Ao assumir a tarefa de representar judicialmente Clarice Herzog, viúva do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar em 1975, Sergio Bermudes ajudou a escrever um dos episódios mais marcantes da advocacia brasileira. O trabalho do advogado resultou, em 1978, na condenação da União a indenizar Clarice pela morte do marido, naquela que foi uma das primeiras derrotas judiciais dos militares por causa da prática rotineira de torturar e assassinar quem ousava pensar diferente.

O jornalista Vladimir Herzog foi assassinado pela ditadura militar em 1975
Do ponto de vista histórico, o fato de a indenização não ter sido paga representa muito pouco. O reconhecimento do Poder Judiciário de que Vladimir Herzog não cometeu suicídio enquanto era mantido preso pela ditadura bastou para abrir o caminho para outros questionamentos e, um pouco mais adiante, a inevitável abertura, ainda que “lenta, gradual e segura”.
Testemunha ocular daqueles fatos, o jornalista Paulo Markun recorda a participação decisiva de Sergio Bermudes na recuperação da dignidade de Vladimir Herzog como forma de homenagem ao advogado, morto nesta segunda-feira (27/10), aos 79 anos.
Leia a íntegra do depoimento de Markun:
“A morte de Sergio Bermudes me faz lembrar de um momento decisivo na história recente do Brasil. Para mim, seu nome estará para sempre ligado ao caso Herzog. Em 1978, com a ditadura ainda no poder, acompanhei de perto o trabalho dele ao lado de Samuel McDowell de Figueiredo e Marco Antônio Barbosa como representantes de Clarice Herzog no processo aberto pela viúva de Vlado contra a União.
Conversei com os três advogados durante aquele processo. Desde logo era evidente para Bermudes e seus colegas, McDowell e Barbosa, a dimensão do desafio: não se tratava apenas de ganhar uma causa, mas de desmontar uma farsa sustentada pelo aparelho repressor. O inquérito policial militar tinha sido desenhado para ‘apurar as condições do suicídio’ de Vladimir Herzog — nem sequer investigava sua morte como homicídio. Pude contribuir com pequenas informações sobre a realidade do DOI-Codi, onde todos eram torturados e ninguém usava macacão com cinto.
Decisivo mesmo foi o depoimento extrajudicial de Rodolfo Konder, grande amigo de Vlado. Vi como aquele testemunho ajudou a construir a verdade que o regime tentava esconder. Em outubro de 1978, quando o juiz Márcio José de Moraes reconheceu que Herzog fora assassinado sob custódia do Estado, a ditadura sofreu sua primeira derrota no Judiciário.
Bermudes fundara seu escritório em 1969 e construiu uma carreira de quase 50 anos, tornando-se um dos advogados mais importantes do país. Mas aquela vitória no caso Herzog permanece como um farol — prova de que era possível enfrentar o arbítrio mesmo nos anos mais sombrios”.
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