Norberto Bobbio, em seu O Futuro da Democracia (2000), afirma que não tem a pretensão de fazer um exercício de futurologia. Ora, se o grande mestre pensa dessa forma, aqui também não se têm essa intenção. Mas após uma breve etnografia digital, é possível encontrar contradições importantes no protocolo eleitoral chileno, que não devem passar despercebidas a nós, estudiosos do regime democrático, tão vilipendiado nos últimos tempos.

José Antonio Kast vence eleições presidenciais no Chile
Lembrando, de largada, que protocolo eleitoral não significa protocolo democrático, conceito que deve ser mais trabalhado como um certo nível democrático saudável dentro das disputas sociais. Como exemplo, os Estados Unidos apresentam protocolo eleitoral, mas o protocolo democrático não tem sido implementado de maneira satisfatória, seja pela impossibilidade política de debates amplos no Poder Legislativo daquele país, oprimido pelo Poder Executivo, seja pela natureza do sistema bipartidário, que embaralha a racionalidade lógica da amplitude de ideias inerente à própria natureza humana.
Feitas tais considerações iniciais, neste último dia 14/12/2025, o povo chileno foi às urnas para eleger o novo governante do país pelos próximos anos, concernidos com os novos desdobramentos da democracia no nosso continente. O candidato escolhido foi José Antonio Kast, do Partido Republicano, recentemente convertido ao espectro de centro-direita.
O desenlace das eleições chilenas chega num momento crucial para a democracia na América Latina. Afora a questão dos minerais imprescindíveis para o desenvolvimento dos insumos da indústria de tecnologia, dentre os quais o lítio em quantidades abundantes nas terras chilenas, a retomada da chamada “Doutrina Monroe” e a iminente invasão estadunidense no continente causam preocupações.
Mais que isso, o avanço da extrema-direita em todo o mundo. como a face ideológica do capitalismo financeiro, torna opaco o cenário democrático na latinidade.
O Partido Republicano Chileno, mimetizando o Partido Republicano estadunidense, foi fundado por Kast em meio às Explosões Sociais Chilenas, de outubro de 2019, como um movimento de backlash pinochetista a confrontar a agenda antineoliberal, decolonial e progressista dos manifestantes.
Na época, José Antonio Kast viu uma brecha de poder quanto aos valores conservadores e se apresentou como um nome da extrema-direita, empresário bem-sucedido embrenhado na política, e opositor ferrenho da novel cultura que vinha se desenhando nos movimentos sociais feministas, indígenas, dos idosos e da juventude periférica.

A oponente de Kast, Jeannette Jara, ex-ministra do Trabalho do Governo Gabriel Boric, e filiada ao Partido Comunista Chileno, representava o justo contrário, mas com um elemento em comum: a tentativa de ambos os candidatos de sair da radicalização que os guiou ao longo da carreira política. Evidentemente, Kast, expoente da extrema-direita, e Jara, da extrema-esquerda.
A suavização do discurso, a este propósito, tornou a candidatura de Kast palatável ao grande eleitorado. Noutro ângulo, a campanha de Kast foi ancorada em pauta de costumes e discurso xenefóbico sem disfarces, ao passo que a desradicalização de Jara encontrava eco até na promessa de desfiliação do Partido Comunista caso vencesse o certame eleitoral.
Segundo os dados das eleições chilenas nas redes sociais, Kast venceu a eleição com 58,17% dos votos, contra 41,83% destinados a Jara, o que não foi nem de longe a projeção dada pelos analistas políticos nos telejornais chilenos durante todo o processo eleitoral, que davam como uma vitória na proporção 70-30 para Kast.
Esse sprint de Jara no final da campanha demonstra que o povo chileno não comprou de todo a ideia de suavidade no discurso de Kast, mas ao mesmo tempo demonstra ao vencedor que, se sua atitude mudar, voltando à extrema-direita radical pinochetista, a popularidade presidencial pode ser abalada.
Discurso xenofóbico
E o receio de que Kast retorne ao discurso radical de direita não é mera conjectura: após eleito, já embarcou para Buenos Aires para uma visita ao seu apoiador Javier Milei, enquanto paradoxalmente mantém uma relação cordial com Gabriel Boric, atual presidente do Chile, de centro-esquerda.
Como a maçã não cai longe da macieira, o justo receio de um governo fechado às agendas populares é válido, porque Kast advoga uma pauta de segurança pública muito temerária, própria das elites chilenas, com a (super) criminalização dos movimentos sociais, ainda mais se tratando da população indígena, que, não surpreendentemente, está localizada nas terras economicamente mais ricas e, portanto, mais visadas.
