Documentos mostram que FBI ficou ‘à disposição’ da ‘lava jato’

Relatórios oficiais de viagens feitas aos Estados Unidos por Sergio Moro quando era ministro da Justiça confirmam que o Federal Bureau of Investigation (FBI), uma espécie de Polícia Federal daquele país, ficou "à disposição" de operadores da finada "lava jato".

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Moro teve encontros com membros do FBI
e da CIA em março de 2019, nos EUA
Marcelo Camargo/Agência Brasil

De acordo com os documentos, obtidos via Lei de Acesso à Informação e divulgados pela Agência Sportlight de Jornalismo, Moro esteve em Washington entre 17 e 20 de março de 2019 como integrante da comitiva da visita presidencial de Jair Bolsonaro aos EUA. A agenda do então ministro da Justiça — hoje ele é senador (União Brasil-PR) — era de "reuniões e encontros com autoridades governamentais dos Estados Unidos".

Em 18 de março, Moro teve dois encontros com membros do FBI e um com uma representante da Central Intelligence Agency (CIA). Segundo o relatório do ministro, ao meio-dia, o FBI, por meio da "chefe de operações internacionais", Rhouda Fegali, ofereceu um almoço para Moro. Conforme o documento, "o almoço teve por objeto o agradecimento pelos trabalhos já realizados e troca de impressões para atividades futuras".

Às 17h do mesmo dia, Moro se reuniu com o diretor do FBI, Christopher Wray. O encontro foi descrito da seguinte forma pelo ministro: "A Diretora do DRCI (Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional) agradeceu o FBI os trabalhos levados a cabo para a operação Lava Jato, ressaltando a importância da iniciativa de terem destacado uma equipe para ficar à disposição do Brasil para os trabalhos, momento em que os norte-americanos expressaram a relevância da operação para o Brasil e para vários países da América Latina".

Outro lado
A Agência Sportlight de Jornalismo enviou pedido de posicionamento ao senador Sergio Moro e ao FBI, mas não obteve resposta.

A Embaixada dos Estados Unidos em Brasília afirmou que os agentes do país não têm autorização para atuar no Brasil.

"Os representantes dos EUA de aplicação da lei não têm mandato ou jurisdição para conduzir operações em território brasileiro. Nossa coordenação com as autoridades brasileiras é conduzida por meio de canais legais bilaterais estabelecidos e aprovados pelo Ministério da Justiça. Também ressaltamos que temos uma série de acordos de cooperação técnica relacionados ao combate ao crime transnacional, e as agências de aplicação da lei norte-americanas têm uma longa história de colaboração com as autoridades federais e estaduais brasileiras em uma gama de temas investigativos, que beneficiam e protegem os públicos brasileiro e norte-americano."

'Ajuda' espontânea
Além disso, conforme a revista eletrônica Consultor Jurídico já vem noticiando desde 2018, a autodenominada força-tarefa atuou de forma próxima do FBI em muitas etapas das investigações, pedindo auxílio técnico sem passar pelos canais formais e compartilhando mais com os norte-americanos sobre o andamento dos processos do que com as autoridades brasileiras.

Talvez o principal exemplo dessa proximidade seja o da norte-americana Leslie R. Backschies, designada em 2014 para ajudar nas investigações brasileiras. A história foi contada pela Agência Pública, em uma reportagem da série da "vaza jato". Leslie participou de palestras de procuradores do Departamento de Justiça dos EUA (DoJ) e agentes do FBI a integrantes do Ministério Público Federal para ensinar o funcionamento do Foreign Corrupt Practices Act (FCPA). 

Atualmente, Leslie comanda a Unidade de Corrupção Internacional do FBI, a mesma que inaugurou um escritório em Miami só para investigar casos de corrupção em países estratégicos na América do Sul. O foco da unidade é a própria especialidade de Leslie: a aplicação do FCPA. 

A "vaza jato" também mostrou que os procuradores tentavam driblar o governo brasileiro sempre que possível nos casos de "cooperação" com os Estados Unidos. Em 2015, por exemplo, procuradores ligados ao DoJ e ao FBI fizeram uma visita ao MPF brasileiro que não foi informada ao Ministério da Justiça, órgão responsável por intermediar a cooperação internacional. Também não passou pelos canais oficiais um pedido de ajuda feito ao FBI para "hackear" os sistemas da Odebrecht quando o material ainda estava na Suíça.

Os advogados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Cristiano Zanin Martins e Valeska Martins, não sabem dizer por que a "lava jato" quis ajudar o governo dos EUA. Eles ressaltam, contudo, que os norte-americanos destinaram R$ 2,5 bilhões para a constituição de uma fundação que teria a ingerência de membros do Ministério Público que, direta ou indiretamente, atuaram na aplicação do FCPA no Brasil.

