Prisão de suspeitos contra Moro se baseou em delator e códigos

A juíza Gabriela Hardt, em atuação como substituta na 9ª Vara Federal de Curitiba, baseou-se no relato de um delator e em mensagens codificadas de celular para decretar a prisão provisória de 11 investigados por um suposto plano para sequestrar o senador Sergio Moro (União Brasil-PR). Os mandados de prisão e de busca e apreensão foram cumpridos pela Polícia Federal nesta quarta-feira (22/3).

Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Juíza mandou prender suspeitos de elaborar plano para sequestrar Sergio Moro 
Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Ao todo, foram expedidos 24 mandados de busca e apreensão, sete mandados de prisão preventiva e quatro de prisão temporária nos estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Rondônia. Os suspeitos são apontados como membros da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).

A apuração teve origem no depoimento de uma testemunha protegida. Ela contou que já tinha integrado o PCC e procurou o Ministério Público de São Paulo após ter sido jurada de morte pela facção. Segundo o delator, quem estaria incumbido de matá-lo seria Janeferson Aparecido Mariano Gomes.

Indagada a respeito de outros planos de Gomes, a testemunha disse que recentemente tinha ficado sabendo que ele estaria planejando atentados contra autoridades. E mencionou que, entre os alvos, estaria Sergio Moro. O delator contou que seu informante lhe disse que Gomes estaria encarregado da tarefa de levantar informações e sequestrar o senador, mas não soube especificar que atos criminosos seriam feitos posteriormente.

Além disso, a testemunha entregou ao MP-SP quatro números de telefones, que seriam de contatos de pessoas próximas a Gomes. Com a quebra de sigilo, a Polícia Federal obteve, em e-mails, imagens que apontariam a existência de um plano para sequestrar Moro.

Em um print da tela do celular de Janeferson Gomes, ele pede a Aline Paixão, que seria sua companheira, para salvar certos códigos. "Tokio" seria o código para Moro. "Flamengo", para sequestro, e "Fluminense", para ação.

Em outras mensagens, supostos integrantes do PCC discutiriam valores e medidas para executar um plano contra "Tokio". As conversas também demonstrariam que o grupo alugou imóveis em Curitiba, onde Moro tem casa.

Para Gabriela Hardt, o suposto plano se deve à atuação de Sergio Moro como juiz e como ministro da Justiça. Como julgador, ele "alçou notoriedade pelo combate ao crime organizado à frente da 'lava jato'", declarou a julgadora.

Já como ministro da Justiça, editou a Portaria 157/2019 e foi autor do anteprojeto que culminou na Lei "anticrime" (Lei 13.964/2019), restringindo as visitas em presídios federais ao parlatório e à videoconferência. Conforme Hardt, as normas criaram "grande dificuldade aos líderes de grupos criminosos para comandar seus negócios ilícitos de dentro da prisão".

Porém, as medidas já estavam em vigor havia dois anos, quando foi editada a Portaria 718/2017 pelo então ministro da Justiça, Torquato Jardim. A norma vedou visitas íntimas em penitenciárias federais para líderes de organizações criminosas, custodiados submetidos ao regime disciplinar diferenciado e detentos envolvidos em episódios de fuga, violência ou indisciplina. Por outro lado, a norma permitiu que delatores premiados tivessem um contato íntimo por mês com pessoas de fora do cárcere.

Hardt também disse que a recente decisão do Supremo Tribunal Federal de negar ação contra a restrição a visitas a presos federais "certamente acirrará os ânimos das facções criminosas contra o Estado".

"Desse modo, é possível aventar que um atentado contra a integridade do senador Sergio Moro está sendo preparado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) a fim de demonstrar poder e causar temor ao Estado, como forma de supostamente diminuir a alegada opressão sofrida pela facção dentro do sistema prisional federal", opinou a juíza.

Questionamentos de promotor
A Polícia Federal sustenta que o PCC tinha um plano para resgatar o líder da facção, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola. Ele está encarcerado na Penitenciária Federal de Brasília.

