1. O filterword (mundo filtrado)
Tenho vários amigos que são engajados em redes sociais. Bem engajados. É possível dizer que muitos deles seguem um certo “filterworld”, um mundo filtrado pelas redes sociais. Segundo me dizem, isso ajuda na profissão. E na vida. Pode ser. Não tenho elementos para contestar.

Mas vamos refletir sobre isso. Há um artigo interessante do jornalista Kyle Chayka, muito bem analisado pela jornalista Cláudia Laitano, do jornal Zero, exatamente chamado Filterworld: How Algorithms Flattened Culture (algo como “Mundo filtrado: como os algoritmos achataram a cultura”).
O artigo de Chayca tenta entender como essa curadoria customizada das plataformas afeta não apenas a forma como nos relacionamos com a arte, mas também o que os artistas (e acrescento, os profissionais em geral, de jornalistas a jornaleiros, passando pelos lidadores jurídicos) escrevem e fazem para arrumar “engajamento” no público.
2. Estamos nos tornando consumidores passivos?
Para Chayka, e de algum modo, estamos todos incluídos nisso, caminhamos para sermos consumidores passivos de um cardápio criado não para ampliar nossa visão de mundo, mas para reforçar nossas idiossincrasias – mais ou menos como aquele sujeito que se senta no restaurante e aceita, sem questionar muito, a sugestão do garçom que parece conhecer todos os seus hábitos que os algoritmos forneceram de antemão – e até seu estado de ânimo.

Eis a tal pós-modernidade. Vai de seca à meca. De intelectuais à rafanalha. Tempos de tik tok e quejandices mil. Ao mesmo tempo em que existem coisas boas-interessantes nas redes, há também pessoas querendo desenhar mensagens. Resumir tudo. Compactar. Há muita gente do Direito querendo desenhar. E vencer no império do simples. Pessoas no Direito que nunca escreveram um fonograma e só leram livros de orelhada, acham que podem “postar”.
Neste mundo fragmentado, poucas pessoas leem textos com mais de 15 linhas. Anexos, então, nem pensar. Se lessem Jonathan Swift (crime impossível!) veriam que isso está denunciado lá nas Viagens, no século 18. Um cientista de Lagado propôs eliminar textos e frases: transformar tudo em monossílabos e onomatopeias.
O outro cientista propõe a extinção das palavras. Sua tese: substituamos as palavras pelas próprias coisas. Bingo.
3. A algo-cracia e a precarização do mundo cultural (e do trabalho)
Tudo isso está aí. Nestes tempos de algocracia. Já não falamos com pessoas. Há hotéis que já não têm portaria. Lojas sem atendentes e sem caixas. Lancherias sem caixas. Nos hotéis já não há café. Há máquinas. Com cápsulas. Uma das belas igrejas do mundo, a de Burgos, tem QR Code. Tudo self service. Os santos viraram self service. TV em hotel já não em controle remoto. E pelo celular. O que fizemos com o humano?
É o império do simples. Do raso. Da platitude. A internet está repleta de néscios “vendendo” platitudes. Tempos de fazer economia, em que o CEO da empresa retira a azeitona do sanduíche, para economizar e aumentar o seu bônus. Depois tira o sanduíche. E os hotéis fazem convênio com café Três Corações e similares, com as horríveis máquinas… tudo para economizar e lucrar mais. Os hóspedes e clientes? Lixem-se.
No império do simples, há livros de Direito que ostentam, com orgulho, que tratam da matéria excluindo as partes chatas. Ou seja, as partes difíceis. Ou seja, excluindo o próprio Direito. Agora surgiu um livro todo desenhado, querendo “explicar” Direito Constitucional. Tem árvores, casas, estradas, edifícios. Quando fala em STF, mostra o desenho… do STF. Imita os repórteres da Globo, que, para falarem da enchente, ficam com água pela cintura. E metaforizam a metáfora. Alegorizam a alegoria. A Globo tentou ensinar filosofia assim: para explicar o mito da caverna, a moça entrou… em uma caverna!
Somos todos players, como dizem alguns advogados. Ou temos de ser players, nesse complicado e hoje hostil mundão de Deus. O que é bem isso, não se sabe.
Mas tudo tem a ver com o filterworld. Chayca e Laitano têm razão.
