Opinião

ADIs 5.553 e 7.755 e reforma tributária: constitucionalidade do regime fiscal dos defensivos agrícolas

Poucos temas mobilizam tanto o debate público quanto o uso dos defensivos agrícolas. De um lado, grupos e personalidades possuem preocupações legítimas com impactos ambientais e riscos à saúde humana; de outro lado, existe a necessidade de manutenção da produtividade agrícola e da segurança alimentar em escala nacional e internacional, especialmente em um país cuja economia possui forte base agropecuária.

Reprodução

Foi nesse contexto que chegaram ao Supremo Tribunal Federal as ADIs 5.553 e 7.755 [1], questionando a constitucionalidade de benefícios fiscais concedidos à comercialização de defensivos agrícolas, notadamente reduções de base de cálculo de ICMS (Convênio 100/97) e desonerações de IPI.

As ações foram julgadas improcedentes ao final de 2025, com a manutenção dos benefícios fiscais, considerados constitucionais pela corte.

Embora o caso tivesse como objeto regimes específicos de ICMS e IPI, seus efeitos não se restringem ao passado normativo, dialogando diretamente com o novo desenho constitucional inaugurado pela reforma tributária na EC 132/2023 [2], que passou a prever regimes diferenciados para os insumos agropecuários no âmbito do IBS e da CBS, posteriormente disciplinados pela Lei Complementar 214/2025 [3].

ADIs 5.553 e 7755

Cumpre destacar, desde logo, que as ações não questionavam a autorização regulatória dos produtos nem a legalidade de sua comercialização. O ponto central era outro: saber se a concessão de benefícios fiscais a defensivos agrícolas violaria princípios como capacidade contributiva, seletividade, proteção ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e à saúde.

A linha majoritária do tribunal partiu de uma premissa metodológica clara, enfatizada pelo ministro Cristiano Zanin:

“(…) nós não estamos aqui discutindo o uso de agrotóxico, mas a possibilidade de uma política fiscal específica para esses produtos.”

Assim, a análise deveria se limitar à verificação de eventual incompatibilidade direta entre o regime fiscal estabelecido e os comandos constitucionais enfocados.

Spacca

A votação iniciou-se em plenário virtual, mas, após pedido de destaque do ministro André Mendoça, o caso foi julgado em sessões presenciais (registradas no YouTube [4]).

A divergência, que restou vencedora, foi aberta, na sessão presencial, pelo ministro Cristiano Zanin[5], que foi acompanhado pelos ministros Gilmar Mendes, Alexandre de Moares, Luiz Fux, Dias Toffoli e Nunes Marques.

Insumo produtivo e lógica econômica: reflexos nos custos da alimentação

Possivelmente um dos pontos mais relevantes do voto do ministro Zanin tenha sido a qualificação expressa dos defensivos como “insumo técnico imprescindível à agricultura contemporânea”.

Foi afirmado:

a política fiscal de exonerar agrotóxicos não visa propriamente estimular ou desestimular o seu consumo, mas sim, reconhecendo a sua natureza de insumo técnico imprescindível à agricultura contemporânea, objetiva reduzir custos de produção alimentar, evitando aumentos expressivos nos preços pagos pelos consumidores brasileiros e mantendo a competitividade internacional do país.”

Esse trecho revela três fundamentos estruturais:

1. A desoneração não tem finalidade comportamental, mas econômica;
2. O produto integra a cadeia produtiva, não sendo tratado como bem de consumo final;
3. A política fiscal conecta-se a valores constitucionais como direito à alimentação e desenvolvimento nacional.

O ministro Luiz Fux destacou que os defensivos são necessários para controlar pragas, aumentar a produtividade e atender à demanda populacional, integrando uma política agrícola voltada à garantia do direito à alimentação.

Já o ministro Gilmar Mendes acrescentou que seria “de imensa ingenuidade” supor que a revogação dos benefícios seria absorvida pelos grandes agentes econômicos, ressaltando que, em última instância, o custo tributário recairia sobre o consumidor final, adquirente dos alimentos produzidos com uso dos defensivos.

