Streck: Se o robô é para casos simples, chamemos o porteiro!

Resumo: E já descobriram que precisam de um robô inteligente para fazer perguntas para o ChatGPT; os humanos não sabem fazer perguntas! (Ch)Oremos!

Spacca

1. Diga-me o que comes…
E o tal ChatGPT é o tema da moda. Há coisas óbvias: ele responde segundo a sua alimentação. Algo como "diga-me o que comes e…", se me permitem a blague.

Há muita gente apaixonada. E, é claro, faturando. Logo, por aqui vão repetir o caso da Colômbia, em que o juiz delegou para o robô resolver um caso de consulta médica para criança autista.

Ele resolveu. Corretamente. O que não foi dito: é tão obvio que a criança tem direito (está escrito em uma regulamentação do SUS deles) que até o porteiro ou a minha tia bolsonarista resolveria.

2. O porteiro pode resolver ou "eis aí um Cavalo de Troia" — uma trampa?
Logo, qual é o busílis de colocar um robô? Se é só para essas coisas em que o porteiro (ou minha tia) resolveria, por que não dar emprego para "'resolvedores de casos óbvios"? Mais: se é tão simples, por que o juiz quer terceirizar? Para trabalhar menos?

Parece que há um Cavalo de Troia embutido nisso. Logo passarão para o robô casos complexos. Aliás, no Brasil robôs já fulminam recursos. Logo, robôs julgam o seu recurso, uma vez que fulminar de plano um recurso é o mesmo que julgar o recurso. Robô julga. E julga também casos (já mostrei aqui e aqui semana passada) de tributos e quejandices outras.

No caso da Colômbia há algo pior. Isto porque no Chile fizeram a mesma pergunta para o robô sobre criança autista e o robô disse o contrário – robô malvadão.

3. Se tudo é prego, vendamos martelos — o robô estelionatário
A humanidade ingressa em um terreno perigoso. Na ânsia de vender martelos, transforma tudo em prego.

Pedi para meus alunos verificarem com o robô sobre o que eu escrevo. O robô colocou obras minhas na conta de outros autores. Um robô estelionatário e plagiador. E isso tende a piorar. Como o robô fará a seleção do que é citação de um autor em outra obra? E as paráfrases? O robô dirá de quem é a autoria? Sinto picaretagem da grossa no ar. No campo da bioética o estimado Henderson Fürst já está denunciando o agir do robô.

O jornalista Antonio Prata, na Folha, faz um espirituoso artigo sobre o novo robô (que ele chamou de "o pai da Alexa"). Está na edição de 5.2.2023. Mostra como os alunos não mais farão trabalhos de aula. E nada lerão. Já não leem hoje.

4. Já estão vendendo robôs para fazer perguntas ao ChatGPT: os burros não sabem nem perguntar Ou "quem lê Machado"?
E o resto da malta? Hoje ninguém lê Machado. Ou Orwell. Toca-se de ouvido. Porque leem resuminhos. Agora com o robô…imaginem o tamanho da "epistemologia do estelionato intelectual". Alguém já disse que o ChatGPT é o santo Expedito dos preguiçosos.

Pode surgir um paradoxo: se o ChatGPT dá certo, mesmo, nem mesmo os seus criadores, vendedores e louvadores ficarão empregados. Serão chutados para fora pela própria criatura. Bem-feito, diria minha tia bolsonarista, sem entender bem por quê.

Se bem que já estão criando até novas plataformas para ensinar como se faz perguntas para o ChatGPT. Sim. É verdade.

Fujamos para as montanhas. A humanidade é, realmente, estúpida. Cria um respondedor e não sabe fazer perguntar. Bleargh (onomatopeia para…bleargh).

