Rômulo Moreira: A era da cizânia e a proliferação da burrice

Na edição deste mês de outubro (394), a revista Super Interessante, da Editora Abril, traz uma excelente reportagem feita pelos jornalistas Eduardo Szklarz e Bruno Garattoni, que talvez explique, ao menos em parte, a ascensão de um fascista na política brasileira. Intitulada A Era da Burrice, a matéria inicia fazendo uma pergunta:

— “Você já teve a impressão de que as pessoas estão ficando mais burras?”

E os jornalistas respondem:

— “Talvez você esteja certo. Estudos feitos em vários países apontam que, sim, a inteligência humana começou a cair.”

Os autores buscam identificar em algumas atitudes contemporâneas o fenômeno do aumento da burrice no mundo. Por exemplo:

1) Discussões inúteis, intermináveis e agressivas;
2) Gente defendendo as maiores asneiras, e se orgulhando disso;
3) Pessoas perseguindo e ameaçando as outras;
4) Um tsunami infinito de informações falsas;
5) Líderes políticos imbecis.

E justificam o fenômeno arrasador: “Estudos realizados com dezenas de milhares de pessoas, em vários países, revelam algo inédito e assustador: aparentemente, a inteligência humana começou a cair.”

Citam, então, o antropólogo inglês Edward Dutton, autor de uma revisão analítica das principais pesquisas já feitas a respeito[1]: “Há um declínio contínuo na pontuação de QI ao longo do tempo. E é um fenômeno real, não um simples desvio.”

No Brasil, nada obstante não haver dados científicos a respeito do fenômeno, “os nossos indicadores são terríveis”, segundo os autores da reportagem. Para fazerem tal afirmação, levaram em consideração um estudo feito este ano pelo Ibope Inteligência, que revelou o fato de “29% da população adulta ser analfabeta funcional, ou seja, não consegue ler sequer um cartaz ou um bilhete.”

Como, então, explicar “a aparente proliferação de burrice mesmo entre quem foi à escola?” Uma primeira explicação, altamente questionável, é dada pelo psicólogo Michael Woodley, da Universidade de Umeã, na Suécia, segundo o qual “a capacidade cognitiva é fortemente influenciada pela genética. E as pessoas com altos níveis dela vêm tendo menos filhos.”

Ora, trata-se de uma teoria perigosíssima, pois, no passado, como lembram os autores da reportagem, “levou à eugenia, uma pseudociência que buscava o aprimoramento da raça humana por meio de reprodução seletiva e esterilização de indivíduos julgados incapazes. Esses horrores ficaram para trás e hoje ninguém proporia tentar 'melhorar' a sociedade obrigando os mais inteligentes a ter mais filhos – ou impedindo as demais pessoas de ter.”

Uma outra hipótese, esta desenvolvida, dentre outros, por Mark Bauerlein, professor da Universidade Emory, nos Estados Unidos, e autor do livro The Dumbest Generation, ainda não lançado no Brasil, seria a de “que o salto tecnológico dos últimos 20 anos, que transformou nosso cotidiano, possa ter começado a afetar a inteligência humana.” Segundo o professor americano, “hoje, crianças de 7 ou 8 anos já crescem com o celular”, justamente o período da vida em que “deveriam consolidar o hábito da leitura, para adquirir vocabulário.”

Ressalvando que não são luditas[2], os jornalistas alertam que, efetivamente, “há indícios de que o uso de smartphones e tablets na infância já esteja causando efeitos negativos. Na Inglaterra, por exemplo, 28% das crianças da pré-escola (4 e 5 anos) não sabem se comunicar utilizando frases completas, no nível que seria normal para essa idade. Segundo educadores, isso se deve ao tempo que elas ficam na frente de TVs, tablets e smartphones. O problema é considerado tão grave que o governo anunciou um plano para reduzir esse índice pela metade até 2028 — e o banimento de smartphones nas escolas é uma das medidas em discussão.”

Uma terceira hipótese “é que o uso intensivo das redes sociais, que são projetadas para consumo rápido e consomem boa parte do tempo, esteja corroendo nossa capacidade de prestar atenção às coisas. Você já deve ter sentido isso: parece cada vez mais difícil ler um texto, ou até mesmo ver um vídeo do YouTube, até o final.”

Ora, “se prestamos menos atenção às coisas, elas obrigatoriamente têm de ser mais simples. E esse efeito se manifesta nos campos mais distintos, da música aos pronunciamentos políticos.” (grifei de propósito e para significar!).