O fundo foi alvo de questionamentos no Supremo Tribunal Federal e, por decisão do ministro Alexandre de Moraes, acabou sendo dividido entre o combate aos incêndios na Amazônia e programas estaduais de enfrentamento à Covid-19 no país.

Afonso de Souza disse:
09 de maio de 2023 às 09:41

Uau, é mesmo?! Será que isso quer dizer que a Lava-Jato foi parte de uma conspiração tramada pelos EUA para roubar nossas riquezas e para colocar na prisão o líder popular que é a "alma mais honesta deste país"?
Ora, ora...

acsgomes disse:
09 de maio de 2023 às 09:50

O título da matéria é sensacionalista e tendencioso. Basta ver a própria explicação das autoridades americanas:
"...Nossa coordenação com as autoridades brasileiras é conduzida por meio de canais legais bilaterais estabelecidos e aprovados pelo Ministério da Justiça. Também ressaltamos que temos uma série de acordos de cooperação técnica relacionados ao combate ao crime transnacional, e as agências de aplicação da lei norte-americanas têm uma longa história de colaboração com as autoridades federais e estaduais brasileiras em uma gama de temas investigativos, que beneficiam e protegem os públicos brasileiro e norte-americano."
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Impressionante como este site sempre coloca o foco nos supostos desmandos da Lava Jato sem fazer qualquer menção dos vários crimes de corrupção por ela descobertos. Nessa linha, este é mais um artigo nesse sentido, o que não surpreende pois para os advogados dos envolvidos em esquemas de corrupção essas colaborações transnacionais são uma grande dor de cabeça...

acsgomes disse:
09 de maio de 2023 às 09:50

O título da matéria é sensacionalista e tendencioso. Basta ver a própria explicação das autoridades americanas:
"...Nossa coordenação com as autoridades brasileiras é conduzida por meio de canais legais bilaterais estabelecidos e aprovados pelo Ministério da Justiça. Também ressaltamos que temos uma série de acordos de cooperação técnica relacionados ao combate ao crime transnacional, e as agências de aplicação da lei norte-americanas têm uma longa história de colaboração com as autoridades federais e estaduais brasileiras em uma gama de temas investigativos, que beneficiam e protegem os públicos brasileiro e norte-americano."
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Impressionante como este site sempre coloca o foco nos supostos desmandos da Lava Jato sem fazer qualquer menção dos vários crimes de corrupção por ela descobertos. Nessa linha, este é mais um artigo nesse sentido, o que não surpreende pois para os advogados dos envolvidos em esquemas de corrupção essas colaborações transnacionais são uma grande dor de cabeça...

capixa disse:
09 de maio de 2023 às 10:19

A grande imprensa brasileira foi e ainda é conivente com os crimes da lava jato e o consequente acesso do fascismo ao governo brasileiro.
Atualmente eles tentam se desvencilhar de suas responsabilidades no golpe, que interrompeu o desenvolvimento do país, fingindo que condenam o bolsonarismo, mas sempre que encontram uma oportunidade, tentam recuperar a suja imagem da lava jato e dos seus comparsas.

Observador disse:
09 de maio de 2023 às 14:32

Fico imaginando o que seria de um juiz e de um procurador norte-americanos que porventura tivessem tido o apoio da polícia federal brasileira para, dentre outras coisas, afastar um presidenciável do páreo e eleger seu rival (e aqui não vai nenhuma defesa ao atual presidente do Brasil, por quem não nutro simpatia).

O que teria acontecido com esses agentes? Lá não sei, mas aqui foram eleitos respectivamente senador e deputado.

A síndrome de vira-latas de alguns brasileiros deveria ser estudada, mas pela USP, UERJ e tantas outras ótimas universidade brasileiras que temos, não pela Nasa talkey.

Contrariado disse:
09 de maio de 2023 às 15:01

Por que será que nenhum lavajatista apareceu por aqui?

O Iluminista disse:
09 de maio de 2023 às 15:58

Me admira a indignação ventilada na matéria.
Ora, conhecendo as autoridades brasileiras, principalmente aquelas ligadas ao judiciário capenga, nada mais natural do que deixá-las ao largo de certas informações, a fim de se evitar benesses aos investigados.
Aliar-se aos seus pares americanos (e não estadunidenses como preferem certas pessoas) com certeza foi crucial para a punição dos envolvidos também naquele país (vide Odebrecht).
Se até o PCC se aliou à 'Ndrangheta...

Afonso de Souza disse:
09 de maio de 2023 às 18:56

Por que será que este site e certos comentaristas aqui fazem campanha contra a Lava-Jato, apesar de a Operação ter recuperado bilhões de reais aos cofres públicos?

Quem apareceu por aqui foram os admiradores da Lava-Jato ("lavajatista" é um termo pejorativo, usado pelos detratores da Operação).

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