Opinião

O Brasil como narcoestado e o lugar do poder

Um debate importante para qualquer desdobramento em Teoria Crítica — caso do Grupo de Pesquisa “Teoria Crítica do Constitucionalismo” (FDV/CNPq) — envolve o estabelecimento de um diagnóstico do tempo presente. Apenas a partir daí é possível ensaiar saídas — à melhor luz da nossa forma de organização social e política — para bem viver.

Reprodução/TV Globo

Homem que delatou esquema de lavagem de dinheiro do PCC foi assassinado em aeroporto

Pois bem. Não faz muito fomos todos surpreendidos pela execução de um homem no movimentado aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. A vítima — que manteve ligações com o PCC — era delatora de uma série de práticas e contextos envolvendo a organização criminosa, justamente conhecida não apenas pelo elevado grau de violência de suas ações, mas sobretudo pela influência — ao longo já de algumas décadas — em nossa cotidianidade, inclusive na política.

Um narcoestado?

Há quem defenda esse posicionamento, e o episódio recente seria bom exemplo para corroborar essa perspectiva. Afinal, o terminal do aeroporto mais movimentado do Brasil é, também, um dos lugares mais protegidos e vigiados do país. Se até então a violência parecia uma espécie de prerrogativa das periferias, se as execuções do crime organizado — sabidas de há muito por todos nós — estavam restritas aos morros e às vielas estreitas das grandes metrópoles, agora ela avança a espaços que, entre muitos limites, podem ser entendidos como privilegiados.

Não pretendemos — com esse lamentável exemplo — explorar as miudezas desse assassinato em específico, mas apontar para alguns desdobramentos envolvendo a crise da democracia brasileira, entabulando, assim, o nosso “diagnóstico do tempo presente”. Para isso, partimos de uma premissa norteadora: “o poder não pode ser erradicado”.

Essa perspectiva, talvez enigmática para alguns, sintetiza o fundamento que sustenta – entre seus muitos desdobramentos — o pensamento do filósofo político francês, já falecido, Claude Lefort. Para ele, a democracia — surgida como “invenção” — aparece após o Antigo Regime modificando a forma de exercício do poder. Verticalizado até então, ou seja, canalizado na ideia de unidade, o poder passa – com a invenção democrática — a ser exercido horizontalmente, ou seja, passa a ser partilhado. O que isso significa? Basicamente, que o poder, mesmo nas democracias, não se erradica. Ele muda de mãos. Mas permanece.

Daí surgem outras premissas associadas: se o poder nas democracias permanece, então podemos pensar numa espécie de “poder sem rosto”, ou no “lugar do poder” como um “lugar vazio”, porque esse viés pressupõe-se uma espécie de transitoriedade em quem o exerce. Mas, ainda assim, o poder está ali. Presente. Não se dissolve. Nem se erradica. É impossível.

Quem bebe dessa mesma água é a cientista política belga Chantal Mouffe. Para ela, a eliminação do poder também não é possível, eis que ele é própria dimensão ontológica do político.

Assim, com esse start, Mouffe entabula uma série de críticas aos modelos deliberativos de democracia, em especial, a Habermas e Rawls, justamente porque o fundamento desses paradigmas é baseado no consenso, suprimindo o dissenso e, portanto, sufocando o conflito inerente — porque o poder horizontalizado também não pode ser erradicado — nas democracias.

Há uma série de críticas à proposta de Mouffe, muitas delas dando conta de que o agonismo sequer seria um modelo, mas, sim, uma espécie de ação ou mesmo uma postura. Há aqueles ainda que, com dúvidas, interrogam se as polarizações políticas de traço afetivo no Brasil já não seriam razões suficientes para abandonar o pensamento da cientista política belga como prática efetivamente possível.

A discussão, claro, é válida, batendo à porta de nossas urgências mais cotidianas, mas o ponto que converge para o início do nosso argumento — o Brasil como narcoestado — é: se de fato o poder não pode ser erradicado, é possível imaginá-lo, no vácuo da representatividade — um dos gargalos da crise da democracia — nas mãos do crime organizado?

Talvez essa perspectiva — que pode ser assentada como um efetivo diagnóstico do tempo presente — possa ser ainda melhor percebida nos “serviços” das milícias nos grandes conglomerados urbanos, como o transporte alternativo (que serve aos bairros da periferia), a distribuição de gás, a instalação de ligações clandestinas de TV a cabo ou, ainda, a proibição de furtos e roubos nas áreas controladas pelo PCC (como se essas práticas criminosas não fossem previstas pelo Código Penal Brasileiro).