No campo político esse fenômeno é bastante visível. Um estudo da Universidade Carnegie Mellon, também nos Estados Unidos, “constatou que os políticos americanos falam como crianças. A pesquisa analisou o vocabulário e a sintaxe de cinco candidatos à última eleição presidencial (Donald Trump, Hillary Clinton, Ted Cruz, Marco Rubio e Bernie Sanders), e constatou que seus pronunciamentos têm o nível verbal de uma criança de 11 a 13 anos. Os pesquisadores também analisaram os discursos de ex-presidentes americanos, e encontraram um declínio constante. Abraham Lincoln se expressava no mesmo nível de um adolescente de 16 anos. Ronald Reagan, 14. Obama e Clinton, 13. Trump, 11 (o lanterna é George W. Bush, com vocabulário de criança de 10 anos).”

Evidentemente que esta constatação não significa, necessariamente — e isso seria algo por demais reducionista — que os políticos estão ficando, ao longo do tempo, burros. Não! O que ocorre, na verdade, segundo Szklarz e Garattoni, é que “eles estão sendo pragmáticos, e adaptando suas mensagens ao que seu público consegue entender — e, principalmente, estamos dispostos a ouvir. Inclusive porque esse é outro pilar da burrice moderna: viver dentro de uma bolha que confirma as próprias crenças, e nunca mudar de opinião.”

Trata-se, como eles próprios concluem, de um comportamento irracional.

Aqui, os jornalistas lembram de um fenômeno muito conhecido na psicologia: “o viés de confirmação”, consistente no fato de que uma pessoa irracional, nada obstante “diante dos argumentos mais irrefutáveis”, sempre mantém “a própria opinião.” É a velha tendência humana “de abraçar informações que apoiam suas crenças, e rejeitar dados que as contradizem.”

Este fenômeno da mente humana foi estudado pelo psicólogo americano, Kevin Dunbar, da Universidade de Stanford:

“Há informações demais à nossa volta, e os neurônios precisam filtrá-las. Há até uma região cerebral, o córtex pré-frontal dorsolateral, cuja função é suprimir informações que a mente considere 'indesejadas'. Tem mais: nosso cérebro libera uma descarga de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer, quando recebemos informações que confirmam nossas crenças. Somos programados para não mudar de opinião. Mesmo que isso signifique acreditar em coisas que não são verdade.”

Esta coisa da irracionalidade é tão séria que há quem defenda a tese de que a “razão” não exista mesmo, ao menos como a concebemos. Neste sentido, os cientistas cognitivos Hugo Mercier e Dan Sperber, de Harvard, no livro ainda inédito no Brasil, The Enigma of Reason, afirmam “que a razão é relativa. Altera-se conforme o contexto, e sua grande utilidade é construir acordos sociais — custe o que custar.”

Pois bem.

O que extrair dessa matéria? Ou o que dela concluir? Acho que ajuda a entender a ascensão fascista no Brasil. Assim, afora os verdadeiros fascistas (que comungam ou aceitam as ideias do fascista), há os burros e os irracionais. Parece-me ser assim que sucede. Desgraçadamente!


1 “The negative Flynn Effect: A systematic literature review”, Ulster Institute for Social Research, 2016 (em coautoria com outros autores).

2 O Ludismo foi um “Movimento operário inglês de protesto, que se desenvolveu no início do século XIX mediante a destruição de alguns tipos de máquinas industriais, que buscava alcançar melhorias salariais e frear a completa mecanização do ciclo de produção têxtil. O nome tem origem no lendário líder do movimento Nedd Ludd.” (BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola e PASQUINO, Gianfranco, Dicionário de Política, Volume II, Brasília: Editora UnB, 10ª. Edição, 1997, p. 722).

Rômulo Moreira

é procurador de Justiça e professor de Direito Processual Penal da Universidade Salvador (Unifacs). Membro da Association Internationale de Droit Penal, da Associação Brasileira de Professores de Ciências Penais, do Instituto Brasileiro de Direito Processual e membro-fundador do Instituto Baiano de Direito Processual Penal. Associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

O IDEÓLOGO disse:
13 de outubro de 2018 às 17:34

A falta de educação do povo brasileiro, colabora, parcialmente, para que forças do passado, voltem a fustigar a Democracia.
Possui, também, culpa, bastante elevada, o Congresso Nacional, omisso na adoção de políticas públicas destinadas a socorrer os membros mais fracos da sociedade e, ainda, na ausência de uma legislação penal mais agressiva, destinada a reprimir as condutas ilícitas. Optamos, voluntariamente, pela adoção do "bom selvagem", de J. J. Rousseau em contraposição ao "lobo" de Thomas Hobbes, no tratamento social do criminoso, como afirmou o Doutor Ramiro (Advogado Autônomo) em um comentário aqui no CONJUR.
Culpa, também, dos intelectuais que, restritos ao mundo abstrato, desprezaram a realidade dos habitantes das comunidades, acossados, violentamente, pelos rebeldes primitivos, sempre ansiosos na prática de seus inomináveis, pérfidos e censuráveis atos.

