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Opinião

Brasil e China chegam a 2025 em uma nova era de cooperação estratégica

Em 2024, as celebrações dos 50 anos de relações diplomáticas entre Brasil e China destacam o fortalecimento contínuo da parceria estratégica entre as duas nações, consolidada como uma das mais relevantes no cenário internacional. Um exemplo emblemático dessa cooperação é o Programa Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS), firmado em 1988 para o desenvolvimento conjunto de satélites de observação terrestre.

Desde então, o programa, que completou 36 anos em 2024, já resultou na criação de seis satélites: CBERS-1 (1999), CBERS-2 (2003), CBERS-2B (2007), CBERS-3 (2013), CBERS-4 (2014) e CBERS-4A (2019). Esses equipamentos compõem um sistema completo de sensoriamento remoto, gerando imagens para aplicações em controle ambiental, agricultura, planejamento urbano e monitoramento de áreas terrestres.

O mais recente avanço foi o acordo para o desenvolvimento do CBERS-6, uma nova geração de satélites equipada com tecnologia 100% brasileira, como a Plataforma Multimissão (PMM), e um radar de abertura sintética chinês. Esse novo satélite ampliará a coleta de dados, inclusive em condições meteorológicas adversas, essenciais para regiões como a Amazônia, onde a cobertura de nuvens pode durar até seis meses por ano.

Futuro compartilhado

Além do avanço tecnológico, a recente assinatura de 37 novos acordos bilaterais pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Xi Jinping, durante o G20 no Rio de Janeiro, reflete o compromisso mútuo em áreas estratégicas como economia, tecnologia, infraestrutura e cultura.

Esses acordos fortalecem o papel do Brasil como principal parceiro da China na América Latina e projetam um futuro de cooperação mais diversificado e benéfico para ambos os países. Essa nova etapa, pautada pela proposta de uma “Comunidade de Futuro Compartilhado Brasil-China por um Mundo mais Justo e um Planeta mais Sustentável”, posiciona as duas nações como líderes na solução de desafios globais.

Spacca

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Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil, com um volume de comércio bilateral de US$ 136,3 bilhões entre janeiro e outubro de 2024, segundo dados divulgados pelo governo brasileiro. Em 2023, o comércio atingiu um recorde histórico de US$ 157 bilhões, impulsionado principalmente por exportações de commodities como soja, minério de ferro e carne.

Contudo, para além das commodities, os novos acordos bilaterais priorizam a diversificação, com destaque para setores como biotecnologia, energias renováveis e tecnologia agrícola. O compromisso da China com a neutralidade de carbono até 2060 converge com o Plano de Transformação Ecológica do Brasil, abrindo caminhos para soluções sustentáveis e inovadoras.

Investidora significativa no Brasil, a China destinou mais de US$ 66 bilhões ao país desde 2007, com foco em infraestrutura, energia renovável e telecomunicações. Projetos recentes, como a modernização de portos e ferrovias, ilustram o impacto transformador dessa parceria na competitividade brasileira. No campo tecnológico, a expertise chinesa em áreas como 5G, inteligência artificial e mobilidade elétrica é uma oportunidade para o Brasil superar suas deficiências estruturais. Empresas como a BYD, referência em veículos elétricos e produção de painéis solares, exemplificam essa integração.

A dimensão cultural também desempenha um papel fundamental. Em 2024, o Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina) promoveu eventos celebrando os 50 anos de relações diplomáticas, com iniciativas como cursos de mandarim, intercâmbios culturais e parcerias acadêmicas. Essa cooperação cultural será ampliada em 2026, com o Ano Cultural Brasil-China, reforçando os laços entre duas nações reconhecidas por sua diversidade e criatividade.

Por outro lado, desafios persistem. O Brasil precisa equilibrar a expansão agrícola com práticas ambientais mais sustentáveis, atendendo às exigências globais. As tensões geopolíticas, como a disputa comercial entre China e Estados Unidos, demandam uma diplomacia assertiva para proteger os interesses brasileiros. A realização do G20 em 2024 e da COP30 no Pará, em 2025, será uma oportunidade para ambos os países liderarem discussões sobre desenvolvimento sustentável e mudanças climáticas, fortalecendo o papel central dessa parceria.

As relações Brasil-China vivem um momento de fortalecimento sem precedentes, mas o potencial para o futuro é ainda maior. Baseada no respeito mútuo e na busca por soluções globais, essa parceria tem o poder de transformar não apenas as economias, mas também as sociedades de ambos os países. Instituições como o Ibrachina continuarão a ser pilares na construção dessa ponte cultural e estratégica, fomentando uma colaboração que transcenda fronteiras e gerações.

Thomas Law

é advogado, especialista em Direito Penal Econômico; mestre em Direito das Relações Internacionais Econômicas e doutor em Direito Comercial pela PUC/SP. É professor, escritor e autor de livros. É presidente do Instituto Sociocultural Brasil/China (Ibrachina) e do Instituto Brasileiro de Ciências Jurídicas (IBCJ). É diretor do Centro de Estudos de Direito Econômico e Social (CEDES). É presidente da Coordenação Nacional das Relações Brasil/China (CNRBC) e da Comissão Especial Brasil/ONU de Integração Jurídica e Diplomacia Cidadã para implementação dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (CEBRAONU), ambos órgãos do Conselho Federal da OAB.

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