4. Não é não às simplificações: adira à campanha
De minha parte, faço como T.S. Eliot: numa terra de fugitivos, aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo. Continuo protestando. Não está morto quem peleia, dizia uma ovelha no meio de dez cães caçadores.
Não aceito simplificações. Vejam como se comportam – trata-se de uma alegoria – os simplificadores. A charge é autoexplicativa.

Não aceito plastificações. Desenhações. Desdificilitamentos. Como na campanha contra o assédio, digo “não é não às simplificações”. E sim aos livros!
Enfim, não aceito esse filterjusworld.
Não é não!
5. Minha receita: muitos livros! Livros a mancheias
Como se reage? Faça como eu: construa um bunker de livros. E uma catapulta. Se for preciso, faça como na charge.

Toda quinta-feira uma chuva de reflexões. Parabéns, Lenio!
Sem nenhum reparo as v. críticas ao processo de "imbecilização" (com o perdão do neologismo).
Valho-me, Professor, do excerto em que falas da automatização para trazer à baila uma singela reflexão. No passado, quando os ingleses perceberam que a escravidão implicava a ausência de consumidores para os seus recém criados produtos (refiro-me à revolução industrial, na Europa) trataram de combatê-la, chegando ao extremo de afundar navios negreiros em alto mar.
Parece-me que num futuro breve algo semelhante terá de acontecer. Afinal, se não forem gerados empregos, como as pessoas poderão consumir, sem renda?
Particularmente, tenho feito a minha própria revolução silenciosa. Recuso-me a ter atendido pelas máquinas de autoatendimento, sempre que possível, e procuro ser atendido por pessoas. Nem sempre bem atendido (mas, enfim, assim são as pessoas; tem sentimentos). É a minha forma de tentar assegurar alguma empregabilidade... mesmo que "correndo para cima da montanha" (rs)
Parabens Lenio, livro é o melhor remédio para a doença da ignorância.
A arte (da escrita, da literatura, do cinema, da poesia e porque também não da literatura jurídica) existe, sim, porque a vida não basta!
Por um ensino jurídico que não tema a leitura!
O conhecimento está se tornando mais raro, nessa onda de simplificação empobrecedora, e não tardará para que o conhecimento de alto nível se torne altamente valorizado, pois a escassez de um ativo o torna socialmente mais valioso. (Para Boudieu, o conhecimento incorporado é um capital, na sua teoria dos campos sociais, e é nesse sentido que emprego o termo ativo aqui.)
Correção: Bourdieu, e não Boudieu.
Einstein arrependeu-se de ter cogitado a bomba atômica. Queria que sua teoria fosse empregada para o bem. Teve oportunidade de vê-la no teatro do genocídio. Vencemos a guerra - disse -, mas não ganhamos a paz...
Professor Lênio, acho que um parecerista pode até não ter aprofundado a pesquisa o quanto deveria para elaborar seu parecer, mas o pecado que não pode cometer é o de ser partidário, porque, nesse caso, será altamente nocivo. Ser parecerista é como ser perito judicial: não se tem o direito de ser parcial. Fica aqui minha sugestão para sua instigação aos que gostam de escrever e comentar.
Como apontam a Luísa Giuliani Bernsts e Bianca Roso: A literatura pode (nos) salvar (d)os juristas! e acrescento... Em tempos de colonização do imaginário jurídico pelas IAs e de castração das capacidades interpretativas pelo seu uso inconsequente, a Literatura surge como lugar privilegiado de preservação do imaginário jurídico e sua dimensão criativa e de ampliação do horizonte de compreensão dos juristas.
Se ler livros não fosse bom para o desenvolvimento cultural e político do povo os ditadores não queimavam livros.
Não sou resistente às inovações. Todos que já passaram dos 60, vem vivendo essa mudança diária, não há como contê-la e nem se quer.
No entanto, existem condutas que milenarmente são adotadas e que sustentam o conhecimento. Quando Gutemberg pensou a primeira folha, não sabia ele o gigantesco passo que estava dando e como isso iria transformar o mundo. Ler livros é ato imperativo para aqueles que verdadeiramente buscam o saber,tentam compreender o mundo, tentam contribuir com a história. Parabéns pela sua brilhante exposição. Quando falas de direito e outros temas gerais, és, de fato, um mestre, mas quando misturas com política partidária, te tornas apenas um ginasta buscando formas de contornar os fatos. Esta última frase se refere ao artigo da semana passada. Obrigado pelo de hoje.