Claudia França disse:
13 de outubro de 2018 às 18:49

Alice nos país das maravilhas é clássico.
Me perguntam a razão de haver tão poucos Ministérios Públicos realizando operações de grande relevância ao País. Afinal, a corrupção é generalizada.

O MP precisa mesmo de gente de culhão roxo, que tenha perfil para investigar empresários e políticos corruptos, ladrões, tanto quanto aos assassinos e denunciá-los com o fito de colocá-los na cadeia.

Infelizmente há gente ruim e despreparada, ou sem perfil, nas instituições. A mariola de servidores públicos que trabalham no MP como "procuradores de justiça" e ficam numa sala de aula fingindo dar aulas para pessoas que fingem aprender, é exatamente um tipo de instrumentalização. E ainda querem chamar os outros de fascistas e burros.
Alguns Procuradores de justiça não sabem o que fazer. Então, vai lavar panela, pois nem para jornalista investigativo parece dar certo.
Conte ao menos uma história real, de investigação e denuncia que você realizou sobre algum político/empresário corrupto. Se existir mesmo aquela inteligência que você se referiu, ficará implícito.

"Não se pode comparar o atual pleito com as conhecidas ideologias comuno-facistas, especialmente uma que elegeu Hitler. Hoje diz-se: "Brasil acima de tudo, DEUS acima de todos". A comparação forçada é tentativa de se criar engodo, distorcendo a realidade brasileira. Senhores, leiam o livro do jornalista Leonardo Coutinho, Vestígio, 2018 e comprovem o perigo que corremos com essa esquerda corrupta e maligna que dominou o país por mais de uma década".

"Maduro deu o golpe final e agora reina soberano na Venezuela, enquanto o povo não tem o que comer. O Brasil seguia no mesmo rumo, mas o povo acordou antes. Vamos eleger Jair Bolsonaro presidente para estancarmos de vez os planos da esquerda".
Bjim.

Rejane Guimarães Amarante disse:
13 de outubro de 2018 às 19:22

"O Nordeste e a cultura brasileira", só para citar alguns nomes, Ruy Barbosa, Orlando Gomes, Castro Alves, Graciliano Ramos, José Lins do Rêgo, , Ariano Suassuna, Manuel Bandeira, José de Alencar,João Cabral de Mello Neto, Raquel de Queiroz, Gonçalves Dias, Aloísio Azevedo, Artur Azevedo, Ferreira Gullar, Jorge Amado, Chico Anysio, José Wilker, Emiliano Queiroz, Marco Nanini, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Lenine, Zé Ramalho, Dorival Caymi, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethania e muitos e muitos outros.
Com tanta gente "porreta", inteligente, talentosa e criativa, a pergunta que não quer calar : por que o Nordeste não é a região mais desenvolvida do Brasil ?

MarcolinoADV disse:
13 de outubro de 2018 às 23:38

Concordo com o texto, mas acredito que há algum erro aqui: “29% da população adulta ser analfabeta funcional, ou seja, não consegue ler sequer um cartaz ou um bilhete.”

Ao verificar o que está prestes a ocorrer neste pobre país, o percentual deve ser bem mais elevado.

WLStorer disse:
14 de outubro de 2018 às 03:04

"O que extrair dessa matéria? Ou o que dela concluir?" Que afirmar que há a ascensão fascista no Brasil só pode ser realmente fruto da burrice ou, no mínimo, acreditar que há burros e irracionais como a si próprio.

O IDEÓLOGO disse:
14 de outubro de 2018 às 09:32

Muitos eleitores aspiram ao retorno do "Ancien Règime Militaire". Inclusive, muitos advogados.
Os causídicos se esquecem que na vitória "Dele", brevemente, não poderão participar com comentários no Conjur. Tiro no próprio pé.