Em 2019, Marcola foi transferido de uma prisão paulista para a Penitenciária Federal de Brasília. À época ministro da Justiça, Sergio Moro buscou receber crédito pela medida. Há quem diga que o PCC se indispôs contra Moro por causa do episódio.

O promotor do MP-SP Lincoln Gakiya, que também seria alvo do PCC, rebate o argumento. Em entrevista publicada há um ano pela revista eletrônica Consultor Jurídico, ele disse que a transferência de Marcola foi pedida pelo MP paulista e autorizada pela Justiça, sem nenhuma participação de Moro.

"É uma inverdade (o plano de ação do então ministro da Justiça e da Segurança do governo Bolosonaro para transferência de líderes do PCC). Elaborei, planejei e fiz o pedido ainda durante o governo de (Márcio) França, em 2018. E quem deferiu a ordem foi um juiz estadual. Não o governo federal. O juiz federal que recebe esse preso nem pode analisar o mérito do pedido. Só analisa se o pedido está formalmente em ordem. Não houve nenhuma participação seja do governo federal, seja do ex-ministro Moro, do presidente Bolsonaro ou de qualquer outra pessoa. Foi feito por mim, por conta e risco. Ao governo federal bastava apenas cumprir."

Substituta de Moro
Gabriela Hardt substituiu Sergio Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba, onde tramitavam os processos da "lava jato", ao final de 2018, quando ele pediu exoneração do cargo de juiz para assumir o Ministério da Justiça e Segurança Pública no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ela permaneceu como titular até abril do ano seguinte. Atualmente, é de novo substituta na 13ª Vara.

Foi a juíza quem condenou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à prisão, em fevereiro de 2019, no caso do sítio de Atibaia (SP). À época, ela copiou trechos da sentença do caso do tríplex do Guarujá (SP), na qual Moro também havia condenado Lula. Ambas foram, mais tarde, anuladas pelo STF.

Clique aqui para ler a decisão
Processo 5012945-28.2023.4.04.7000

Sérgio Rodas

é editor da revista Consultor Jurídico no Rio de Janeiro.

Makoto Shimizu disse:
24 de março de 2023 às 06:07

A grande pergunta que não quer calar, quando haverá punição de fato para juízes que desonraram a toga agindo com parcialidade, praticaram lawfare, se comportaram como justiceiros, mancomunaram com outros funcionários públicos com fins evidentemente políticos, foi descaradamente premiado com um ministério, foi publicamente seduzido com uma promessa de ser indicado ao STF, como pode continuar impune tendo sido praticado condenações sem provas, julgamentos anulados pela evidente injustiça. Lawfare foi descaradamente praticado e nenhuma consequência séria ainda. Justiça ainda não foi concretizada.

SSJunior disse:
24 de março de 2023 às 06:17

Como era de se esperar esse site sustentado pelo dinheiro público contabilizado, desrespeita uma instituição como a PF e ainda conspurca o Ministério Público de São Paulo, em nome de politicagem rasteira.

Afonso de Souza disse:
24 de março de 2023 às 08:04

Pois é, e essa politicagem está cada vez mais escancarada,

FAB OLIVER disse:
24 de março de 2023 às 09:29

Coincidência isso aparecer logo após a fala do Sr. falador LuLa. Lula N me desce, mas essa lava jato....

Porém, as medidas já estavam em vigor havia dois anos, quando foi editada a Portaria 718/2017 pelo então ministro da Justiça, Torquato Jardim.
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É uma inverdade (o plano de ação do então ministro da Justiça e da Segurança do governo Bolosonaro para transferência de líderes do PCC). Elaborei, planejei e fiz o pedido ainda durante o governo de (Márcio) França, em 2018. E quem deferiu a ordem foi um juiz estadual. Não o governo federal. O juiz federal que recebe esse preso nem pode analisar o mérito do pedido. Só analisa se o pedido está formalmente em ordem. Não houve nenhuma participação seja do governo federal, seja do ex-ministro Moro, do presidente Bolsonaro ou de qualquer outra pessoa. Foi feito por mim, por conta e risco.