Enquanto o ministro Luiz Fux articulou a discussão com o artigo 196 da Constituição (direito à saúde), destacando que políticas econômicas podem igualmente ser instrumentos de redução de riscos sociais, sobretudo em cenário de escassez e necessidade de segurança alimentar.

Deste modo, o julgamento pela constitucionalidade dos benefícios fiscais aos defensivos se desenvolveu sob a ótica uma política fiscal de redução dos preços dos alimentos e não pelo potencial danoso dos produtos, cujo encarecimento provocaria, este sim, efeitos perversos.

Riscos ambientais e defensivos agrícolas: produtos submetidos a alta regulamentação

A atividade envolvendo os defensivos agrícolas é intensamente regulamentada, passando por análise técnica de três órgãos federais — Mapa [6], Ibama [7] e Anvisa [8] — antes de sua comercialização e uso.

Segundo a maioria, eventual risco ambiental deve ser enfrentado prioritariamente por instrumentos próprios de polícia administrativa e regulação sanitária, não pela tributação como mecanismo indireto de desestímulo.

O ministro Gilmar Mendes observou, inclusive, que a supressão dos benefícios poderia gerar os seguintes efeitos adversos:

1. Estudos juntados pelo Mapa indicaram que, sem defensivos, seria necessário dobrar a área cultivada para manter a produtividade, com impactos ambientais consideráveis, dado as novas áreas que afetariam as regiões de floresta;
2. O aumento dos custos poderia incentivar o uso de produtos não licenciados por pequenos e médios produtores.

A analogia feita pelo ministro Alexandre de Moraes com medicamentos reforçou esse raciocínio: tornar um produto mais acessível não implica que quem não precisa passará a consumi-lo; significa apenas que quem necessita e antes não podia comprá-lo passa a ter acesso até mesmo ao que não deveria ter.

Meio ambiente, saúde e desenvolvimento: harmonização possível

Os argumentos contrários invocavam o artigo 225 da Constituição, que abrigam o princípio da precaução e a vedação ao retrocesso ambiental, sustentando que a desoneração tributária enfraqueceria a proteção ambiental.

A maioria dos votos, contudo, não identificou violação direta ou necessária aos comandos constitucionais.

No voto do ministro Luiz Fux, a proteção ambiental foi compreendida de forma integrada à proteção da qualidade de vida humana e à segurança alimentar. O uso responsável e regulamentado dos defensivos, segundo destacou, pode contribuir para evitar perdas na lavoura, garantir qualidade e quantidade da produção e mitigar riscos.

O ministro Gilmar Mendes, destacou que não ignora os potenciais efeitos negativos de defensivos agrícolas, mas, considerando que não há alternativas eficazes e economicamente viáveis desenvolvidas até o momento, bem como, que os efeitos danosos de certo produto não retiram dele seu caráter de essencial.

A lógica adotada foi clara: o controle ambiental permanece necessário, inclusive com possibilidade de controle judicial em casos concretos (como já ocorreu em precedentes envolvendo amianto), mas isso não implica invalidar automaticamente o regime tributário diferenciado.

Reforma tributária: princípio de proteção ao meio ambiente e regime diferenciado dos insumos agropecuários

A reforma tributária promovida pela EC 132/2023 introduziu duas diretrizes constitucionais que, à primeira vista, podem parecer “tensionadas” entre si.

Por um lado, o artigo 145, §3º, da Constituição, passou a prever expressamente que o sistema tributário deve observar a defesa do meio ambiente como princípio orientador; de outro modo, a própria emenda autorizou regime diferenciado para insumos agropecuários e aquícolas, com redução de alíquotas de até 60% no IBS e na CBS.

