentar (em fevereiro), permanecendo no quadro social somente como associados". Sergio Moro é senador (União Brasil-PR) e Rosangela, deputada federal (União Brasil-SP).

Em depoimento prestado no fim de março, Tacla Duran afirmou que foi alvo de uma tentativa de extorsão para que não fosse preso durante a "lava jato" e implicou Sergio Moro e o ex-procurador Deltan Dallagnol, hoje deputado federal, no suposto crime. Ele entregou fotos e vídeos que comprometeriam os parlamentares.

A declaração foi dada ao juiz Eduardo Appio. Como a acusação envolve parlamentares, o magistrado decidiu enviar o caso ao Supremo Tribunal Federal, corte competente para julgar autoridades com prerrogativa de foro. O ministro Ricardo Lewandowski entendeu que a investigação deveria correr no STF e suspendeu duas ações penais contra o advogado.

Appio também determinou que Tacla Duran fosse colocado no programa de proteção a testemunhas.

Depois da decretação da prisão preventiva de Tacla Duran, Appio pediu que Marcelo Malucelli esclareça se o mandado de prisão será expedido pela 13ª Vara Federal de Curitiba ou pela 8ª Turma do TRF-4.

O juiz também disse que pedirá que o ministro da Justiça, Flávio Dino, adote medidas para "evitar a coação ou intimidação" de Tacla Duran.

"Este juízo federal não admitirá qualquer forma, direta ou indireta, de coação da testemunha no curso do processo, independente de sua origem, na medida em que não se compactua com qualquer forma de intimidação ou pressão para que a testemunha silencie", afirmou o juiz.

"A pessoa (Tacla Duran) contra a qual se destina a prisão preventiva decretada na tarde de ontem (11/4) goza de protocolo de condição de testemunha protegida e deve ser ouvida, na presença deste magistrado que ora subscreve (…), até o final desta semana", acrescentou Appio.

Acusações contra lavajatistas
Tacla Duran afirmou que foi alvo da "lava jato" por não ter aceitado ser extorquido. "O que estava acontecendo era um bullying processual, em que me fizeram ser processado pelo mesmo fato em cinco países por uma simples questão de vingança."

Tacla Duran foi preso preventivamente na "lava jato", em 2016. Seis meses antes, ele tinha sido procurado pelo advogado Carlos Zucolotto Júnior, que era sócio de Rosangela Moro. 

Em conversa pelo aplicativo Wickr Me, Zucolotto teria oferecido acordo de colaboração premiada, que seria fechado com a concordância de "DD" (iniciais de Deltan Dallagnol). Em troca, queria US$ 5 milhões. Zucolotto teria dito que os pagamentos deveriam ser feitos "por fora".

Um dia depois, segundo Tacla Duran, seu advogado no caso recebeu uma minuta do acordo em papel timbrado do Ministério Público Federal, com os nomes dos procuradores envolvidos e as condições negociadas com Zucolotto. 

Em 14 de julho de 2016, Tacla Duran fez transferência bancária para o escritório de um outro advogado, no valor de US$ 613 mil, o equivalente hoje a R$ 3,2 milhões. A transferência era a primeira parcela do pagamento pela delação. "Paguei para não ser preso", disse o advogado em entrevista a Jamil Chade, do UOL

Porém, depois ele deixou de fazer os pagamentos, e Sergio Moro decretou sua prisão preventiva. Contudo, o advogado já estava fora do Brasil. Ele acabaria preso em Madri.

No último dia 26, o influencer Thiago dos Reis divulgou o documento de transferência bancária para a conta do segundo advogado, que foi parceiro de Rosangela Moro em ações da Federação da Apae no Paraná e também na defesa da família Simão, um caso que ficou conhecido como "máfia das falências".

Em nota lançada após o depoimento, a assessoria de Sergio Moro afirmou que o senador é alvo de "calúnias" e que o político não teme "qualquer investigação". 

"Trata-se de uma pessoa que, após inicialmente negar, confessou depois lavar profissionalmente dinheiro para a Odebrecht e teve a prisão preventiva decretada na Lava Jato. Desde 2017 faz acusações falsas, sem qualquer prova, salvo as que ele mesmo fabricou. Tenta desde 2020 fazer delação premiada junto à Procuradoria-Geral da República, sem sucesso, por ausência de provas, o procedimento na PGR foi arquivado em 9/6/22", disse o ex-juiz. 

Dallagnol afirmou que o juiz Eduardo Fernando Appio "acreditou" em um acusado que "tentou enganar autoridades da Lava Jato". 

"Adivinha quem acreditou num dos acusados que mais tentou enganar autoridades na Lava Jato? Ele mesmo, o juiz lulista e midiático Eduardo Appio, que nem disfarça a tentativa de retaliar contra quem, ao contrário dele, lutou contra a corrupção", afirmou em seu perfil no Twitter.

Antonio Gorylla disse:
13 de abril de 2023 às 23:03

Será que diante do silêncio da chamada "grande mídia" nos casos que implicam o ex-juiz Sérgio Moro ainda podemos acreditar na imparcialidade e na utilidade da mídia para a democracia?

Leeadv disse:
14 de abril de 2023 às 01:12

Suspeição não existe mais? A excelência é pai do sócio do acusado e toma essa decisão na cara dura? E fica por isso mesmo? Realmente somos um país de bananas

Cleber Aly disse:
14 de abril de 2023 às 05:59

Se eles que pregaram o combate a corrupção estão com medo é porque tem culpa no cartório, e cada vez fica mais claro a medida que trf4 descumpre uma ordem do STF para benefício pessoal de um certo senador e deputados

Afonso de Souza disse:
14 de abril de 2023 às 06:41

Ora, ora... O título malicioso sugere que o desembargador só mandou prender Duran porque tem relação pessoal com Moro.

