Opinião

Politizar crime organizado não faz bem para ninguém em nenhum lugar do mundo

Reprodução/TV Globo

Homem que delatou esquema de lavagem de dinheiro do PCC foi assassinado em aeroporto

Não há dúvidas de que o PCC seja um cartel de drogas dos mais perigosos, capaz de assassinar juízes e delegados, ameaçar promotores, traficar quantidades enormes de cocaína para a Europa e África e se transformar em uma empresa criminosa multimilionária.

Também, recentemente, tentou impor controle sob o trânsito de pessoas e veículos em uma favela (Heliópolis, em São Paulo), o que não conseguiu, logo que a notícia se deu o malfeito foi desfeito.

O Primeiro Comando da Capital mata desafetos fora do sistema prisional (caso da morte de Vinícius Grizbach no Aeroporto de Guarulhos) inclusive com o auxílio de membros das forças de segurança.

É um perigo do qual não se pode desprezar, um combate difícil de travar e uma guerra que ainda vai se desdobrar por anos.

O grande problema é que hoje o PCC deixou de ser um tema criminal e se tornou pauta política e tudo que a política toca se transforma em interesses também políticos.

Atualmente se fala em PCC com uma espécie de pânico moral, uma ocorrência social intensa, desproporcional e geralmente alimentada pela mídia, autoridades e opinião pública diante de uma pessoa, grupo, prática percebida como ameaça aos valores e à ordem social.

O cartel se tornou o godzilla da imprensa, criou-se a ideia de uma superorganização infiltrada em toda sociedade, bancos, políticos, forças de segurança, executivo, legislativo e judiciário comprometidos, etc. Entretanto, isto se apresenta como um flagrante superdimensionamento. O PCC não tem força suficiente para corromper o Estado, vencer as forças de segurança, intimidar os poderes públicos ou controlar áreas em São Paulo.

O PCC não domina licitações e nem serviços públicos. Existem ações pontuais onde por alguma excepcionalidade se tocam em tais pontos, mas longe, muito longe desse tornar uma força que possa se comparar às forças estatais. O PCC não está infiltrado no Estado como os cartéis mexicanos estão, como a Cosa Nostra foi ou como os colombianos enfrentaram. Mas, o evento político e o pânico moral fazem criar uma imagem que vai além do real e cobrem um imaginário por onde transitam todos aqueles fãs da Netflix.

Em parte, foi o pânico moral, trabalhado politicamente, que emprestou o caráter superdimensionado, e este imaginário passou a ser tratado como realidade. Deu no que deu. Se aqui se tornou em instrumento de discussão política, também fora se tornou meio de expressar interesses nada confessáveis. Culpa nossa entregar argumentos falaciosos aos Estados Unidos como se fosse verdade.

Agora querem matar o godzilla, nem que para isto tenham que transformar o Brasil novamente em colônia.

Márcio Sérgio Christino

éprocurador de Justiça do MP-SP, vice-presidente da Associação Paulista do Ministério Público e professor universitário.

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