João B. G. dos Santos disse:
14 de outubro de 2018 às 10:57

Mediante a evocação da burrice e do irracionalismo como mote da ascensão do fascismo no Brasil, o texto em comento, ao que parece, alude ao candidato Jair Bolsonaro e seus eleitores. Espero estar errado. Caso não esteja, o que se lê é grosseria com viés pseudocientífico. Para Adenauer, Deus era injusto pois criou sérios limites a inteligência dos homens, mas nenhum a sua burrice. Já que milhões de votos nada significam ao articulista, quem sabe o espelho de Alice lhe conte o que é burrice, irracionalidade e fascismo.

Lucas M. F. disse:
14 de outubro de 2018 às 15:33

Nada descreve melhor a burrice nacional do que um procurador de justiça que, compreendendo um termo técnico da Ciência Política como um analfabeto funcional, pretende, numa autogozação sinistra, apontar burrice ou irracionalidade nos outros.

Lucas M. F. disse:
14 de outubro de 2018 às 15:33

Nada descreve melhor a burrice nacional do que um procurador de justiça que, compreendendo um termo técnico da Ciência Política como um analfabeto funcional, pretende, numa autogozação sinistra, apontar burrice ou irracionalidade nos outros.

Mario Mendes disse:
15 de outubro de 2018 às 08:51

O articulista tem toda razão. A burrice tomou conta do mundo a partir das idéias que povoam a mente dos esquerdistas, que contra todas as razões, insistem em praticar o facismo, xingando de facistas àqueles de quem discordam. Os realmente burros (vítimas do esquerdismo e do patrulhamento de Paulo Freire) aceitam essa agressão gratuita aos eleitores de Bolsonaro como mostra de inteligência.

ubira39 disse:
15 de outubro de 2018 às 09:06

Concordo com o texto.
Até uns cincoenta anos atrás, a falta de cultura atingia notadamente as camadas mais pobres (financeiramente) da população. Hoje se proliferou até as classes mais abastadas. Ou seja, não existe mais "o grupo de incidência". Como eu não me locomovo em carro blindado, ando é a pé, nos pontos de ônibus (dentro de ônibus), na calçada, comércios, etc eu vejo e sinto na pele. Enfim, para ver e sentir essa nefasta realidade, basta Soltar se do vencilho e mostrar a cara ao sol.

antonio gomes silva disse:
15 de outubro de 2018 às 11:53

Estudo Direito. A tese aqui apontada é facilmente percebida, especialmente entre os jovens universitários, por exemplo. Leituras superficiais, comportamentos incompatíveis com a idade, crença absoluta em fatos notadamente falsos e deturpados, preguiça mental, desprezo à reflexão. Este é o cenário atual: e isso só vai piorar. E o nosso Congresso eleito? Alexandre Frota, Tiririca, Kim Kataguiri, Val Mamãe falei e tantos outros sujeitos de ignorância reconhecida. Vemos tal "burrice" no Judiciário, no Executivo, no Legislativo, nas conversas diárias, nos bares, faculdades, rodinhas de amigos etc. A burrice contaminou o Brasil. Em contrapartida, temos uma elite muito "sabida" que está manipulando os "burros" para que a burriceseja perpetuada e o status quo mantido indefinidamente, dessa vez de maneira ainda mais agressiva e persecutória.

Nhô Danilo Pereira disse:
16 de outubro de 2018 às 15:32

Vamos iniciar o comentário pelo autor do texto, RÔMULO MOREIRA. Vai ser burro assim lá longe. O Fascismo no Brasil se define como anti petismo , ou seja, é fascista quem se opõe ao PT. Isto porque, para o PT não existe oposição ou diferença de idéias e sim fascismo, homofobia, racismo, etc,., de quem dele discorda, só isso. Para o PT, não é burrice achar que um político preso (Lula) é um preso político, não é burrice deixar de perceber que todos os petistas presos foram ignorados para que apenas o chefe seja lembrado pelo que não é: um perseguido político. Não é burrice pensar que existe preso político em regime democrático. Não é burrice a cegueira política do "nós e eles" para quem a Justiça é seletiva, discurso esse que caiu por terra quando políticos de outras agremiações passaram a ser processados e presos. Não é burrice insistir que Aécio Neves não foi preso por ser protegido, sem levar em consideração o fato de que ele possui o execrável foro privilegiado, o qual, aliás, também beneficia petistas como, por exemplo, Gleisi Hoffmann. Burrice é pensar diferente do que pensa o PT, como está implícito no texto do burro Rômulo Moreira.

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