Fico com o último parágrafo da matéria.

Radgiv Consultoria Previdenciária disse:
14 de abril de 2023 às 06:57

O Poder Judiciário está revelando a faceta mais vergonhosa do poder. Decisões fundadas em critérios pessoais ao arrepio da lei. Inquéritos de ofício sem base legal; prisões decretadas sem fundamentos legítimos; penhoras e apreensões abusivas; lamentável.

Joro disse:
14 de abril de 2023 às 09:13

Se o STF suspendeu a marcha das duas ações penais, como pode uma instância inferior (e que Instância inferior !) afrontar a Corte Suprema e decretar prisão cautelar do paciente em uma delas?
Nem mesmo em Guantánamo isso seria possível…
Ou será que o Pretório Excelso ali não merece acatamento e respeito…
Estado Democrático de Direito de volta já!

O IDEÓLOGO disse:
14 de abril de 2023 às 09:26

não dá para confiar em nossa elite!

carlos.msj disse:
14 de abril de 2023 às 09:47

E alguns seguem desvirtuando a justiça. Onde vamos parar?

Observador disse:
14 de abril de 2023 às 09:58

Ainda ontem comentei numa das matérias sobre suspeição. Esse instituto não é levado a sério, inobstante seja de extrema importância. Não me refiro àqueles casos em que a parte, intencionalmente, cria problemas para tentar afastar o juiz. Há outros, porém, em que a simples dúvida teria que dar ensejo ao afastamento; o caso do juiz pai do sócio do Moro é um exemplo. Ele tinha que se declarar suspeito, ainda que eventualmente a causa de suspeição não esteja expressa no CPP; se declare por foro íntimo.

Não basta ao juiz ser imparcial, tem que parecer também para o bem de todos.

Esse tipo de atitude do juiz ou de atitude afeta a credibilidade do Judiciário como um todo; o povão (não no sentido pejorativo) ao ter conhecimento de casos assim pela mídia coloca todos, todos os juízes no mesmo saco, pensando que são iguais, parciais, não isentos, vendidos e coisas do tipo.

Lamento pelos juízes e juízas sérios, atolados de trabalhos, pressionados por metas, sobre os quais, por no mínimo negligência de alguns, são colocados nesse balaio de gato da dúvida sobre as respectivas condutas pessoais. A vocês, sérios e vocacionados, minha total solidariedade.

Boris Antonio Baitala disse:
14 de abril de 2023 às 10:14

Não !!! Suspeição só existe, quando as pessoas estão do lado oposto. Se a questão envolve os amigos do rei, daí não tem suspeição. Esse é o entendimento do momento. Só não vê, quem é simpatizante ou partidário dos amigos do rei.

jardel marchiori disse:
14 de abril de 2023 às 11:46

Ler o pessoal que apoiou a prisão de Daniel Silveira; das milhares de pessoas presas em Brasilia por 90 dias sem individualização de conduta e nem mesmo audiência de custódia; apoiar todas as atrocidades do Sr. ALexandre de MOraes; agora querendo um Estado Democrático de Direito. Hipocrisia que chama???

Afonso de Souza disse:
14 de abril de 2023 às 13:21

https://oglobo.globo.com/blogs/bela-megale/post/2023/04/desembargador-comunica-ao-stf-que-nao-determinou-prisao-e-tacla-duran.ghtml

"O desembargador do Tribunal Regional Federal da 4a Região (TRF-4) Marcelo Malucelli enviou um ofício ao Supremo Tribunal Federal (STF) para comunicar que não determinou a prisão de Tacla Duran, apontado como operador financeiro da Odebrecht.

“Reitero que em nenhum momento foi decretada por este Relator a prisão do requerente RODRIGO TACLA DURAN”, escreveu Malucelli no documento encaminhado nesta sexta-feira à presidente do STF, Rosa Weber. O desembargador esclarece que decidiu apenas sobre um incidente de suspeição, que não altera a situação de Tacla Duran."

capixa disse:
14 de abril de 2023 às 13:28

O suspeitíssimo empenho do marreco de curitiba e sua gangue, em perseguir o Tacla Duran, só evidencia que eles têm muita sujeira escondida.
Os tribunais superiores devem ficar atentos as manobras do ex-juiz suspeito e incompetente, pois seu histárico de crimes já é bastante conhecido.

Boris Antonio Baitala disse:
14 de abril de 2023 às 22:05

Sim, podemos acreditar. A democracia é algo tão forte, que tem coisas que nem a grande mídia consegue inventar. E diante da impossibilidade de inventar, essa impossibilidade chega a ser entendida como, "silêncio".

acsgomes disse:
16 de abril de 2023 às 10:31

O que fazer se o próprio STF não dá o exemplo? Vide caso dos HC dados pelo Ministro Gilmar Mendes ao empresário Jacob Barata. Gilmar Mendes é padrinho do casamento entre a filha de Barata e um sobrinho do próprio ministro. Além disso, sua esposa, Guiomar Mendes, trabalha em um escritório de advocacia que defende o empresário.

acsgomes disse:
16 de abril de 2023 às 10:31

O que fazer se o próprio STF não dá o exemplo? Vide caso dos HC dados pelo Ministro Gilmar Mendes ao empresário Jacob Barata. Gilmar Mendes é padrinho do casamento entre a filha de Barata e um sobrinho do próprio ministro. Além disso, sua esposa, Guiomar Mendes, trabalha em um escritório de advocacia que defende o empresário.

Afonso de Souza disse:
16 de abril de 2023 às 17:21

Você inverteu completamente os fatos. E sabe disso! A quem acha que engana?

Afonso de Souza disse:
16 de abril de 2023 às 17:23

Hipocrisia ou coisa pior.

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