Uma coisa insustentável na área jurídica parece que deu certo no futebol: o anarco-textualismo. Foi o que aconteceu com a anulação do gol do atacante Rony, um feito estético, um gol de placa, por causa de milímetros de (um pretenso) impedimento. Quanta tolice.
Há uma coisa básica em qualquer interpretação, inclusive quando se trata na arbitragem futebolística: o telos. Ou seja: para que serve (qual é a finalidade) uma norma jurídica (mesmo que seja uma regra de futebol)?

É de irritar o que acontece com a farra da ignorância do VAR. Para explicar o que é "anarco-textualismo" (há um verbete do meu dicionário Senso Incomum que explica isso), uso um clássico exemplo: se uma lei proíbe que se leve cães na plataforma do trem, pareceria ridículo, patético e nescial que, por serem proibidos cães, houvesse passe livre para ursos, jacarés e quejandos. E seria muito bizarro que se proibisse a um cego que levasse o seu cão-guia. Ou até mesmo que uma criancinha levasse seu cão Yorkshire.
Ora, a lei que proíbe cães proíbe animais que causem perigo aos passantes. Simples. Assim como uma regra que proíbe of side no futebol tem o objetivo de impedir que o atacante leve vantagem sobre a zaga. Milímetros que somente são visíveis por alta tecnologia e com duvidosa linha computacional não podem ser enquadrados como infringência da regra do impedimento.
Aliás, centímetros na frente são invisíveis ao olho humano. Se o são, não trazem vantagem ao atacante. Impossível aferir. O VAR deveria analisar concretamente se houve vantagem. Nem vou falar de alguns pênaltis patéticos que são marcados todos os domingos por causa do toque de mão.
Não fosse por outra coisa, futebol é ludicidade. Esporte ludopédio. Não deve dar azo a tecnocracias e árbitros tecnocratas que nunca chutaram uma melancia na vida.
Urgente. Ou acabamos com essa pouca vergonha antiesportiva ou ela acaba com o ludopédio.
Parece que o gol de Rony foi a gota d1água. Foi o limite. A última fronteira.
Proponho uma ludo-hermenêutica. Já chegam os estragos feitos pelo textualismo (ou anarco-textualismo) no direito.
Se não acreditarem em mim, leiam Shakespeare. A peça Medida por Medida. Ali o néscio do Ângelo condena Cláudio à morte fazendo o uso do VAR. Não vou dar spoiler sobre o que disse o bardo.


está impedido, não importa que seja meu time de coração (e é o meu), não importa que tenha sido um golaço. As vezes a beleza está naquilo que não aconteceu. Mais ou menos como os gols que o Pelé não fez.
Ps. Nada melhor que Rony, o rústico (que é o craque mais perna de pau de todos - ou seria o perna de pau mais craque de todos?), para abrir este tipo de discussão!
Vai ficar chorando esse lance até quando, se fosse a favor do Galo não estaria nessa polêmica, mas, como é o Palmeiras do eixo Rio-São Paulo abre toda essa celeuma. O var está lá para isso, se estiver cabilésimo de centímetro a frente é impedimento e foi o que aconteceu com o atleta palmeirense. Ninguém fala do possível pênalte para o Galo quando a bola toca na mão do jogador palmeirense dentro da área em direção ao gol quando o goleiro já estava batido.
Também estou muito incomodado com esses impedimentos milimétricos, mas gosto do VAR.
Acho que o que precisa mudar é a regra: pra caracterizar o impedimento o atacante precisa estar ao menos um passo à frente do defensor, o que efetivamente caracterizará uma vantagem, é claro.
Pior do que essas aplicações draconianas de regras de futebol são aquelas feitas com as leis eleitorais, em prejuízo a direitos políticos, gravados dentre os direitos fundamentais na CF, não é mesmo?
Chamar o Rony de "perna de pau" é ignorar a realidade.
Como pode ser "perna de pau" um jogador que foi o artilheiro do Palmeiras em 2022, marcando 23 gols, sendo um dos protagonistas da equipe de Abel Ferreira, tendo papel importante nas conquistas do Campeonato Paulista, da Recopa Sul-Americana e do Campeonato Brasileiro (https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ ultimas-noticias/gazeta-esportiva/2022/1 1/24).
Como pode ser Rony um "perna de pau", jogar que saiu da cidade Magalhães Barata, no interior do Estado do Pará para brilhar no futebol nacional e internacional?
Revelado no Clube do Remo de Belém (PA), passando pelo Cruzeiro de Belo Horizonte (MG), pelo Náutico de Recife (PE), pelo Atlético Paranaense de Curitiba (PR), onde foi campeão da Copa do Brasil, superando o todo poderoso Flamengo do Rio de Janeiro (RJ), chegando ao também poderoso Palmeiras e à Seleção Brasileira, marcando tantos e belos gols e conquistando títulos nacionais e internacionais, não pode, honestamente, ser chamado de "perna de pau", pois, definitivamente, não é.
A Lógica do Razoável, de L. Recaséns Siches, tem lugar em países que adotam uma aplicação rigorosa da lei, servindo como raras exceções.
Aqui, com o jeitinho brasileiro, aquele comportamento que prevalece na terra dos tapuias, a lógica se converte em ilógica, para permitir que a criança com o seu pequeno cão ingresse em local proibido a este, que outra, ingresse com uma cobra sem veneno, que outra, também, ultrapasse os limites com o seu pequeno puma...
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