Até mesmo democratas reconhecem que, ao contrário de Matt Gaetz, que desistiu da indicação do presidente eleito Donald Trump para o cargo de procurador-geral dos EUA devido a alegações de má conduta sexual, uso de drogas, incompetência e inexperiência para exercer o cargo, Pam Bondi é uma profissional competente e experiente nos afazeres judiciários. Ela é a nova escolha de Trump para ocupar esse cargo.
Pam Bondi trabalhou por mais de 18 anos como promotora e procuradora. Em 2011, se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de procuradora-geral do estado da Flórida. Nessa função, seu desempenho mais notável foi o desmonte de um esquema de produção e distribuição de pílulas de opioide, que ficou conhecido como “pill mills”.

Donald Trump escolheu Pam Bondi por ser uma fiel amiga, de longa data
Além disso, Pam lutou contra o reconhecimento do casamento gay na Flórida e contra políticas públicas do governo Obama, entre as quais a consagrada na lei “Affordable Care Act”, mais conhecida como Obamacare, o seguro-saúde de quem não pode pagar uma seguradora privada.
Mas o que pesou mais em sua escolha não foi exatamente isso. Foi mais o fato de ela ser uma amiga leal de Trump, de longo tempo – e com um histórico impecável de fidelidade e subserviência à vontade e aos caprichos do ex-presidente.
Trump teve experiências “desagradáveis” com procuradores-gerais que nomeou em seu primeiro governo. Jeff Sessions, que exerceu o cargo de 2017 a 2018, autorizou a investigação de supostas interferências da Rússia para ajudar Trump a se eleger em 2016. Já Bill Barr, no cargo de 2019 a 2020, se negou a abrir investigações para produzir, ao final, um relatório declarando que as eleições de 2020 foram roubadas de Trump.
Servidora fiel
Diferentemente desses supostos “traidores” que causaram enorme frustração ao ex-presidente, Pam Bondi, que o conhece desde seus tempos de estudante, pois era amiga de dois de seus filhos, sempre esteve ao lado de Trump, para o que der e vier. Por exemplo:
— Já como procuradora-geral da Flórida, ela optou por não investigar denúncias de fraude contra a Trump University, apresentadas por alunos fraudados do estado; e se recusou a aderir a um processo semelhante movido em Nova York.
— Teve de se defender de alegações de que protegeu Trump, porque recebeu da fundação do ex-presidente uma doação de US$ 25 mil para seu comitê eleitoral.
— Apoiou Trump nas eleições primárias de 2016, apesar de um de seus concorrentes ser o senador Marco Rúbio, também da Flórida.
— Defendeu Trump no plenário do Senado, no julgamento do primeiro processo de impeachment do ex-presidente, em que acabou absolvido pelos senadores.
— Embarcou no bonde dos “negacionistas”, como são chamados os partidários de Trump que negam a vitória do presidente Joe Biden nas eleições de 2020; entrou decididamente na luta para tentar provar que as eleições de 2020 foram fraudadas pelos democratas.
— Esteve presente no julgamento em que Trump foi condenado por fraudes fiscais, para acobertar um pagamento de suborno a uma ex-atriz pornô, durante a campanha eleitoral de 2016, a fim de silenciá-la sobre um affair entre os dois.
— Diante dos processos movidos por procuradores federais e estaduais contra Trump, Pam Bondi disse em uma entrevista à Fox News que era preciso processar os autores dos processos – isto é, os procuradores; “The prosecutors will be prosecuted”, ela disse.
— Essas “qualidades” de servidora fiel podem ser instrumentais para se cumprir uma promessa de Trump na campanha eleitoral: a de investigar e processar seus “inimigos” políticos, aqueles que atormentaram sua vida.
Estão na mira parlamentares que investigaram a invasão do Congresso em 6 de janeiro de 2021 e que aprovaram na Câmara dois processos de impeachment. Além deles, os procuradores estaduais e federais que transformaram a Justiça em uma arma contra ele – o que ele chama de “weaponization” do Departamento de Justiça.
Essa perspectiva de que Pam Bondi vai executar a promessa de retaliação anunciada por Trump levou alguns democratas a apelidá-la de “Ministra da Retribuição” (Minister of Retribution).
Testa de ferro
Não se sabe que caminho a nova procuradora-geral vai tomar. Mas espera-se que algumas medidas já estejam anotadas em sua agenda, a pedido do presidente eleito. A primeira delas é a de fazer os dois processos criminais contra Trump, na Justiça federal, desaparecerem. E depois ver o que pode fazer com os processos estaduais.
Outra medida possível, que também decorre de promessa de campanha de Trump, é desistir dos processos ainda em andamento na Justiça federal contra invasores do Congresso e preparar o perdão presidencial para aqueles que foram condenados e já cumprem pena de prisão.
Se houver um perdão em massa, indiscriminado, Trump vai fazer os casos, na Justiça, contra os invasores do Congresso em 6 de janeiro de 2021 desaparecerem – ou ficarem relegados apenas à história.
Trump ainda vai indicar ao Senado o nome de sua escolhida para o cargo de procuradora-geral dos EUA. Ao contrário de Gaetz, ela deverá ter votos suficientes do Partido Republicano para ser confirmada e nomeada por Trump quando ele assumir o cargo de presidente.
De qualquer forma, antes disso, ela terá de enfrentar uma sabatina dura no Senado. Os senadores democratas vão interrogá-la sobre seu comprometimento com as promessas de retaliação de Trump, perdão a criminosos condenados, suas decisões favoráveis a Trump no passado e outras ações que podem defini-la apenas como testa de ferro das iniciativas do presidente eleito.
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