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Embargos Culturais

Considerações sobre Madame Bovary, de Gustave Flaubert

Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert (1821-1850), é um romance que fixa dois personagens emblemáticos na literatura ocidental: Emma e seu esposo, Charles Bovary. É um livro que vampiriza a atenção do leitor, na impressão de um de seus críticos. Iniciada a empreitada, o leitor não tem como parar de ler.

Spacca

Arnaldo Godoy

Emma é frívola. Sua futilidade sucumbe a conquistadores galantes e a sonhos de grandeza. Charles é um bonachão. Vive uma paixão não correspondida pela esposa. Era um oficial de saúde, que atuava no interior da França, com funções muito próximas às de um médico. Via-se como médico, acertava como médico, errava como médico.

Dependendo do ponto de partida da leitura do romance, Charles, marido e médico, pode ser a personagem principal. Flaubert, na montagem desse romance perfeito (e o adjetivo é merecido, o livro é um divisor de águas na história da literatura), sabe colocar Charles nos momentos precisos. Desaparece em algumas páginas; reaparece; sua angústia, no entanto, está presente em todas as linhas do livro. Charles enviuvou antes de se casar com Emma. E o fim do livro fecha a chave de sua sina.

O leitor (talvez vários deles, eu me incluo nesse grupo) vai se afeiçoando a Charles, cuja bondade parece ilimitada e cuja paixão por Emma eleva-se na razão inversa ao desprezo com o qual ela o distinguia. Ao invés de indignar-se com Emma Bovary, o leitor tenta compreender as razões de sua perfídia. Emma trai recorrentemente. Mente. É dissimulada. Endivida-se. Dissolve o pequeno patrimônio da família. Sua deslealdade é uma espiral de falsidades. Os embustes são viciantes. Mentiras são contornadas com mais mentiras. Com os homens que a cotejam, é aliciante.

Seduzidas por leituras românticas, Emma nos lembra Luísa, do Primo Basílio, de Eça de Queiróz. Eça duplicou a personagem de Flaubert, ainda que com outros matizes e paletas; o fim, no entanto, é o mesmo. Tem-se a impressão de que uma moral implacável sufoca essas duas mulheres.

O leitor atento de Madame Bovary também pode criticar Charles. O marido não enxergava (ou não queria enxergar) absolutamente nada que ocorria a seu redor. Não perceber que a traição da mulher matava seu casamento é uma forma de displicência, que comprova que o traído contribuiu para a traição, por conta da falta de atenção, dissimulada com um curioso excesso de cuidados. Charles protestava pela maior dedicação à mulher. No entanto, há cenas em que o médico praticamente pede para ser traído, em forma de uma confiança ilimitada na mulher. Um paradoxo.

É o antigo tema da vitimologia, na sua versão original, propagada por Benjamin Mendelson, que advogou em Jerusalém e que publicou estudos nesse campo, na década de 1950. No Brasil, o grande estudioso de vitimologia foi Heitor Piedade Júnior, que presidiu a Sociedade Brasileira de Vitimologia e que faleceu em janeiro de 2022.

É importante que tentemos entender Emma Bovary. Deixemos de lado qualquer julgamento carregado de acentuado moralismo. Nesse ponto, o grande defensor de Emma Bovary é o meu escritor predileto, Mário Vargas Llosa. A leitura de A orgia perpétua, de Vargas Llosa, é o grande complemento à leitura de Flaubert.

Emma, segundo o escritor peruano, nos provoca simpatia ou indiferença ou desprazer. Não há espaço para a indiferença. O sexo é a base dos conflitos contidos no livro, ainda que de maneira oculta. É uma das razões pelas quais Flaubert foi processado. Explicarei esse processo em coluna vindoura. Para Vargas Llosa é a felicidade sexual de Emma que explica a sua cegueira. O que é humano, demasiadamente humano.

O livro tem como pano de fundo eventos da política e da cultura francesa da segunda metade do século 19. Há uma tensão entre o legado do iluminismo, centrado na simpática figura do farmacêutico e o ultramontanismo, centrado na óbvia figura do padre. Os diálogos que opõem essas duas personagens revelam a perspicácia do escritor, disfarçada na forma de rígido formalismo descritivo. O romance é francês até o osso; mas não se trata, no entanto, de um romance parisiense. O autor deixa nítido esse corte no subtítulo do livro: cenas de província.

As descrições das cidades são riquíssimas em pormenores. O leitor contempla mentalmente ruas, praças, logradouros, pradarias, riachos. A riqueza descritiva é um traço definidor de Flaubert. Madame Bovary é uma das pedras fundantes da estética realista. Dona Capitolina (do famoso romance de Machado de Assis) pode derivar um pouco de Flaubert; isto é, se apressadamente condenamos Capitu, a quem não se deu o direito de defesa.

Acho que a obra é perfeita. Ao longo do livro, nenhuma palavra a mais, nenhuma palavra. No fecho, o destino da filha desse casal infeliz, que pode ser o infortúnio daqueles que não nasceram em lares construídos sobre rochas, como lemos na belíssima parábola neotestamentária atribuída às narrativas de Mateus (7:24-27) e de Lucas (6:48-49). Um castelo construído sobre a areia não resiste às tempestades.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

é livre-docente pela USP, doutor e mestre pela PUC- SP e advogado, consultor e parecerista em Brasília, ex-consultor-geral da União e ex-procurador-geral adjunto da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

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