5. Tout vas très bien, Madame! Muito, muito bem! E a preguiça há de vencer!
Leio que no âmbito da publicidade robôs fazem desenhos rapidamente e até bolam anúncios e isso coloca parcela dos protagonistas em pânico. E eu digo: publicitários de todo mundo, uni-vos contra os ChatGPT. Nada tendes a perder… Ou tendes muito…

Mientras, tentem ligar para a Claro-NET. Ou para o SAC das Americanas. Ou para o seu banco. Reclame do Mercado Livre. Liga. Melhor: fale com o robô do Santander. Ah: eles não são ChatGPT. Sim, eu sei. Pior ainda. Isso quer dizer que estamos à beira do caos.

Vai ver que eu é que sou o chato. Tudo vai muito bem. Tout vas très bien, Madame La Marquise. O castelo pegou fogo, a égua morreu, o marido se suicidou, os filhos são bêbados… mas tudo vai muito bem, madame!

E vamos fabricando mais martelos. Afinal, o resto do mundo é prego!

Luiz Adriano Machado Metello Junior disse:
06 de fevereiro de 2023 às 15:13

Há poucos dias resolvi testar o ChatGPT para que ele fizesse o meu trabalho (peticionar).
Mandei que ele redigisse uma petição simples de dano moral para tramitar no juizado especial. O dano moral envolvia vicio no produto.

Assisti surpreso ele digitando a petição diante dos meus olhos, e em 40 segundos tinha algo que com pouca adaptação (inclusão de mais detalhes, os quais eu deveria ter alimentado na pergunta) e a inclusão dos dados das partes, seria facilmente utilizável para uma ação tão simples.
Imagino que não muito tarde, após alimentarmos essa A.I com livros de direito de autores renomados, teremos ela cuspindo teses jurídicas em segundos, reduzindo drásticamente a necessidade de estudo do advogado (que já vai pegar tudo mastigadinho) estudar o assunto.

Isso é bom, por um lado, por que facilita o trabalho neste mundo onde as vezes precisamos lidar com volume muitas vezes insuportável de trabalho, mas é ruim por que vai diminuir a capacidade técnica de futuros advogados que provavelmente não estudarão tanto, quando dispõem de tal ferramenta.
É comparável a fazer uma prova de matemática com a calculadora científica em mãos. Chega-se ao resultado, sem entender a lógica por trás do cálculo executado pelo apetrecho.
De qualquer modo, é um futuro que me entusiasma, coisas que quando jovem, só via em filmes de ficção científica, hoje tenho na palma de minha mão. O jeito é se adaptar!

Eduardo. Adv. disse:
06 de fevereiro de 2023 às 16:26

Matéria ontem na Globonews... Eu fiquei com vergonha de mim. O "robozinho professor" tem mais elasticidade do que eu. E contagia a criançada a fazer ginástica. E a criançada já "se ligou" que Professor é o robozinho; só respeitam e interagem com o robozinho.
Só os professores robotizados pensam que ainda estão "dominando" aquela coisa diabólica. Que fase! Robô que varre o chão; robô que faz as vezes dos professores... A involução está próxima.
E os "robozinhos professores" estão sendo "testados" em rede de escolas particulares! Imagine só no EAD! Até agora, bastava um ser humano para figurar como professor no EAD (e cortar tantos outros docentes da folha de pagamento). Daqui a pouco será EAD com "professor robozinho"... Imagine o "robozinho" com o tablet ChatGPT ("VadeMecum") na mão, de um lado para o outro da tela (sala de aula), como faziam os nossos professores? Tô vendo a hora de um desses seres malignos sair correndo atrás da gente, tal qual nos desenhos da minha infância....
P.S: pelo menos vão acabar esses grupos chatos de whatsapp em que o povo quer modelo de inicial de tese que "vingou" no STF... Tá fácil! Só comprar um ChatGPT e ir perguntar para ele em vez de azucrinar nos grupos de whatsapp.
Vão ver o preço que se paga para "chupinhar" esforço alheio. Mas agora não adianta engatar a ré. Já abasteceram a "rede" de conteúdo grátis em troca de likes. Agora o "diabólico" pensa gera o próprio conteúdo para o humano comprar.

acsgomes disse:
06 de fevereiro de 2023 às 17:17

Fico imaginando se um robô interpretaria um "... é vedada a recondução ao cargo..." por um "... é permitida a recondução ao cargo..." como alguns ministros do STF fizeram recentemente ....