João Paulo-MP disse:
24 de março de 2023 às 10:35

Que bom que mais alguém tem a mesma perspectiva. A revista com viés político desdenha da PF e do MP de SP e do PR. O escritor acha que o agora Senador Moro teria todo um aparado de policiais, MP e Judiciário a seu favor para elevá-lo a uma posição de vítima.
Que universo vivem os articulistas que não sabem da realidade de varas e promotorias criminais, muito menos do combate à criminalidade?

Bacharel, grande zagueiro palestrino dos anos 80 disse:
24 de março de 2023 às 11:49

Com toda vênia, o promotor Lincoln deixou claro em várias entrevista que a inclusão do senado Moro foi devido a uma portaria que proibia a visita íntima, não foi em relação à transferência dos líderes dos grupos criminosos.

Eduardo. Adv. disse:
24 de março de 2023 às 12:45

Depois das "presepadas" do agora senador Moro quando na atuava na magistratura, tudo que vem da republiqueta de curitiba é presumidamente outra "presepada": que provem a lisura.

Afonso de Souza disse:
24 de março de 2023 às 13:28

E o que tem a Lava Jato a ver com isso??

Estranho,,, muito estranho este seu comentário.

Observador disse:
24 de março de 2023 às 14:18

Não posso afirmar que as prisões se basearam apenas nas palavras de um delator e em mensagens codificadas como consta da matéria. No entanto, ainda que os mandados tivessem sido expedidos com base em "convicção", nem assim eu ficaria surpreso, pois é conhecido o trabalho nada genuíno, pra dizer o mínimo, que a juíza Gabriela copia e cola Hardt desempenhou na lava-jato.

De resto, embora eu não goste do Moro, espero que ele fique em segurança.

Outro ponto. O intento do PCC a meu ver era sequestrar autoridade reconhecidas para servirem de moeda de troca para uma possível transferência de Marcola para São Paulo. Moro não era o foco, mas se aproveitou disso, da imprensa e de gente sem senso crítico para se promover. Se tem alguém que merece destaque pelo que fez e faz é o promotor Lincoln. Moro é apenas um aspirante a político profissional que quer capitalizar sobre tudo isso. Todos conhecem o seu caráter, especialmente Bolsonaro, Álvaro Dias, Renata Abreu e tantos outros traídos por ele.

acsgomes disse:
24 de março de 2023 às 15:44

Se for fazer isso que vc propõe vai acabar com metade dos juízes do país, incluindo os das instâncias superiores.

acsgomes disse:
24 de março de 2023 às 15:44

Se for fazer isso que vc propõe vai acabar com metade dos juízes do país, incluindo os das instâncias superiores.

acsgomes disse:
24 de março de 2023 às 15:46

Se a alegação atual (e já desmentida) de armação é uma farsa, as alegações do passado de armação do Moro contra o Lula também podem não ser verdadeiras...

acsgomes disse:
24 de março de 2023 às 15:46

Se a alegação atual (e já desmentida) de armação é uma farsa, as alegações do passado de armação do Moro contra o Lula também podem não ser verdadeiras...

Paulo Rogerio Advogado disse:
24 de março de 2023 às 20:00

Progressismo vigente no universo jurídico. Tolerância a toda prova.

Tarquinio disse:
24 de março de 2023 às 20:10

O tom da reportagem é exatamente esse.

Afonso de Souza disse:
24 de março de 2023 às 20:27

A quem acha que engana com isso aí, soldadinho?

Afonso de Souza disse:
24 de março de 2023 às 20:31

Sabemos que determinados comentaristas dão as caras aqui para vocalizar as posições do lulopetismo. Este é só mais um caso.

Moro, como todas as notícias acerca da investigação mostram, era o principal alvo. E tentar desqualificar a juíza do caso não funcionará para apagar o desdém e o deboche (para dizer o mínimo) com que Lula tratou o caso.

Afonso de Souza disse:
24 de março de 2023 às 20:32

Todos (sim foi unânime) os juízes do TRF e do STJ que julgaram Lula também "copiaram" a sentença, deve ser...

jcesarsiqueira disse:
26 de março de 2023 às 12:13

Parece panfleto lulopetismo.
Difícil ver, nesse informativo, com relação ao PT e/ou a Lula, comentários em desfavor.

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