Ao utilizar a polícia militarizada do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) para impor medo e terror a imigrantes e invadir a Venezuela para capturar Nicolás Maduro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, preencheu certas lacunas que faltavam para ser considerado fascista por uma parte da opinião pública.

Para historiador, uso do ICE e ação militar na Venezuela explicitam fascismo de Trump
A percepção é do historiador Rui Tavares, deputado da Assembleia da República em Portugal, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo. O acadêmico é defensor de longa data da tese de que líderes da extrema-direita atual, incluindo o republicano, emulam as mesmas características dos regimes totalitários que vigoravam nos anos 1920 e 1930.
Para Tavares, os argumentos de quem não enxergava Trump como representante do movimento inaugurado por Benito Mussolini caíram por terra com as empreitadas militares na Venezuela e na Groenlândia.
Características clássicas do fascismo, como a existência de uma milícia do regime e a retórica violenta de expansão territorial, estão explícitas no segundo governo do republicano, afirma.
No texto, ele faz menção à coluna no jornal The New York Times assinada pela colunista Michelle Goldberg. Tavares classifica como importante a admissão de Goldberg de que “estiveram certos aqueles que durante todos estes anos defenderam a tese de que Donald Trump representa um tipo de fascismo do século 21”.
“Na verdade, o debate já poderia ter ficado encerrado antes, quando os trumpistas tentaram invadir o Capitólio. Depois desses acontecimentos, o historiador Robert Paxton, um dos maiores especialistas mundiais na história do fascismo, e até então circunspecto na utilização do termo, mudou de ideia”, escreveu o historiador no artigo.
“Para resumir, chegamos ao ponto em que negar que Trump seja fascista cria mais problemas do que resolve, e em que entender o que significa um fenômeno fascista de tipo novo no nosso século esclarece mais do que atrapalha a análise.”
Pulsão totalitária
A discussão sobre o tema, ressalta o historiador, não se dá pelo prazer de resolver uma certa disputa intelectual, que busca enquadrar quem é ou não é fascista. Mas, sim, de entender as pistas sobre o que esperar do segundo mandato do republicano.
Diante de uma certa mutação do trumpismo, Tavares questiona se a pulsão de Trump poderia ser totalitária, e não somente autoritária, diferença que, em sua avaliação, é grande.
“Se a pulsão de Trump for totalitária, o que é verdade hoje de manhã pode ser mentira amanhã à noite, ou até mesmo hoje ao fim da manhã, e em cada vez tem de ser defendido com a mesma veemência. A experiência é muito mais desestruturante”, diz. “Os EUA ainda não são um regime totalitário. Mas a pulsão de Trump é totalitária. Se acham que isso não tem consequência para o mundo, perguntem aos groenlandeses.”
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