Normas defasadas

Lei de Direitos Autorais deve ser atualizada para proteger artistas, diz Marisa Monte

A Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/98) precisa ser atualizada para responder à nova realidade tecnológica da produção artística. A norma, que tem quase 30 anos, não previu o alcance das plataformas digitais e da inteligência artificial, o que exige adaptações para garantir remuneração justa aos criadores de conteúdo.

Cantora discursou durante homenagem na Faculdade de Direito da USP

Essa avaliação é da cantora Marisa Monte, que discursou sobre os desafios jurídicos da classe artística durante uma homenagem que marcou o início das comemorações do bicentenário da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP), nesta terça-feira (21/7).

O evento ocorreu no Salão Nobre da faculdade e teve como tema “Arte, Direito e Cultura: reflexão, desafios e perspectivas”. A mesa de abertura contou com a presença da homenageada ao lado do reitor da Universidade de São Paulo (USP), professor Aluísio Segurado; da diretora da FDUSP, professora Ana Elisa Bechara; e dos professores Ludhmila Hajjar e Heleno Torres.

Durante a cerimônia, também houve uma apresentação musical e a exibição de um vídeo sobre a trajetória de Marisa Monte, que é a terceira mulher a receber o título de doutora Honoris Causa pela USP e atua como embaixadora do programa USP Diversa.

A cantora destacou em seu pronunciamento a vulnerabilidade de músicos e compositores que ainda vivem à margem dos mecanismos formais de proteção. Ela explicou que a indústria musical passou por uma revolução com o domínio global das big techs e dos serviços de streaming, deixando uma lacuna na defesa do patrimônio intelectual.

A artista enfatizou que a Lei de Direitos Autorais cumpriu o seu papel na época em que foi criada, mas hoje precisa de adaptações estruturais.

“A lei precisa responder a essa nova realidade. Precisa reconhecer com clareza as atribuições, as responsabilidades das plataformas digitais e das bibliotecas. E exigir transparência, assegurar remuneração justa, reconhecimento dos criadores”, afirmou. Para a cantora, é preciso “impedir que a inovação seja construída às custas da injustiça e da exclusão”.

Divulgação/FDUSP

Marisa Monte discursa na FDUSP

Marisa Monte discursa no evento na FDUSP
ConJur

Mano Wladimir e Helena, filhos de Marisa Monte

Mano Wladimir e Helena, filhos de Marisa Monte
ConJur

Heleno Torres, Marisa Monte, Ludhmila Hajjar e Aluísio Segurado

Heleno Torres, Marisa Monte, Ludhmila Hajjar e Aluísio Segurado
ConJur

Salão Nobre da FDUSP ficou lotado para ouvir Marisa Monte

Salão Nobre da FDUSP ficou lotado para ouvir Marisa Monte
ConJur

Ludhmila Hajjar

Ludhmila Hajjar

Inteligência artificial

Outro tema abordado no discurso foi o avanço da inteligência artificial. Marisa Monte afirmou que a inovação não deve ser impedida, mas alertou que os sistemas generativos são treinados e exploram dados, vozes e composições sem autorização, transparência ou pagamento aos autores.

A compositora comparou a urgência da necessidade de regulação das novas tecnologias com as regras de trânsito, que foram estabelecidas para dar segurança à vida em sociedade.

“Não criamos regras para impedir que os carros avancem, mas criamos regras para que avancem sem atropelar as pessoas. Com a inteligência artificial, o princípio deve ser o mesmo. A tecnologia não pode ser tratada como uma força da natureza inevitável e imune à responsabilidade.”

Reforma tributária

A cantora também relacionou a regulação dos dados dos cidadãos com a soberania nacional. Ela criticou a concessão de terras, água e incentivos fiscais para a instalação de grandes data centers no país enquanto os lucros, o controle e o conhecimento permanecem concentrados no exterior.

Marisa Monte também expressou preocupações com os impactos da reforma tributária para a classe artística. Segundo ela, há riscos ao financiamento do setor diante das mudanças previstas para mecanismos de incentivo à cultura.

“Com a substituição gradual do ISS e do ICMS pelo IBS, muitos dos mecanismos estaduais e municipais de incentivo que hoje sustentam orquestras, festivais, museus, patrimônio histórico e instituições culturais precisarão ser revistos”, previu.

Clique aqui para ler o discurso na íntegra ou assista abaixo:

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