A Lei Complementar 214 regulamentou essa previsão e incluiu expressamente, em anexo, os defensivos agrícolas no rol de insumos beneficiados:

“Inseticidas, fungicidas, formicidas, herbicidas, parasiticidas, germicidas, acaricidas, nematicidas, raticidas, desfolhantes, dessecantes, espalhantes adesivos, estimuladores e inibidores de crescimento (reguladores); todos destinados diretamente ao uso agropecuário ou destinados diretamente à fabricação de defensivo agropecuário; em conformidade com as definições e demais requisitos da legislação específica.”

Além da redução de alíquota, a LC 214 prevê diferimento do IBS e da CBS em determinadas operações, inclusive importações vinculadas à cadeia produtiva.

É previsível que se levante a seguinte objeção: se a defesa do meio ambiente é princípio estruturante do sistema tributário, como justificar regime favorecido para produtos associados a potenciais riscos ambientais?

Essa crítica parte de uma leitura que pressupõe incompatibilidade automática entre proteção ambiental e tratamento tributário diferenciado, o que é um sofisma.

Contudo, a própria arquitetura da EC 132/23 demonstra que o constituinte derivado não adotou essa premissa. Ao mesmo tempo em que consagrou a defesa do meio ambiente como vetor interpretativo do sistema, preservou espaço para políticas setoriais voltadas à segurança alimentar e ao desenvolvimento agropecuário, entendimento, inclusive, citado pelo ministros do STF nos votos das ADIs 5.553 e 7.755.

A reforma tributária não proibiu benefícios/incentivos fiscais a produtos ambientalmente sensíveis; ela exigiu que o sistema tributário seja interpretado de forma coerente com a proteção ambiental. Nesse cenário, eventuais tentativas de retirar o regime diferenciado por via interpretativa, ou desqualificar defensivos agrícolas como insumos agropecuários, afrontam não apenas a literalidade da Lei Complementar 214/2025, mas também a orientação fixada pelo STF [9] nas ADIs 5.553 e 7.755.

Ao reconhecer a natureza dos defensivos como “insumo técnico imprescindível à agricultura contemporânea”, o Supremo delimitou um parâmetro relevante: a análise constitucional deve considerar a função econômica do bem dentro da cadeia produtiva e da necessidade de desenvolvimento econômico sustentável.

Essa compreensão protege a previsibilidade do regime jurídico aplicável ao setor agropecuário. Para os produtores rurais, a estabilidade tributária é elemento essencial de planejamento, especialmente em atividades marcadas por sazonalidade, exposição climática e ciclos longos de investimento.

Considerações finais

A presença simultânea do princípio da defesa do meio ambiente e do regime favorecido para insumos agropecuários no texto constitucional reformado demonstra que o sistema não opera por exclusão, mas por ponderação.

O meio ambiente não é ignorado, pois ele orienta a interpretação e a aplicação do regime. Todavia, não elimina, por si só, políticas públicas voltadas à produção de alimentos, à competitividade agrícola e ao desenvolvimento nacional.

O STF, nas ADIs 5.553 e 7.755, entendeu que esse equilíbrio institucional não foi violado pelo regime tributário diferenciado. E inclusive reforça esse entendimento no texto da EC 132/2025.

O julgamento, assim, reafirmou os limites do controle judicial sobre escolhas fiscais e evidencia a tensão — nem sempre resolvida — entre proteção ambiental, desenvolvimento econômico e segurança alimentar em uma economia constitucionalmente comprometida com ambos os valores, que muitas vezes se dá por viés ideológico e não técnico.

 


[1] Aqui

[2] Aqui

[3] Aqui

[4] Aqui, aquiaqui

[5] Como o caso teve início em julgamento virtual, em primeiro momento quem abriu a divergência foi o Min. Gilmar Mendes, todavia, como o Min. Cristiano Zanin abriu a divergência na sessão presencial, ele ficou como o redator do acórdão e condutor da divergência.

[6] Ministério da Agricultura e Pecuária.

[7] Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis

[8] Agência Nacional de Vigilância Sanitária

[9] Intérprete da Constituição.

Samuel Jefte Vieira Cavalcanti Matias

é advogado na P&R Advogados Associados.

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