Opinião

Qual a verdade do ‘caso banco Master’?

Um excêntrico professor de Filosofia do Direito me ensinou que quase todas as respostas das perguntas sobre a vida estão nas obras de Platão.

E esse autor talvez tenha o melhor conceito sobre o que é verdade. A seu ver [1], a verdade é a luz exterior, acessível apenas a quem se liberta das ilusões.

Ele parece diametralmente oposto ao conceito de verdade de Monteiro Lobato, segundo o qual a “verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia[2].

Cada dia que passa, eu acredito que ambos os conceitos se complementam.

A procura pela verdade é um tema, vale dizer, presente em diversas áreas, como filosofia, direito e, sobretudo, jornalismo.

A filosofia se debruça sobre vários conceitos e o da verdade é apenas um deles; isto é: a filosofia, antes de querer saber o que é a verdade, se ocupa em descobrir o sentido da vida, da morte, da existência humana, temas ainda mais intrigantes.

Já o operador do direito, busca a verdade principalmente quando estuda matérias relativas a processo, notadamente no direito processual penal, pelo qual é preciso proteger a liberdade do réu contra possíveis “falsas verdades”.

Vê-se, pois, que na filosofia e no direito a verdade pode não ser um tema central para a atuação de seus profissionais.

De forma distinta, a verdade é o coração do jornalismo. É o centro vital de onde essa profissão extrai sentido. Aliás, a obrigatória busca pela verdade é que distingue o jornalista de outros comunicadores.

Por isso é impossível escrever sobre a verdade e não falar sobre o jornalismo.

A verdade, qualquer que seja a área de atuação, paira sobre dois pilares: a correspondência e a coerência.

Bertrand Russell, em Os Problemas da Filosofia (1912) [3], ensinou-nos que algo é verdadeiro se corresponde aos fatos tal como eles são no mundo; do contrário, estaremos diante de uma falsidade.

Em outro plano, inspirado pela Fenomenologia do Espírito, de Hegel, Brand Blanshard, em A natureza do pensamento (1939), escreveu que não basta a correspondência, pois é preciso também haver coerência na busca pela verdade. Em outras palavras, não basta corresponder aos fatos, para ser verdade, precisa fazer sentido.

Sem dúvidas, qualquer jornalista deveria se amparar nesse binômio da “correspondência-coerência”.

Há uma expressiva quantidade de jornalistas, todavia, seguindo a vertente pragmática (utilitarista), segundo a qual uma proposição é considerada verdadeira na medida em que atinja determinada finalidade, que pode não ser a busca pela verdade.

Dito de outro modo, o jornalista-utilitarista trata a informação não para se obter, com correspondência e coerência, a verdade, mas para manipular o público de modo a atingir outra finalidade, como a de “corrigir erros” e provocar respostas institucionais a qualquer custo.

Neste último caso, ouso dizer, o jornalismo pragmático poderia até vestir bem a democracia, se fosse um instrumento de pressão de autoridades exclusivamente em prol da coletividade, porém tal não ocorre.

Isso porque essa parcela de jornalistas parece atuar como a caricata figura descrita por Kovach e Ressentiel do profissional da imprensa que parece pensar que “a verdade é alguma coisa que surge sozinha como o pão que cresce no forno[4].

Ou seja, informação sem a devida apuração é suficiente para se considerar uma massa, que sovada muito bem em um local com a temperatura elevadíssima em razão do fenômeno mundial da polarização política, crescerá e virará uma iguaria chamada escândalo.

No Brasil, não é diferente.

Há pelo menos 20 anos, boa parte dos jornalistas investigativos brasileiros estão se valendo do seu importante sigilo da fonte como forma pragmática de busca da verdade, publicando a informação que possua de forma ainda incipiente para aumentar lucros e egos, sem o compromisso com a verdade.

Em tempos de redes sociais e de uma sociedade politicamente polarizada, lucros e egos se traduzem em uma palavra: engajamento. A busca pelo engajamento tomou, portanto, o lugar pela busca da verdade no Brasil e, nesse contexto, parte do jornalismo brasileiro passou a preferir o escândalo à verdade.

