No domínio da segurança pública prevalece a lógica de que operações policiais repressivas e em grande escala são a ferramenta mais eficaz para desmantelar organizações criminosas. A estratégia, muitas vezes focada na prisão de líderes e membros-chave (a chamada “kingpin strategy”), parte do pressuposto de que a remoção de peças centrais levará ao colapso da rede. No entanto, uma pesquisa sugere que a abordagem pode ter um efeito colateral perigoso e contraintuitivo: fortalecer a resiliência e a opacidade do crime organizado.
Um estudo recente subscrito por Elteren van Casper, Vítor V. Vasconcelos e Mike H. Lees, associados do Instituto de Informática e do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Amsterdã, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences [aqui], apresenta uma abordagem diferenciada sobre a dinâmica complexa do combate ao crime organizado. A pesquisa, realizada em colaboração com a Polícia Nacional Holandesa, indica o motivo pelo qual as redes criminosas conseguem se reorganizar e continuar operando, mesmo após sofrerem intervenções diretas e significativas.
Adaptação como mecanismo de sobrevivência
O principal achado do estudo é que, quando pressionadas, as redes criminosas não se desintegram simplesmente. Em vez disso, as redes criminosas se adaptam, adotando novas estratégias de sobrevivência. Ações direcionadas e específicas, em geral, orientadas à prisão de indivíduos-chave (líderes), de fato fragmentam a rede. No entanto, o resultado prático implica na reorganização em grupos menores, mais descentralizados e especializados, sem que signifique o fim. Em consequência, fragmenta-se o poder dos grupos que se mantêm e, em alguns casos, até aumentam os níveis de atividade criminosa, ao mesmo tempo em que se tornam menos visíveis às autoridades, com novas táticas de dispersão e camuflagem
Os pesquisadores descrevem o fenômeno como “amplificação da opacidade criminal”, significando que, justamente quando a pressão policial é maior, a estrutura da rede se altera para reduzir a visibilidade, tornando o monitoramento e a coleta de inteligência significativamente mais difíceis e custosos.
Teoria dos jogos e a lógica criminosa
Para entender como essa reorganização acontece, os pesquisadores desenvolveram um modelo baseado na Teoria dos Jogos. Na modelagem, cada membro da rede criminosa avalia constantemente os benefícios da colaboração [lucro, proteção etc.], em relação aos riscos de ser detectado e preso. Quando a intervenção policial aumenta o risco, a estrutura da rede muda para otimizar a sobrevivência, adotando estratégia dominante.

Conforme explica o artigo as intervenções não se limitam a remover os criminosos do sistema porque alteram o ambiente estratégico, exigindo reposicionamentos adaptativos e dispersão dos centros de comando, sem que necessariamente cessem as atividades. A mudança no ambiente pode, paradoxalmente, tornar as redes mais resilientes e temporariamente mais ativas, pois os membros buscam novas conexões e métodos para continuar operando sob o novo nível de risco (probabilidade versus consequência).
Implicações para estratégia de segurança pública
A pesquisa tem implicações profundas para o desenho de políticas de segurança pública, demonstrando que não existe uma “solução única” ou uma estratégia de intervenção universalmente eficaz. Intervenções mal planejadas ou aleatórias correm o risco de agravar o problema, fragmentando uma rede grande em várias menores e mais difíceis de rastrear, ampliando os custos de monitoramento e detecção.
Os autores argumentam que, para desestabilizar as organizações criminosas de forma eficaz, é preciso ir além de identificar “quem” está envolvido, ampliando-se o foco da abordagem de modo inteligente e holístico. É relevante entender “como e por que eles se coordenam“, mapeando o funcionamento concreto da organização, as fontes de receita e as formas de lavagem do dinheiro obtido. O argumento básico é o de que as redes criminosas se comportam como sistemas adaptativos complexos, semelhantes aos encontrados na natureza, cujos membros ajustam suas conexões para garantir a sobrevivência do todo.
Novo paradigma: da ação pontual à adaptação contínua

Com suporte nos achados da pesquisa, os autores propõem uma mudança de paradigma: abandonar as ações isoladas e de grande escala em favor de abordagens adaptativas e contínuas por parte das agências de controle estatal, abarcando o monitoramento constante de como as redes evoluem em resposta a uma intervenção, ajustando as estratégias de acordo com a reorganização do grupo. Em vez de atacar o sintoma, busca-se enfrentar a causa, evitando-se ações atômicas e tendencialmente ineficientes em favor de ações holísticas coordenadas e diferidas no tempo.
A lição aprendida da leitura do texto extrapola a lógica dominante do combate ao crime organizado, servindo de framework operacional ao enfrentamento de diversas questões sociais complexas, dentre elas as redes de desinformação, estruturas de fraude financeira e até gestão ecológica.
Em suma, o enfrentamento do crime organizado pelo Estado demanda mais do que força bruta, exigindo-se inteligência estratégica, adaptação e uma compreensão profunda de que o alvo é um sistema dinâmico [não é um alvo estático] e que intervenções brutas podem servir para aparentar atacar o problema do crime organizado, gerar notícias impactantes, mas sem o efeito pretendido, justamente por ignorar a capacidade de adaptação das redes criminosas. Logo, por mais bem-intencionadas que sejam as ditas intervenções de força bruta, ao fim e ao cabo, fortalecem as estruturas que pretendem destruir. Se intervenções de força bruta fossem eficazes, então o panorama atual do crime organizado seria diferente. Insistir em práticas ineficazes, no entanto, é uma característica humana que, em vez de reajustar a estratégia, dobra a aposta. Eis o estado da arte.
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