Fui alfabetizado. Alfabetizado que fui, obtive graduação em Direito. Porque fui alfabetizado, leio, interpreto. Desconfio de que a marcha oficial pela simplificação não passa de ciúme; vingança contra aqueles bons, “que nunca pude ou poderei imitar”. Alfabetizado que fui, torço pela simplificação. Gilmar Mendes ainda fica muito tempo no Supremo. E eu, somente eu, sabendo interpretar e redigir um parágrafo! Honorários! Honorários! Honorários! Poder! Barcos! Carros! Mansões! E uns livrinhos, vai.
As redes, com seus algoritmos que privilegiam o que dá mais cliques, está nos tornando uma sociedade de idiotas. As redes têm coisa que preste, youtube a que mais salva, enquanto que ficar surfando no insta é caminho fácil para a alienação total, terra do besteirol e do que vende mais.
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê flor
Flor e fruto
(Coração de estudante, Milton Nascimento).
Já em 1851, Schopenhauer¹ escreveu sobre a abolição da erudição na literatura:
§ 12.
A abolição do latim como língua geral da erudição e, em contrapartida, a introdução do espírito pequeno-burgês nas literaturas nacionais foram um verdadeiro infortúnio para as ciências na Europa. Em primeiro lugar, porque só por meio da língua latina havia um público geral de eruditos europeus, ao qual cada livro publicado era dirigido diretamente. Agora o número de cabeças que realmente pensam e são capazes de julgar é tão pequeno em toda a Europa que se enfraquece infinitamente a sua atuação quando o alcance de suas ideias é dividido e compartimentado por fronteiras linguísticas. E as versões feitas por aprendizes lilterários, às quais os editores dão preferência, são um péssimo substituto para uma língua erudita geral. Por isso, a filosofia de Kant, após curto período de brilho, atolou-se no pântano da capacidade alemã de julgar, enquanto os fogos-fátuos da pseudociência de Fichte, Schelling e finalmente de Hegel desfrutam, sobre esse pântano, de sua vida fugaz. Por isso, a doutrina das cores de Goethe não encontrou aprovação. Por isso não me deram atenção. Por isso, a nação inglesa, tão intelectual e capaz de julgar, ainda agora é degradada pela beataria e pela mais vergonhosa tutela clerical. (...).
Estas últimas palavras do texto me fazem lembrar do filme O nome da rosa.
__________
¹ SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de escreve; tradução, organização, prefácio e notas de Pedro Süssekind. - Porto Alegra: LePM, 2024.
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê flor
Flor e fruto
(Coração de estudante, Milton Nascimento).
Já em 1851, Schopenhauer¹ escreveu sobre a abolição da erudição na literatura:
§ 12.
A abolição do latim como língua geral da erudição e, em contrapartida, a introdução do espírito pequeno-burgês nas literaturas nacionais foram um verdadeiro infortúnio para as ciências na Europa. Em primeiro lugar, porque só por meio da língua latina havia um público geral de eruditos europeus, ao qual cada livro publicado era dirigido diretamente. Agora o número de cabeças que realmente pensam e são capazes de julgar é tão pequeno em toda a Europa que se enfraquece infinitamente a sua atuação quando o alcance de suas ideias é dividido e compartimentado por fronteiras linguísticas. E as versões feitas por aprendizes lilterários, às quais os editores dão preferência, são um péssimo substituto para uma língua erudita geral. Por isso, a filosofia de Kant, após curto período de brilho, atolou-se no pântano da capacidade alemã de julgar, enquanto os fogos-fátuos da pseudociência de Fichte, Schelling e finalmente de Hegel desfrutam, sobre esse pântano, de sua vida fugaz. Por isso, a doutrina das cores de Goethe não encontrou aprovação. Por isso não me deram atenção. Por isso, a nação inglesa, tão intelectual e capaz de julgar, ainda agora é degradada pela beataria e pela mais vergonhosa tutela clerical. (...).
Estas últimas palavras do texto me fazem lembrar do filme O nome da rosa.
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¹ SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de escreve; tradução, organização, prefácio e notas de Pedro Süssekind. - Porto Alegra: LePM, 2024.
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