Cidangelo disse:
06 de fevereiro de 2023 às 17:23

Descartes disse que a razão é o instrumento para se alcançar a verdade. Logo, a verdade é única, ou seja, objetiva. Enquanto nós seres humanos somos influenciados por subjetivismos, o computador é objetivo. Poder-se-ia alegar sobre quem faz a programação do computador. Contudo, acredito seja mais fácil identificar eventuais empecilhos na programação do computador do que no subjetivismo humano. Não por outra razão, o chat GPT já é considerado um grande sucesso.

Rejane G. Amarante disse:
06 de fevereiro de 2023 às 19:33

Entretanto, essa adaptação que devemos fazer deve começar por algo que cresci ouvindo do meu pai e da minha mãe "quem não sabe fazer não sabe mandar".
Talvez esteja aí a explicação daquilo que o articulista mencionou sobre "não saber fazer perguntas".
O que deve ser obrigatório é que os estudantes façam as provas e trabalhos presencialmente diante de um professor humano sem qualquer recurso à tecnologia. Depois que souberem fazer sem artífícios, então poderão usar essas novas ferramentas conscientemente.

André Pinheiro disse:
06 de fevereiro de 2023 às 21:08

A força da mente esbarra na língua paralítica parafraseando Augusto dos Anjos.
A questão da comunicação esbarra na limitação da linguagem, isto por mais que o pensamento seja fruto de muitos livros, a limitação vem na quantidade de letras que escreveremos.
Não havia tempo para declamar um único poema do Augusto Anjos, então me limito a dedo paralítico limitado ler 1780 caracteres.
A linguagem é limitada ao tempo e a paciência do interlocutor, como colocar uma biblioteca em um texto?
Os programadores sabem disso, os alt rughts, pastores e programadores neurolinguíisticos sabem que quanto mais meme, menos palavras maior é o poder de preencher o vazio intelectual da patuleia desvairada.
Então é isso, a escrita é mero holograma de um pensamento fundamentado que ainda esbarra na capacidade de compreensão do ouvinte.
Certa vez o Leandro Karnalha disse que para compreender Kant precisaria ler Kant sete vezes em Alemão.
Pronto, Kant se tornou inútil que por mais que alguém tenha lido Kant sete vezes em alemão para trocar qualquer cognição com alguém, o interlocutor teria quer ter lido Kant sete vezes em alemão, porque se o interlocutor não leu Kant sete vezes em alemão, não teria capacidade de compreender.
Mas se o interlocutor leu sete vezes em alemão, seria inútil, pois este já teria compreendido Kant sem precisar de qualquer troca de informação com quem leu Kant sete vezes em alemão.
E mesmo que dois tenham lido Kant sete vezes em Alemão, ainda assim Kant seria inútil porque os demais jamais teriam lido Kant sete vezes em alemão.
Ou seja, todos os beneficios e contribuição de Kant que nós conhecemos é apenas a imagologia, mera derivada, um holograma do que realmente Kant ensinou.
Presto, abracadabra, a mágica GPT é apenas um truque de espelhos.

Walther S. N. disse:
06 de fevereiro de 2023 às 21:56

O computador não é objetivo nem capaz de alcançar nenhuma verdade absoluta, o computador é inferior ao ser humano porque ele só pode trabalhar com aquilo que lhe foi programado, e se os humanos que o fizeram são imperfeitos e com viés de uma coisa ou outra, o computador também terá, como por exemplo as "inteligências artificiais" que "detectam criminosos" que detectam pessoas negras desproporcionalmente devido ao viés implícito de programação, direito com IA apenas irá o tornar mais burro, e mais escatológico do que já é.

Você precisa estar logado para enviar um comentário.

Leia também