Escândalos acontecem apesar de jornalistas, é importante dizer. Ou seja, ao jornalista cabe apenas dar publicidade ao escândalo. O problema é que essa parcela utilitarista de profissionais da imprensa usa o escândalo para, em vez de esclarecer, tumultuar; ao invés de elucidar, prender os espectadores em suas ilusões, provocando neles sentimentos ignóbeis e atitudes raivosas nas redes sociais.

Sob o manto da liberdade de imprensa, essa parte da mídia acaba por realizar uma verdadeira prisão platônica do espectador, de tal maneira que este já não consegue ser livre para saber qual a verdade no caso concreto e tomar sua decisão.

Assim, o jornalista-utilitarista se mune de sua liberdade para ferir a do outro.

E nessa luta cega pela verdade, o que fazem os cativos espectadores? De dois caminhos, seguem um: apoiam-se na descrença do sistema; ou no “jornalismo de alcunha”, que é aquele formado por jornalistas (também utilitaristas) apelidados por “lavajatistas”, “lulistas”, “bolsonaristas”, “supremistas” etc.

E, assim, o jornalismo pragmático se retroalimenta e só cresce no Brasil.

Diante desse cenário, qual a verdade no “caso banco Master”?

Ora, não há informações suficientes para se chegar à verdade, logo não é possível uma reposta neste momento, por mais que isso doa no âmago daqueles que buscam – como eu – a verdade absoluta, nua e crua.

De um lado, temos uma apuração feita pela jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, que não pode ser levada em consideração como a verdade absoluta, mas considerada como um ponto de partida para melhor se investigar um suposto – e inaceitável – desvio ético de ministros.

Considerar como verdade fatos que são alegados por uma fonte única de informação, sem documentos, sem processo, sem ouvir e pesquisar mais, é permitir o mesmo erro cometido na operação “lava jato”, em que parte do jornalismo explorou o espetáculo, tomou partido e criou, de forma utilitarista, um inconstitucional tribunal de exceção no país.

Não pretendo discutir o mérito dos processos criminais daquela época e tampouco ouso dizer que os jornalistas são os únicos culpados pelos vícios processuais, mas é impossível negar que foi decisiva a atuação de parte da mídia para o mau desenrolar daqueles processos.

De outro lado, em contraposição à tese da jornalista d’O Globo, temos notas oficiais do gabinete de Alexandre de Moraes dizendo não condizerem com a verdade as afirmações feitas por ela. Notas que muitas vezes podem até ser coerentes, mas não responderam a todos os pontos apontados pela sigilosa fonte de Malu Gaspar.

Em meio a essa difícil busca pela verdade, restou ao ministro Dias Toffoli a decretação do sigilo na investigação do “caso banco Master”, de modo a fechar as portas ao jornalismo utilitarista e elevar a descrença popular com relação à imparcialidade do Poder Judiciário.

Alguns poderiam dizer que estamos exatamente diante do pensamento de Nietzsche no sentido de que as verdades são metáforas gastas que servem à vontade de poder [5].

Sigo tentando me libertar das ilusões, até ouvir uma mentira bem pregada.

 


[1] PLATÃO. A República (“Livro VII”). Texto integral. Tradução de Pietro Nassetti. 3ª ed. São Paulo: Martin Claret, 2000.

[2] LOBATO, Monteiro. Memórias da Emília, 2ª ed., São Paulo: Globo, 2009.

[3] RUSSEL, Bertrand. “Os problemas da filosofia”. Traduzido por Jaimir Conte. Oxford University Press paperback, 1959.

[4] KOVACH, Bill; RESSENTIEL, Tom. Os elementos do jornalismo. O que os jornalistas devem saber o público deve exigir. Traduzido por de Wladir Dupont. Geração Editorial, 2004.

[5] NIETZSCHE, Friedrich. Sobre a verdade e a mentira no sentido extramoral. Traduzido por Fernando de Moraes Barros. São Paulo: Hedra, 2008.

Leonardo Estephan

é formado pela Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo), advogado e criador do perfil @stfemfoco em todas as redes sociais.

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