Outro ponto abrasivo é o discurso xenofóbico de Kast, que dirige o ódio popular aos migrantes haitianos, venezuelanos e peruanos, nesta mesma ordem, inquinando-os de ilegais e indesejáveis, ao mesmo tempo culpabilizando-os pelo aumento dos índices de violência, que estão muito distantes dos marcos brasileiros (somente a título de comparação), esquecendo-se de forma conveniente que a pauperização e precarização generalizada da população é um fenômeno neoliberal por excelência.
Outra questão preocupante é o recrudescimento da chamada “pauta de costumes” prometida por Kast, sabidamente um pano de fundo para a chancela de todos os tipos de violência contra a mulher, num mundo onde a violência dirigida às mulheres se torna cada vez mais alarmante, geralmente sob a desculpa de moralização.
Durante a campanha, as redes sociais de Kast lançaram uma fake news contra a candidata Evelyn Matthei, ex-ministra do Trabalho e Previdência Social no governo Sebastían Piñera, de centro-direita, de 2011 a 2013. Nas postagens, alegava-se que Matthei sofria de Mal de Alzheimer, um caso que merece estudos politólogos, por se tratar não só de violência de gênero política, mas também de puro etarismo diante da tentativa de deslegitimar e silenciar uma mulher madura na política.
Assim mesmo, sindicatos, partidos políticos, igrejas, movimentos sociais, empresas privadas, big techs, são atores sociais e instituições da tecitura social em disputa desigual e injusta. O Estado, por sua vez, espelha – ou deveria espelhar – a institucionalização equidistante e normalizadora que rege essas disputas, formando a base das dinâmicas sociais, mas, em contradição, imbuídas de falácias que tornam a nossa vida um pouco menos opressiva, conformando justamente as disputas daqueles atores, dentro do contexto do capitalismo tardio imanente à América Latina.
Umbral democrático
Posta a natureza das sociedades latinas atuais, a tarefa de manter e fazer desenvolver o Chile, agora atribuída a Kast, não é fácil, mesmo porque Boric falhou nesse trabalho. Em meio a escândalos de corrupção, acusações de leniência, faltou àquele rapaz da Revolta dos Pinguins (2006) o brilho no olhar de querer mudar o mundo.
A Revolta dos Pinguins foi o movimento dos estudantes chilenos secundaristas, assim chamada porque o uniforme das crianças e adolescentes daquele país, com blazer preto, camisa branca e gravata, os faz parecer a pequena ave do Sul Polar. Realizaram protestos no nível nacional, ocupando as escolas para a consecução da desmercantilização do sistema chileno de ensino, uma herança do neoliberalismo implementado à força pela ditadura empresarial-militar pinochetista, de 1973 a 1990.
O principal defeito de Gabriel Boric como presidente chileno, no entanto, foi o fracasso em conseguir uma coalisão política mínima de forma a aprovar uma nova constituição democrática. Esse verdadeiro umbral democrático teve um custo político a Boric, porque a Constituição de 1980, muito embora reformada em 2005, foi outorgada em um contexto histórico ditatorial empresarial-militar, e traz esse cerne antidemocrático como um defeito de origem inafastável.
Diante desse quadro, Kast também tem nas mãos a possibilidade de corrigir esses desvios de rota no protocolo democrático chileno, porque tem o apoio popular e das elites para que o Chile siga seu caminho de prosperidade.
Mas se ficar atrelado a ideias eleitoreiras e morais descoladas da realidade econômica, como vimos em outros locais das Américas, quem perde é o próprio Chile.
A conferir. Boa sorte, Kast!
Referências
BOBBIO, Norberto. O Futuro da Democracia. São Paulo: Paz e Terra, 7ª ed., 2000.
BYUNG-CHUL, Han. La Sociedad del Cansancio. 3ª ed. Buenos Aires: Herder, 2023.
BYUNG-CHUL, Han. Psicopolítica – O Neoliberalismo e as Novas Técnicas de Poder. 10ª ed., Belo Horizonte: Âymé, 2023.
COELHO, André Luiz. Por Que Caem os Presidentes? Contestação e Permanência na América Latina. Rio de Janeiro: Mórula, FAPERJ, 2022.
COLETIVO Tinta Limón. Chile em Chamas – A Revolta Antineoliberal. São Paulo: Elefante, 2021.
COUTO, Alexandre Freitas. Mudanças nos Ventos Constitucionais Chilenos. Consultor Jurídico, mai 2023. Disponível aqui.
SOUZA, Jessé. Por que a Esquerda Morreu? E o que devemos fazer para ressuscitá-la. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2025.
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