Para encerrar

A execução que dá suporte a esse sucinto argumento corrobora para a tese de que espaços deste inerradicável poder — até então nas mãos do Estado — transitam para grupos criminosos? Enfim, a partir destas provocações sobre o lugar do poder com Mouffe e Lefort, é possível pensar o Brasil já como um narcoestado?

As respostas ficam com os leitores desta ConJur

Giancarlo Montagner Copelli

é professor, doutor pelo programa de pós-graduação da Escola de Direito da Unisinos-RS e atualmente em estágio pós-doutoral, com financiamento Fapes, na FDV.

Nelson Camatta Moreira

é pós-doutor em Direito pela Universidad de Sevilla e pela Unisinos-RS, doutor em Direito pela Unisinos-RS, professor da FDV-ES e advogado.

Eduardo de Castilhos Fritz disse:
24 de novembro de 2024 às 16:03

Dentro de algumas décadas A tecnologia vai criar novas formas de participação popular.O povo vai se perguntar, se diante de tanta tecnologia não poderia participar mais !!?? E o povo vai querer participar, vai querer ser ouvido, vai querer ser consultado e vai querer decidir. E por quê Não ????? A tecnologia mudou o mundo. Hoje não se usa máquinas de escrever. Em frente a uma tela uma única pessoa diagramava um jornal que a décadas atrás era feita por muitas pessoas. O jornal de papel está condenado, assim como revistas e enciclopédias. Mandar cartas pelo correio é coisa antiquada. Décadas atrás, ter um telefone fixo era um privilégio. Havia bolsas de telefone. Domingo se publicava em jornais impressos centenas de anúncios de quem queria comprar e vender telefones. Vieram os equipamentos de fazer cópias que qualquer pessoa podia instalar no Desktop. O mercado de CDs música e filme foram destruídos. O que dizer então das Fitas VHS e o videocassete ? Hoje nem mesmo se usa a tecnologia dos CDs ! Fazer uma ligação de telefone Internacional era cara. Hoje temos celulares. Cursos não presenciais são hoje uma realidade . Fazemos compras pela internet. Trabalhar em casa é possível. Pagamos contas pelo celular. E a tecnologia invadiu a vida das pessoas, da sociedade em todos os aspectos da vida. Temos moedas virtuais E criptomoedas impossíveis de serem penhoradas por via judicial. Aplicativos de comprar comida, a uberizaçao destruiu o serviço de táxis no mundo. Livros virtuais. E isso também vai um dia chegar na política. Novas formas de participação popular. Aquela forma de participação popular que está na Constituição de colher assinaturas está ultrapassada. Hoje você elege um deputado para te representar, dá um cheque em branco a ele, é de repente vota contrariamente aos interesses de quem o elegeu. Por que precisamos de representantes ? Porque é impossível colocar no congresso nacional milhões de pessoas. Mas a tecnologia está aí ! As pessoas podem virtualmente se manifestar ou mesmo aprovar leis. Referendos populares e plebiscito serão coisas semanais. A tecnologia até derrubou ditaduras na África e Oriente médio. O povo, lembra: todo poder emana do povo, vai querer exercer o poder. Atos dos 3 poderes deverão ser referendados para ter validade. O povo vai voltar ao poder. Isso vai acontecer no mundo inteiro. Não será o fim do sistema representativo, mas o povo dará a última palavra. Vai haver muita resistência, será uma disputa entre representantes eleitos, autoridades e elites e o povo querendo participar, mas o povo imporá sua vontade. Nada de elites que dizem sob que leis as pessoas tem que viver. Decorrente disso, o mundo caminhará para uma tremenda ditadura popular parecida com o comunismo. A media da vontade popular Não é boa. Hoje o povo não está satisfeito vendo autoridades e servidores públicos ganhando salários premiados. Pergunte ao povo se estão satisfeitos com esse Código Penal que está aí !! Dizem que na antiga Grécia, nas cidades estado, quando o povo se reunia (e isso era possível) os políticos se calavam pois o povo estava ali para manifestar sua vontade. Hoje temos a tecnologia. Imagine segurança que será. Poderemos votar pelo celular, há um custo ínfimo ao que é gasto nas eleições atualmente.

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